Entrevista Robnei Bonifácio

Vila da Penha, 2016, 85 x 72cm, acrílica sobre tela.
Vila da Penha, 2016, 85 x 72cm, acrílica sobre tela.

Sou Robnei Bonifácio, nascido em 1991 e desde então morador de Irajá, na zona norte do Rio. Minha relação com arte começou de modo bem comum: através do desenho. Desenhar é a atividade que abre muitas portas para mim. Ela me levou à faculdade (Escola de Belas Artes), onde me formei em Gravura em 2013, e depois realizei um mestrado em Linguagens Visuais, concluído em 2018. Durante esse período percebi que desenho e arte de um modo geral são meios para atingir ou ativar sociabilidades. Mais do que o apuro técnico, elas são peças importantes para desenvolver um senso de comunidade. Esses aspectos passaram a ser cada vez mais evidentes em meus trabalhos artísticos, seja pelo desenho, pela pintura ou mesmo uma caminhada. Insta // Insta

Dose dupla, 2016, 96 x 70cm, acrílica sobre tela.

_ Oi Robnei, você atualmente reside em Irajá, como você disse, sua relação com arte se deu através do desenho, você pode falar mais sobre como se desenvolveu esse processo? 

Felizmente eu tive a sorte de ter uma família que nunca me negou apoio quanto a maior parte das coisas que quero fazer. Isso me deu acesso a muitas coisas. A memória mais antiga que guardo sobre desenho vem do tempo do jardim de infância. Na minha antiga escola Estrelinha Azul (que hoje é um buffet infantil aqui em Irajá), lembro de me sentar em um grupo de carteiras que tinham muitas caixas com giz de cera de variadas cores. A boa sensação de criar paisagens e ali retratar minha família eu guardo até hoje. Acho que esse foi um tempo de total liberdade. Como a maioria dos garotos da minha infância, eu tive como maiores referências os desenhos da Turma da Mônica, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e personagens de videogame como o Sonic para desenhar. Eu enchia cadernos e mais cadernos de desenhos com cópias dos meus personagens favoritos. Lembro que durante um período cheguei a escrever histórias em quadrinhos com um amigo meu. Acho que eu tinha uns 7 ou 8 anos de idade. Na adolescência cheguei a fazer um curso de histórias em quadrinhos. Até o início da faculdade eu ainda o frequentava, mas depois que aprendi um pouco mais sobre o meio artístico que costumamos chamar de arte contemporânea, passei a ter um outro entendimento sobre as maneiras com que o desenho pode ser aplicado. Até entrar na faculdade eu tinha triste ilusão de que ninguém dava muita bola pra arte e para desenhar, mesmo sendo elogiado pela família e amigos, haha.

_ Robnei, você comenta sobre a influência da caminhada em seus trabalhos, fala mais sobre isso? 

Pensando com mais calma, acho que as caminhadas convertem-se em formas de criar laços, sabe. Com o espaço, com alguém. As caminhadas que fiz enquanto trabalhos artísticos foram totalmente voltadas para isso. Neste caso, para reforçar laços e prestar uma espécie de homenagem aos meus amigos e amigas. É como se eu fizesse um retrato deles através desse desafio de atravessar a cidade do Rio de Janeiro. Foi o que fiz. Partir de Irajá e seguir para bairros relativamente próximos ou muito distantes, como os da zona sul enquanto eu procurava criar qualquer coisa que remetesse à pessoa querida que eu iria visitar. Andar pelas ruas me ajuda a coletar referências para pintar. Coleciono cartazes de rua que volta e meia arranco das paredes, postes, tapumes. Me aproprio de um pouco da paisagem para fazer uma cartografia dos lugares por onde passo. Andar fez com que eu me aprofundasse em Boa Esperança. Pude ver o bairro de diferentes pontos, conhecer as diferenças entre seus moradores, me conhecer. Sei que os relatos de minha experiência com o caminhar soam um tanto romantizados. Não sei dizer se tive sorte ou se fui cuidadoso, porque um corpo negro se deslocando pelo Rio de Janeiro, Nova Iguaçu ou Belford Roxo… infelizmente tem potencial para ser alvo. Em qualquer lugar onde a supremacia branca funciona. Infelizmente eles funcionam.

_ Como você encara a relação entre o espaço geográfico no qual você tá inserido, e sua arte? 

Acho que ultimamente é ele quem vem guiando o que eu vou fazer. Não vou negar que olhar para arte me ajudou a ser um pouco mais sensível ao meio em que vivo. Fiquei um pouco mais atento. De modo geral, o subúrbio dita quase tudo o que tenho feito artisticamente. Andar por Irajá, pegar a linha 2 do metrô, ficar preso no trânsito indo para a Baixada Fluminense e dar aulas são coisas que têm me ativado muito durante os últimos anos. Tenho ficado atento sobre onde meu trabalho pode circular também. Fico com a sensação de que ainda estou devendo ao subúrbio tudo o que ele já me deu de bom. Procuro mudar um pouco desse cenário de distanciamento entre a dita “Arte” que estamos acostumados a ver no meio “oficial” e os espaços onde vivo através da educação. Através de um diálogo.

Aula de Boa, 2016

_ Você comenta que seus trabalhos, além de peças de arte, tem como objetivo, também desenvolver um senso de comunidade. Você participa do projeto “Aula de Boa”, como é isso tudo pra você? 

Acho que a sensação de pensar “poxa, estou vivo e posso colocar coisas no mundo que têm alguma potência para os outros também” atingiu o ápice com a Aula de Boa. A fundação de uma comunidade passa pela representatividade. Seja ela racial ou territorial. Poder, através de desenhos ou pinturas, criar um senso de pertencimento é algo muito importante. Eu diria que isso começou com o projeto Diário de viagens e desde então tenho sido muito mais sensível a essa potência. A de algum modo ver crescer um humanismo também. No Diário eu pude compartilhar uma série de histórias de viajantes de diferentes partes do Brasil e do mundo. As pessoas que escreviam e ali foram retratadas podiam ver os relatos de outros viajantes que eu havia entrevistado. Cadernos com muitas histórias passaram por muitas mãos. Essa vontade de contar histórias, as chamadas pequenas narrativas, me conduziu à Aula de Boa. Com a Aula de Boa a diferença é que isso também passa pela pedagogia. Fui para Boa Esperança em busca do passado da minha família e acabei desenvolvendo em comunidade, um projeto educativo. Boa Esperança é um bairro que atravessa a história da minha família, a primeira comunidade. Meus avós paternos moraram lá por alguns anos com meu pai e meus tios. Durante minha vida toda fiz visitas à antiga casa de meus avós, principalmente durante a infância. Pela minha pouca idade, eu me limitava a explorar o espaço da casa e de um terreno elevado que existe logo em frente ao nosso quintal, do outro lado da rua. Ingressando no mestrado, coloquei Boa Esperança como território central de minha pesquisa e só então comecei a dilatar minha sensação de pertencimento ao bairro. Passei de fato a habitar a antiga casa e a ocupar as ruas da região para pintar e conversar com os moradores. A Aula de Boa surgiu dessa interação e da curiosidade das crianças que me viam com prancheta e pincel em mãos. Fundamos uma comunidade dentro de outra. Por parar em pontos diferentes do bairro, eu acabo agregando crianças de trechos diferentes. Formamos pequenas células que podem formar um corpo maior ou menor, dependendo do número de crianças que aparecem para desenhar. A confiança das mães e pais com o projeto tem sido uma das bases para que ele exista. Formar essa união usando o espaço público, as ruas para aulas livres de desenho, tem sido incrível. Acredito que essas trocas podem atingir um número crescente de locais e pessoas. Às vezes artistas acabam direcionando seus esforços para uma bolha já muito fechada, podem até mesmo ser condescendentes com espectadores. Pelo menos minhas amigas e amigos mais próximos não tem essa postura enquanto artistas…

_ Você participa do Aula de Boa há algum tempo, como você sente que sua influência no espaço afeta as crianças envolvidas no projeto? 

Olha, eu diria que existem modos variados de sentir os efeitos dessa influência. O mais direto está nos sorrisos, na correria e gritaria das crianças quando me veem chegar. Isso é o que mais me move. Ao final dos encontros ouvi-las perguntar “Tio Robnei, semana que vem vai ter tio Robnei?” é tão engraçado quanto gratificante. Eu preciso admitir, acabo virando um ímã quando chego na rua. Existem, sim, as diferenças entre os trechos onde encontro as crianças. Nas áreas mais pobres o número de crianças negras é maior. O número de crianças nas áreas carentes de um modo geral é grande. O modo como aderem ao projeto tem sido mais enérgico também. Ir para as ruas desenhar tem um poder transformador por si só. Não é uma atividade urbana muito comum. Pelo menos não de um modo geral. Consegui mudar isso em Boa Esperança. Ao ficar mais sensível a essas causas, passei a olhar para outros projetos que têm me inspirado muito como A Arte Salva (no Jardim Gramacho), a Casa Amarela (no morro da Providência) ou Apadrinhe um Sorriso (Parque das Missões). Ver gente empenhada me ajuda a transformar o meio em que vivo. Outras maneiras de perceber minha influência estão nos desenhos, no uso de alguma técnica específica e às vezes o próprio vocabulário que as crianças vão aprendendo. “Rascunho”, “esboço”, “cores primárias” são algumas das palavras que elas vão absorvendo aos poucos. Fico atento ao que as crianças falam. Devido ao meio em que vivemos, de algum modo elas acabam sendo atravessadas pela violência. Não é algo absoluto, mas acontece em diferentes níveis, de diferentes formas. Abandono do Estado que gera uma saúde vulnerável, uma escola precária. Ou o racismo, homofobia, racismo religioso, preconceito de classe. Na Aula de Boa tanto eu quanto os outros educadores procuram meios de levar as crianças à reflexão sobre o que está sendo dito e o porquê de algumas coisas serem ofensivas. O uso de livros durante as aulas é um ótimo caminho para diluir os preconceitos e elevar a autoestima das crianças, especialmente as negras. As crianças são o grupo mais presente, mas também temos alguns adolescentes que participam. Com eles sei que consigo falar de assuntos mais complexos envolvendo história ou política, por exemplo. Certa vez um deles veio me agradecer por comentar esses assuntos e tê-lo ajudado a formar sua própria opinião. Outro rapaz agradeceu ao se sentir representado quando dei uma bronca numa aluna que havia dito algo lesbofóbico. Em seguida ele havia se declarado bissexual. As relações de amizade são presentes no projeto. Ele é feito desses afetos. De fato, as atividades de desenhar e pintar são pontos iniciais para que esses detalhes apareçam. São matrizes para que a vida apresente sua complexidade.

_ Você se formou em gravura na Escola de Belas Artes e concluiu um mestrado em linguagens visuais. Você pode comentar um pouco mais sobre como foram essas experiências pra você, e como você acredita que essas experiências afetaram sua produção? 

Passar pela Escola de Belas Artes tanto na graduação como no mestrado foi algo muito forte. O maior ganho sem dúvidas foram as amizades. Através delas caminhar pelo meio artístico sem dúvidas fica mais prazeroso. Ou menos doloroso. Entrar na faculdade foi algo que criou muitos caminhos para mim. Cursar gravura, em particular, foi muito especial devido ao companheirismo que os ateliês coletivos do Fundão pedem. Os professores Pedro Sánchez, Kazuo Iha e Marcos Varela (que infelizmente faleceu em 2019) e os amigos que fiz tornaram minha formação muito mais divertida. Isso não significa que não havia trabalho duro. Muito pelo contrário. Mas era por aí que um ambiente muito afetuoso surgia. Pelo menos pra mim. O atelier de gravura passou a ser minha primeira casa, pois eu ficava um bom tempo lá dentro, hahaha. Como citei antes, me aprofundei sobre o que seria arte e seus diferentes campos. Entender um pouco mais sobre arte contemporânea fez com que meu trabalho ganhasse mais camadas e que eu me entendesse como um artista. Desenhar poderia resultar numa história em quadrinhos ou numa caminhada. Ou numa série de trocas, numa rede de afetos. É muito comum que a gente acredite que a habilidade manual seja essencial para um artista e esse tipo de pensamento predominava na Escola de Belas Artes. Durante boa parte do meu curso eu não me deparava com professores que conseguissem falar de maneira didática sobre arte contemporânea. Os professores da EBA que me ajudaram a entender mais sobre esse campo foram Fred Carvalho e Yoko Nishio. Fred me deu aulas de modelo vivo e a partir dali falava muito sobre artistas contemporâneos. Ele traça uma ponte do desenho para a arte contemporânea de modo bem habilidoso. Passei a fazer parte de um grupo de estudos que ele coordena e o conteúdo teórico passou a ser muito mais interessante. A Yoko conduz uma dinâmica entre prática de desenho e teoria que deixa a História da arte ser bem mais fácil de ser entendida. Fazer algumas aulas no Parque Lage também colaborou para minha formação. Professores como Evany Cardoso, Cadu e Franz Manata me ajudaram muito. Talvez o maior impacto entorno disso tenha sido uma espécie de “virada social” que meu trabalho sofreu. Comecei a me interessar por práticas que incluíssem outras pessoas além de mim na elaboração de algum projeto. Isso colaborou para que eu direcionasse meus trabalhos para o campo educativo durante o mestrado. Fazer o mestrado foi uma das coisas mais difíceis que encarei, sem dúvidas. A escrita é algo muito desafiador. Comecei a criar expectativas, auto-sabotagens sobre o que seria um bom texto ou uma boa pesquisa e isso é extremamente desgastante. É triste saber o quanto é comum mestrandos e doutorandos adoecerem durante seus cursos. Eu mesmo fiquei mal  durante a segunda metade do curso. Apesar disso, as práticas desenvolvidas enquanto mestrando foram incríveis. Aulas com Ronald Duarte e Lívia Flores no curso “Desilha” foram muito importantes para que eu pensasse sobre arte no espaço público. Isso colaborou para minha pesquisa de campo (que gerou a dissertação Territorialidade Afetiva) no bairro de Boa Esperança, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. É comum que eu tenha o desenho ou a pintura como pontos de partida para meus projetos. No caso de Boa Esperança, uma série de aquarelas fez com que o projeto educativo Aula de Boa nascesse. Fazendo referência à outra pergunta, esse projeto diz muito sobre como o espaço geográfico em que estou inserido pode direcionar minhas práticas.

Vou Paracambi, 2013

_  Suas vivências são perceptíveis em alguns de seus trabalhos, tomando como exemplo Vou Paracambi. Você pode falar um pouco sobre esse trabalho? 

Hahaha, lembro desse trabalho com carinho. Desenhar no transporte público era rotina até antes dessa pandemia. Certa vez eu estava em Madureira e em seguida teria de ir ao Parque Lage (fica num bairro quase vizinho, né?) para ver alguma palestra. Peguei o trem para ir à Central e dali pegaria algum ônibus para chegar ao destino. Isso se eu não tivesse pego a direção contrária na plataforma de trem. Como eu estava desenhando, não prestei atenção nisso e fui parar em Queimados, lá na Baixada. Bem que eu suspeitei da demora… Já que seria impossível chegar no Parque Lage a tempo de ver a palestra, fiquei na estação de Queimados desenhando. Acho que desenhei a própria estação. Depois pensei em como usar o desenho para registrar um percurso. Cogitei usar a linha de trem como o caminho a ser traçado com meu deslocamento. Foram três tentativas. A ideia era ir da Central até Paracambi (pegando o ramal Japeri e depois o Paracambi) em um dia e fazer o registro do percurso enquanto descia em cada estação. Foram 34 estações no total, se não me engano. Ao pisar nas plataformas eu tirava uma foto da placa que dá nome à estação e em seguida fazia um desenho de observação da mesma placa num caderninho. Iniciada a sessão de desenho, eu só parava de rabiscar quando o trem seguinte chegava, no qual eu embarcava. Assim eu seguia viagem e repetia o método. Eu queria muito usar o desenho com o propósito de narrar uma viagem. Acaba que usei a fotografia também e através dela é possível ver a alteração que começa na luz da manhã para as luzes noturnas durante o caminho. Ter o meu corpo como ferramenta central para o trabalho, usá-lo na linha do trem, condicionar certos movimentos ao horário de funcionamento (ou falhas) da SuperVia) foi algo bem interessante e que de alguma forma fala com a rotina de muita gente. Fala muito com o suburbano. Hoje em dia eu fico um tanto incomodado com alguns métodos para se fazer trabalhos de arte. Olho meus projetos com carinho, mas tenho questionado bem mais o uso de certas estratégias ao criar sistemas para fazer um trabalho, sabe. A gente acaba tendo quase sempre influência de arte conceitual gringa, branca, americana, europeia. O formalismo conceitual também entra nisso, a autorreferência ao usar determinados materiais. Não que esses caminhos não sejam bons. Não é sobre isso. Só tenho me perguntado ao olhar para minha própria produção mais recente: eu realmente preciso disso?. Voltando ao Paracambi: Na primeira vez eu não calculei bem o horário, não estava tão preciso quanto ao que colocar no desenho e no fim das contas só consegui ir até Deodoro porque as estações já estavam fechando. Vale lembrar que eu era rondado pelo cagaço de perder a câmera num assalto porque ela não era nada discreta. Acho que meu celular na época tinha uma câmera bem ruim. De qualquer forma eu teria medo de assalto, hahaha. Na segunda vez eu só consegui ir até Japeri, de novo por conta do horário. Só na terceira tentativa é que cheguei em Paracambi. Fiquei surpreso por não me sentir tão cansado. Havia acordado umas 4h da manhã de um sábado deixando minha avó preocupada, tadinha. Saí de casa falando que iria na casa de um amigo que mora longe para fazer um trabalho da faculdade, hahahaha. Foi uma longa jornada de umas 14h de viagem andando de trem, pelo que lembro. O trabalho dilatou a relação temporal que a viagem teria normalmente. Acho que levaria 1h30 para chegar no final se tomasse o caminho “correto”. Lembro que quando passei em Engenho de Dentro alguns guardas me barraram perguntando o quê que eu queria com aquelas fotos, falando que eu não podia tirar fotos na estação e blá blá blá. Um deles me reconheceu das tentativas anteriores e me deixou passar depois que expliquei o que estava fazendo. Acho que a carteirada de artista funcionou dessa vez, hahaha. Não lembro se foi em Sampaio ou Ricardo de Albuquerque que vi um cara se aproximando pela linha do trem e logo pensei “já era”. Felizmente o homem subiu na plataforma e em tom alegre perguntou se eu estava fazendo aquilo para a televisão. Chegando em Paracambi, pus minha mochila no chão para guardar a câmera e o caderno. Ao me ver abaixado por algum tempo, o cara na cabine da bilheteria perguntou: “Tudo bem aí, negão?”. Falei que estava bem e aproveitei para perguntar quando sairia o último trem. Ele me responde “Ih, é aquele lá!”, enquanto eu via o trem partir. Perguntei por ônibus e na praça de Paracambi havia alguns para Nova Iguaçu. Passeei um pouco pela cidade, cheguei a telefonar para meu amigo Ruan Machado (também formado na Gravura) perguntando se eu poderia dormir na casa dele, em Nova Iguaçu. Isso pelo medo de não conseguir voltar pra minha casa em Irajá. Na época eu não tinha as chaves da casa de Boa Esperança. No fim das contas havia um ônibus para a Central na pracinha em Paracambi. Consegui voltar em segurança para minha casa. Dormi que nem uma pedra. Em casa.

_ Além de morar no Rio, que é bem perigoso, pelos próprios exemplos que você deu na última resposta, a gente também enfrenta a questão racial. Você acredita que durante a jornada de desenvolver esse trabalho, isso tenha te causado algum problema? 

Até o momento, felizmente não sofri nenhum tipo de violência direta. Mesmo algo racista. Não que eu tenha percebido. Porém, durante alguns meses me vi forçado a ficar afastado das áreas mais carentes porque estavam acontecendo chacinas na Baixada. Algumas crianças deram relatos. Foi horrível ouvir, imagine presenciar. Algumas mães disseram que seria melhor eu não ficar por lá (as “autoridades” haviam estranhado minha presença. Eu estava levando outros educadores. Gente de fora e às vezes eu portava uma câmera fotográfica. Nessas horas vejo como sou maluco). Este período foi muito frustrante para mim, mas precisei me resguardar. Até hoje não ficou claro para mim se isso foi provocado por milícias. A solução neste período foi concentrar as aulas na antiga casa da minha avó. O lado bom foi ver a casa reativada com a presença das crianças, as festinhas que conseguimos organizar para o dia das crianças e o Natal.

_ Robnei, você possui uma série de trabalhos levando o título Diários de viagem, você pode comentar sobre como foi todo esse processo também? 

Falei brevemente sobre ele e o meu hábito de desenhar no ônibus ou metrô. As aulas de modelo vivo e histórias em quadrinhos despertaram meu interesse for figura humana há muito tempo. Cursando Gravura, pude aprender com minha amiga, a ilustradora Jade Mascarenhas, a fazer cadernos artesanais. Este foi um outro ponto de virada em meu trabalho. Ter cadernos como suporte  foi essencial para que alguns projetos surgissem. Para praticar o desenho e me distrair, eu costumo desenhar quando fico em engarrafamentos. Eu os usava como um meio de distração e de breve fuga daquele ambiente indesejado. Depois de tanto desenhar os passageiros em meios de transporte, vi que essa prática poderia ser deslocada para outros espaços, ainda que semelhantes. Muito dessa mudança se deve também ao fato de frequentar as aulas do Fred Carvalho. Ele me apresentou o trabalho de Dryden Goodwin, um artista inglês que fez uma série de desenhos de trabalhadores das estações de metrô de Londres. Outro cara que me influenciou muito foi o fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand com seu projeto “7 bilhões de outros”. É lindo, forte demais. Mais recentemente ele criou um projeto semelhante, o “Humans”. Dá pra encontrar fácil no YouTube. Esses caras me ajudaram a perceber que eu poderia construir pontes através do desenho de observação.  Assim passei a desenhar pessoas com o intuito de conhecê-las. Conhecer viajantes. Rodoviárias e aeroportos foram os lugares mais propícios a ter gente com disponibilidade de participar do projeto. O tempo de espera pelo transporte deixava esta brecha. Comecei pela rodoviária Novo Rio. Ali cheguei tomado pela timidez. Sou um cara tímido, então ao início do projeto eu demorava muito tempo até falar com alguém. Ficava sentado em algum lugar, desenhando o espaço ao invés das pessoas até conseguir ter coragem de abordá-las. Mas, justamente por estar ali e por ter gasto dinheiro de passagem ao sair de Irajá, eu precisava fazer algo. Não me contentaria em sair da rodoviária sem falar com ninguém. A ideia era simples: abordar algum passageiro ou passageira e pedir autorização para que eu fizesse um desenho. Um retrato num caderninho. Na página do retrato, um papel manteiga. Sua transparência faz com que o retrato fique sobreposto ao que a pessoa retratada escreveu na página seguinte. Ali ela mesma escreveria seu nome, o local em que se encontrava e qual seria o destino da viagem. Depois de uma série de desenhos acumulados, passei a pedir que me deixassem algum objeto de lembrança, ficando a critério deles decidir o que me dar. Justamente por ir acumulando retratos, as abordagens foram ficando mais fáceis de se fazer, pois os cadernos (somaram 4 ao total) despertavam a curiosidade dos possíveis participantes. Falei com pelo menos umas 200 pessoas. A maioria delas, seja nos aeroportos ou nas rodoviárias, fossem brasileiras ou estrangeiras, aceitava participar e isso me surpreendeu. Foi potente ver a abertura que alguns viajantes tinham ao compartilhar suas histórias, memórias, expectativas e criarmos “amizades passageiras”, como um amigo meu, o Elilson, também artista, certa vez me falou. Cheguei a reencontrar algumas delas, como um trio de amigos que assim como eu, havia saído do Rio para ir ver um show do Pearl Jam em São Paulo, em 2013. Desenhei uma das viajantes, chamada Juanita. Eles também estavam indo para o show e nos reencontramos no final. Futuramente nos vimos de novo, na minha exposição individual que aconteceu em Niterói no mesmo ano. Isso foi bom demais. Para cada pessoa retratada eu pedia que também deixassem comigo o e-mail para contato futuro. Cada um deles recebia a versão digitalizada de seu retrato. Cheguei a fazer uma série de retratos que foram entregues diretamente ao retratado, mas os próprios viajantes questionaram como eu faria uma exposição sem seus rostos. No fundo, existem muitos formatos possíveis de se apresentar este projeto. Só fui expor ele pela primeira vez 5 anos depois de encerrá-lo. Foi na exposição coletiva “Luzes Indiscretas entre Colinas Cônicas”, com curadoria do Marcelo Campos, na galeria Simone Cadinelli em 2018. Alguns dos retratados me perguntavam ou cobravam por e-mail por uma exposição, haha. Um deles, um venezuelano chamado Cristian Gil chegou a visitar a exposição. Foi uma pena eu não ter conseguido encontrá-lo novamente, mas fiquei muito feliz em saber da visita que fez. Cheguei a trocar cartas com duas taiwanesas, True Chang e Yu-Fang Tai e até o começo desde ano recebi um cartão de natal de uma delas. O diário de viagens merece uma exposição em que eu possa apresentar sua versão mais completa. Quero muito fazer isso. Em exposições coletivas fica muito mais difícil apresentar tudo o que coletei. Durante dois anos me desloquei pela Novo Rio e também pelo Galeão. Eu os chamava de ateliês, hahaha. Chegava cedo e saía tarde. Nos últimos momentos do projeto eu cheguei a ir para Itália, Portugal e Suécia. Depois de acumular tantos desenhos e objetos, resolvi focar em outros projetos. Seria interessante circular por mais pontos no Brasil e quem sabe no mundo. Ouvi muita gente. As conversas que tive com os viajantes normalmente duravam o tempo de sessão do desenho, uns 15 minutos. Tinha de ser relativamente rápido. As aulas de modelo vivo me ajudaram muito neste sentido. Outras conversas estendiam-se bem mais, para além do tempo do desenho. Ganhei objetos variados. A maioria das coisas cabia no bolso, de onde normalmente as pessoas as tiravam. Foram brincos, canetas, paleta de violão, meias, desenhos, cartas, livros. Eu mesmo cheguei a ser retratado em um dos cadernos por um dos viajantes que se propôs a me desenhar, um sueco chamado Roland Johansson. Também ganhei um instrumento musical. Um bem diferente chamado didgeridoo. É um instrumento de sopro que tem o timbre de um berrante, eu diria. Quem me deu foi um rapaz inglês chamado Jason McAnuff que estava com seu amigo, um colombiano chamado Andres. Ambos eram andarilhos e haviam descido boa parte da América Latina com suas bicicletas. Entre os objetos eu só não aceitava dinheiro. Pelo menos não o nosso, hahaha. Só moeda estrangeira. Preferia manter a troca entorno do colecionismo e de gestos singelos do que ser pago pelo que estava fazendo. Não era disso que se tratava o projeto. Certa vez um casal insistiu para que eu ficasse com os dez reais que haviam me oferecido. Agradeci, mas falei para eles que jamais gastaria aquela nota. Devo ter pelo menos uns 150 objetos variados guardados no meu armário. Ainda conseguirei um espaço bem grande para apresentar todos eles junto dos retratos de quem os entregou para mim.

Cinco estrelas, 200x100cm, acrilica sobre tela, 2019.

_ Você tem uma memória incrível por lembrar do nome de tantas pessoas durante o processo de produzir esse trabalho. Além da memória e do trabalho, você já imaginou como seria uma exposição individual com os frutos desse trabalho, ou tem algum desejo reservado à uma possível oportunidade de expô-lo? 

Hahahah, dos muitos entrevistados alguns se destacaram pela afetuosidade. Fico feliz ao lembrar como as pessoas podem ser amorosas. O que imagino no momento seria uma versão expandida do que apresentei na Simone Cadinelli. Alguns dos retratos e depoimentos acima de prateleiras com os objetos que recebi, só que em maior número. Acho que isso resultaria em pelo menos 50 trios de retratos, depoimentos e objetos alinhados. Cogitar um espaço maior para apresentar os outros objetos reunidos com uma réplica dos retratos restantes é importante também. Digo réplicas porque eu teria de desmontar os cadernos para colocar os desenhos ao lado dos objetos. Só fiz isso com um caderno. Outro grande desejo, claro, é rever as pessoas que desenhei durante uma exposição. Nossa, isso seria incrível. Revê-los depois de 7, 8 anos. Conversar mais uma vez, ouvir novas histórias, hahaha. Ver suas reações ao contemplar o projeto nesse formato, relendo o que escreveram, ver o quanto podem ter mudado. Por mais utópico que seja conseguir reunir gente de tantas partes do Brasil e do mundo… bem, se eu não pudesse sonhar desse jeito, não sei se eu seria artista, né?

_ Robnei, além do incrível trabalho que você tem produzido e exposto, você participou de diversas exposições, coletivas e uma individual, a Urbe, como foi essa experiência pra você? 

Nossa, foi incrível. Ela aconteceu num período de transição, em 2013. Eu estava terminando de cursar gravura e passei a pintar. Ao final do curso frequentei muito o Pamplonão, atelier de pintura da EBA. Assim como no atelier de gravura, eu ficava lá dentro por horas. Saía tarde. Aprendi muito com a professora Lourdes Barreto e meu amigo Claudio Tobinaga. Foi a gravura que me levou para pintura, em parte. Cheguei a ser monitor dos ateliês de gravura no Parque Lage e lá eu aproveitava para criar uma série de lambe-lambes serigrafados em papel jornal. Eu colava lambe-lambes em postes, muros, tapumes pela zona norte, junto a cartazes que achava interessantes e fotografava o resultado. Essas fotos foram as bases iniciais para que eu começasse a pintar. As primeiras referências. Para a exposição reuni algumas das minhas melhores gravuras, e algumas pinturas de tinta acrílica em papel. Usei toda uma sala para fazer uma grande colagem dos cartazes que coletei nos arredores do Instituto Cultural Germânico, o local da exposição. Para fazer a colagem contei com a ajuda de dois amigos que fiz no curso de gravura. Marc Soto e Luiz Henrique (este, um grande ilustrador). Soto me ajudou a catar cartazes por Niterói. Foi tão trabalhoso quanto divertido. Certo momento fomos até um muro que tinha um outdoor logo acima. Tentei puxar o outdoor inteiro até o momento em que ouvimos um grito vindo do terreno que ficava logo atrás: “Ei! O que vocês tão fazendo aí?”. “Tirando o cartaz”, eu disse. O sujeito replicou “Cadê o carro da empresa? Não tô vendo!”. Daí Soto logo disse “Vamo embora daqui antes que a gente leve um tiro, sabe”. Nos últimos minutos para terminar a montagem, Luiz Henrique me ajudou a colar o que faltava nas paredes. Foi muito bom poder reunir as colagens, pinturas e gravuras num momento de conclusão da minha graduação. Uma bela maneira de encerrar aquela etapa. Ver que para além da variedade de técnicas usadas, algo que tem me atraído é a temática urbana. Suburbana. Foi um outro momento que sem dúvidas me ajudou a me entender melhor como artista.

_ Arte é uma das linguagens de comunicação, como você acredita, e deseja se comunicar através de seus trabalhos? 

Hoje, sem dúvidas, por forte influência dos meus projetos mais recentes, eu digo que quero ser mais acessível para as pessoas dos espaços em que vivo. Não adianta nada fazer graduação, mestrado, doutorado e etc se não é possível construir pontes, comunicar algo para além do meio acadêmico. Seria um final muito triste. Em minhas aulas eu falo do meu trabalho e esta tem sido uma das chaves de comunicação mais direta que tenho encontrado. Costumo dizer para meus alunos, alunas e mesmo às mães e pais de alguns deles (afinal também dou aulas para crianças) que falar de arte é ampliar nossa linguagem. Ampliar linguagem é uma forma de poder. Bem, arte é mais um campo do saber. Tornar isso mais acessível seja através do meu trabalho ou comentando o trabalho dos outros é muito importante. Grande parte dos meus trabalhos comenta o subúrbio. O fato de algumas pessoas poderem reconhecer o nome de algum bairro, a característica de alguma paisagem ou mesmo uma cor específica nos trabalhos que crio gera uma noção de pertencimento. Isso é bom demais, ver um diálogo ser criado dessa maneira. Através da representatividade. Em termos de projeto, eu espero ampliar os espaços onde essas trocas são possíveis. Acontecem nas salas ou ruas onde dou aula. Em exposições também. Ainda não sei exatamente como estruturar isso. Por enquanto é só uma vontade, mas em algum momento vai acontecer. 

_ Além da Urbe, você também fez parte de diversas exposições coletivas, em alguns Estados do Brasil. Você sentiu alguma diferença cultural dentro desses espaços? 

Bem, na verdade quase todas as exposições que fiz foram no estado do Rio. A única fora do Rio (uma coletiva chamada A Caixa) foi em Brasília, organizado pela Suyan de Mattos. Acho que de modo geral as exposições foram organizadas de maneira independente. Pela falta de apoio financeiro, esse traço marca quase todos os espaços expositivos aqui no Brasil, mesmo aqueles ditos oficiais como em universidades e até museus. Uma das diferenças é a presença ou ausência de uma equipe de montagem. Trabalhar em equipe pode ser cansativo, mas até o momento tem dado certo para mim. Ajuda inclusive a criar e reforçar laços entre meus amigos e amigas. Graças a isso consegui até mesmo fazer duas exposições das crianças da Aula de Boa. É uma pena que nos anos recentes e pelo pior motivo possível, espaços e propostas independentes surgiam e sumiam rapidamente. Crise econômica, institucional, humanitária. Censura. O pior governo desde a redemocratização. Outros pontos são o poder de divulgação e sem dúvidas, o público. Quem viu meu trabalho na Gamboa pode não ter visto o que expus em Ipanema. Quem foi em Botafogo iria até Vista Alegre? Tenho ficado mais sensível sobre que tipo de público vê meu trabalho. Eu venho procurando mudar isso através da Aula de Boa. É preciso descentralizar o que se vê, o que se discute em arte. Ainda que às vezes pareça difícil… 

DJ’s Parade, 2019, 128 x83 cm, acrílica sobre tela.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

“Urbe”. Instituto Cultural Germânico, Icaraí, Niterói, RJ, 2013.

EXPOSIÇÕES COLETIVAS

“Comissão de frente”, Casa Meia Cinco, Rio de Janeiro, RJ. 2020

“Patifaria”, Espaço Titocar, Maricá. RJ. 2020

“Mapas para cruzar fronteiras”. Tipografia, Gamboa. RJ. 2019

“FAIM – Festival de Artes de Imbariê 2019”. Duque de Caxias, RJ. 2019

“Patifaria”, Corredor Azul, Ilha do Fundão – Reitoria. Cidade Universitária, RJ. 2019

“Salada Mista 2019”, Salada Mista. Vista Alegre, RJ. 2019

“Quinzena de Gravura” Hall da Reitoria, Cidade Universitária, Ilha do Fundão, RJ, 2019

“Maciota Orgânica”, Orgânico Atelier, Lapa, RJ. 2019

“Inventario das pequenas epifanias”, Centro de Artes Calouste, Cidade Nova, RJ. 2019

“Inundação”, Museu Casa do Pontal, Recreio dos Bandeirantes, RJ. 2019

“Andando na história do meu povo”, Galeria Gustavo Schnoor, UERJ, Rio de Janeiro. 2019

“Tipo Coletivo”, Tipografia, Gamboa, Rio de Janeiro 2019

Caixa Preta, Botafogo, Rio de Janeiro. 2019

“As Caixas”, Museu Vivo da Memória Candanga, Brasília, DF. 2018.

“Destraços”. Centro de Artes da UFF, Reitoria da UFF, Icaraí, Niterói. 2018.

“Luzes Indiscretas entre colinas cônicas”, Galeria Simone Cadinelli Arte Contemporânea, Ipanema, RJ. 2018

“Pedagogias Marginais”, Centro Cultural UNISUAM, Bonsucesso, RJ. 2017.

“Aula de Boa”, Centro Cultural Light, Centro, RJ, 2017.

“Circular Circulando”. Centro Cultural Light, Centro, RJ. 2017.

“Feira Farra Mestiça”. The Backpack Cat Hostel. Catete, RJ. 2017

“Fora de nada”. Centro de Artes da UFF, Reitoria da UFF, Icaraí, Niterói. 2016-17.

“Circular Circulando”. Galeria Vórtice – EBA, Cidade Universitária, Ilha do Fundão, RJ, 2016.

“A 32°”. Centro Cultural Fazenda da Posse, Barra Mansa, RJ. 2014.

 “Quinzena de Gravura”. Hall da Reitoria, Cidade Universitária, Ilha do Fundão, RJ, 2012.

“O Varal” (Circuito Oriente). Canto da Carambola, Santa Teresa, RJ, 2012.

Cinerock 4. Espaço Cultural Sylvio Monteiro, Nova Iguaçu, RJ, Brasil, 2011.

“Quinzena de Gravura + Grupo Cadeira Virada”. Centro de Artes Maria Teresa Vieira, Praça João Calvino, RJ, 2010.

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.