A coluna Desvio Indica apresenta artistas para o público toda sexta-feira. As primeiras cinco foram realizadas com artistas premiados pela Desvio no II PEGA (2018). Entrevista realizada por Clarisse Gonçalves.
Camilla Braga: Escolhi esses 4 trabalhos [as imagens estão distribuídas ao longo do texto] pois acredito que eles percorrem uma narrativa. Na Faixa, divulgo meu trabalho nas diversas linguagens que a arte contemporânea possibilita: Performance, videoarte, instalação, etc… Numa referência ao artista-etc de Ricardo Basbaum, deixo aberta as alternativas técnicas de produção de trabalho de arte. Eu sou o que precisar ser. Artista, escritora, pesquisadora, curadora. Penduro quadro, prego na parede, pinto, coloco massa, lixo parede… Basbaum se refere ao circuito de arte e como ele funciona, no sentido de especificações trabalhistas de produção, ao passo que, a minha volta, percebo diversos amigos sendo o que chamo de artista-mais-que-etc. Esta é uma teoria que inventei a partir do artista-etc. Artistas-mais-que-etc são pessoas que, além das multiplicidades que precisamos assumir enquanto artistas contemporâneos, como desenvolvido por Basbaum, lidam também com questões sociais de gênero, cor de pele, sexualidade, exílio social. Nossa presença, nossos movimentos nos espaços da arte contemporânea ainda são um ato político de afirmação. Atravessamos importantes questões além das paredes da instituição de arte. No segundo e terceiro trabalhos da narrativa, Obra em Obras e Óleo sobre tela, proponho uma escultura e uma pintura que são trabalhos vazios enquanto objeto de arte tradicional. No primeiro, o objeto é a estrutura que protege o vazio e no segundo, o atelier de artista é montado por completo, mas pintura e escultura enquanto as tradicionais da história da arte não existem de fato nestes trabalhos. São apenas proposições, são promessas… Por fim, sou premiada como Artista do mês, penso numa relação entre arte e leis trabalhistas, onde quem ganha realmente pelo esforço do funcionário, é o patrão. No nosso caso, o mercado sempre ganha. Nesta narrativa, sou funcionária do mês mesmo tendo produzido “nada”. É também sobre meritocracia, visibilidade, quem está dentro e quem está fora do circuito (principalmente mercadológico) da arte contemporânea.
CG: Em Obra em obras e Óleo sobre tela são utilizados materiais que estabelecem diferentes relações entre espaço-obra-artista, como você enxerga essas relações no circuito de arte contemporânea?
CB: Em Obra em obras e Óleo sobre tela, proponho uma escultura e uma pintura que não existem enquanto objeto e imagem esperados. O vazio no centro do Obra em obras aponta para algo que está eternamente em construção, sobre o processo de monte e desmonte, ruína em edificação. Obra em obras é feito para ocupar passagens, atrapalhando o caminhar pelo hall da galeria, é um incômodo, mas aponta para o progresso. Um sacrifício a ser cumprido em nome da evolução. Já Óleo sobre tela oferece toda a estrutura teoricamente necessária para que qualquer um seja artista. Nele, monto um atelier completo, tem uma placa que diz “permitido ser artista” mas, invés de tinta óleo, ofereço óleo de cozinha. Provoco sobre o papel que nós mulheres ainda ocupamos no circuito de arte e, além disso, as ferramentas necessárias para que sejamos artistas, no sentido de poder trabalhar exclusivamente com isto, sem que precisemos nos desdobrar e trabalhar paralelamente com outras coisas para nos sustentar, além das questões de estrutura social que disse anteriormente. O retorno financeiro é um obstáculo para jovens artistas no geral, até porque o tempo de investimento é muito grande e o retorno nem sempre garantido. Este cenário se agrava de acordo com o distanciamento destes territórios, que tem fronteiras muito bem delimitadas. Por isto, nossa inserção ainda é um ato político, uma vez que arte é historicamente feita para ser degustada pela elite e este cenário segue em manutenção. Para a periferia acessar os principais centros culturais do Rio de Janeiro, é preciso um esforço enorme de deslocamento, além do preço da passagem e fatores que quase passam desapercebidos, mas até a arquitetura do ambiente influencia no quanto o espectador se sente acolhido ali,não esquecendo, claro, das regras de comportamento: não atravessar a faixa amarela, não tocar, não falar alto… Óleo sobre tela é sobre quebra de expectativa, frustração, sobre (não) ter as ferramentas para circular no cenário da Arte Carioca, mas criar seu próprio circuito, encontrar outros modos de continuar produzindo e não parar. A imagem formada não é o que se espera de uma pintura tradicional, mas, ainda sim, é uma imagem. É um outro tipo de imagem, uma imagem imprevisível porque ultrapassa as barreiras da imagem tradicional, conservadora.
CG: Artista do Mês faz uma referência ao modo de trabalho que visa, além de tudo, resultado e produtividade. Qual a ligação entre essas características e seu trabalho? Pensando o artista atual e o lugar que ocupa em uma sociedade hierarquizada?
CB: No contexto desses quatro trabalhos, artista do mês pode ser lido como um prêmio pra quem não fez nada. Com ele, penso a influencia das instituições de arte no processo de legitimação do artista. Penso em duas maneiras de ler este trabalho, de acordo com a narrativa apresentada. Na primeira, não produzo “nada” e mesmo assim sou premiada, é sobre meritocracia no mercado. Apesar de estarmos lidando com subjetividades e objetos efêmeros, poéticos, o título de artista me traz legitimação e visibilidade sem precisar da minha força de trabalho real. Por outro lado, a força de trabalho existe, uma vez que, por mais que no trabalho de Obras não exista o objeto no centro, existe a escultura que cerca o vazio. Na pintura a óleo, o trabalho, além da instalação de atelier, produz uma imagem a partir da gordura do óleo na tela. Ou seja, não trabalhei das maneiras tradicionais, mas minha força de trabalho, de pensamento, de pesquisa e poética, estão ali. Por isto, recebo o título, que é dado por mim à mim mesma, numa era onde grandes artistas funcionam como empresas. Basta abrir o instagram do studio Olafur Eliasson pra perceber como o moinho gira ali, são vários funcionários, eles tem até refeitório e funcionários de cozinha. Olafur é uma empresa. Neste sentido, me coloco como empresa, como instituição também, uma vez que, para mandar propostas para alguns centros culturais é necessário ter CNPJ. Ser empresa faz parte do ser artista-etc e também do artista-mais-que-etc, ocupamos o papel de vários funcionários em 1 corpo, meu corpo.




Contato da artista
Portifólio online: http://cargocollective.com/CamillaBraga
CV: http://cargocollective.com/CamillaBraga/CV
Exposições coletivas
2015 | Tertúlia de encerramento, EAV do Parque Lage
2015 | Exposição Novas Poéticas – Reitoria – UFRJ
2016 | Mostra de Performances Sara-há #2 – Espaço Saracura
2016 | Exposição Intervenções entre XIX e XXI – MNBA
2017 | Abraço Coletivo – Saracura
2017 | IV FAC – Instituto de Artes e Design – UFJF
2017 | Histórias fora da Ordem – Museu Histórico Nacional
2017 | Mostra na Phábika – Centro Cultural Phábrika
2017 | I PEGA – Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica
2017 |Saguão de Arte Cura – Reitoria – UFRJ II
2017 | FestFic Faixa – Fórum de Ciência e cultura da UFRJ
2018 | Escrevo para me percorrer – CCJF
2018 | Uranus 1001 Faixa – Exposição coletiva em casa
2018 | Greve Geral Faixa – Centro Cultural Phábrika
2018 | Mesa de Cabeceira Pintura sobre Faixa – A Mesa
2018 | A Título Precário – Centro Cultural Phábrika
2018 | Semana de Histórias das Artes: À Margem? – Reitoria UFRJ
2018 | II PEGA – Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica
2018 | Cenas para outras linguagens – EAV do Parque Lage
2019 | Verão em Queimados – Golfinhos da Baixada
Exposições Individuais
2017 | Certificamos que esta é uma Exposição, Antiga fábrica da Bhering
2017 | Óleo sobre Tela Novas Poéticas – Fórum de Ciência e Cultura – UFRJ
Exposições Invadidas
2017 | Carpintaria para todos Galeria Carpintaria
2018 | Abre Alas A Gentil Carioca
Seminários e apresentações
2018 | Semana de Integração de Artes Visuais – UFRJ – Capacete
2018 | Senzy Viva – Centro Cultural Pequena África
2019 | Apresenta: Seminários de Arte – Escola de Belas Artes, UFRJ
2019 | Workshop: Como se tornar um artista contemporâneo de sucesso na arte contemporânea – EAV Parque Lage
2019 | Roda de conversa com Camilla Braga – Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Residência LAVRA
Premiações
2017 | Artista do mês Camilla Braga Artista Contemporânea LTDA
2017 | Menção honrosa pela pesquisa A Arte, a História e o Museu em processo Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ
2019 | Melhor Pesquisa em Artes Visuais Revista Desvio
Publicações
2017 | Mesa de cabeceira Publicação de croquis de jovens artistas da Escola de Belas Artes, UFRJ. Editora: Decult/UFRJ
2018 | Revista Desvio Artigo – Profissão: Artista
Publicações sobre a artista
2017 | Casa Povera
2017 | Catálogo I PEGA, Revista Desvio
2018 | Revista Desvio: Texto 1
2018 | Revista Desvio: Texto 2
2018 | Revista Desvio: Texto 3
2018 | Revista Desvio: Texto 4
2018 | Catálogo revista Performatus
2019 | Revista Performatus ED. 20 ano 7 | N. 20 | ABR. 2019
Projetos
2017 | Contemplada pelo edital 047/2017: Edital de apoio ao evento do estudante (Decult/UFRJ) com o projeto de exposição Saguão de Arte.
Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte em andamento na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro. Bolsista do projeto “Mapeando Arte e Cultura Visual Periférica”.