
Márcia Falcão, 1985. Nasceu, vive e trabalha nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro.
Artista Plástica graduada em Pintura em 2010 pela UFRJ. O tema recorrente tem sido a
problemática feminina vista através de experiências pessoais tendo o Rio de Janeiro como
cenário, ora belo e poético ora violento e assustador. Passeando pelo grotesco assume a
linguagem figurativa como meio para transmitir críticas à contemporaneidade.
Site / Insta
_Márcia, você nasceu e vive atualmente no Rio, você pode falar mais sobre a influência dessa vivência em seus trabalhos?
Eu nasci em Realengo. Mudei pra Cabo Frio com 8 anos e voltei com 18 anos. Sempre morei em bairros periféricos aqui e lá. Minha mãe é evangélica e meu pai devoto de São Jorge e portelense. Meus trabalhos são permeados por essas influências que julgo complementares e não antagônicas. Vi questões como racismo e violência contra a mulher serem discutidas desde sempre em família e tive que desenvolver senso crítico para ressignificar o que me era ensinado. “Ela é morena clara”, “mas tem cabelos lisos”, “tem que casar com branco para purar a raça”, são exemplos de frases que ouvi da minha avó materna. Somos uma família suburbana carioca tradicional: maternalista. Mulheres pretas que nem sempre se enxergaram pretas, mas que sempre sofreram por serem. A mesma avó das frases acima foi vítima de violência dentro do casamento. Se separou de um policial na década de 60 e trabalhou para sustentar a filha deste casamento (minha mãe). Muitos abortos. Muitos rótulos. Muitos lugares de cala. Respondendo a pergunta, vivo em um Rio de janeiro feminino e preto que está tão grande dentro de mim que transborda para os trabalhos.

_ Você é graduada em pintura pela UFRJ, como foi sua trajetória e percurso artístico dentro da EBA?
Caí de paraquedas na EBA. Recém-chegada à cidade. Vinda de meu Ensino Médio técnico em informática no CEFET-Campos UnED Macaé, tentei entrar para filosofia na UERJ mas nem sabia que existia reclassificação e perdi minha vaga. Só podia fazer um vestibular por ano. Questões financeiras. Estava no Rio. Em casa. Nada para fazer. Minha irmã sugeriu que eu fizesse uma aula de desenho que depois descobri que era um preparatório para o THE da UFRJ. Acabei prestando o vestibular e entrando para uma graduação que eu nem sabia que existia. Embora o desenho sempre estivesse presente na minha vida, não tinha pretensão de ser profissional nas artes visuais. Entrei naquele espaço acadêmico com a cabeça cheia de algoritmos, siglas e plantas baixas de conexões de rede arcaicas hoje, era 2004. Mesmo assim comecei a perceber que não estava no lugar errado. O pensamento crítico que eu buscava desenvolver na potencial filosofia na UERJ deu espaço ao fazer artístico que foi o que desenvolvi em intermináveis horas de Pamplonão. Minhas escolhas foram totalmente voltadas para práticas e história da arte. Ali aprendi a fazer os materiais, técnicas de desenho e pintura e restauro mas, acima de tudo, aprendi disciplina de ateliê. Aprendi a trazer a realidade projetos que antes eram pensamentos.
_Márcia, vendo seus trabalhos, assim como você afirma, os mesmos passam por diversas linguagens artísticas e poéticas, como se dá seu processo criativo?
Durante um bom tempo eu pensava no projeto todo e perseguia a ideia inicial até o fim. Hoje, depois de trocar com outros artistas e companheiros de pesquisa me percebo mais permeável. A plasticidade dos materiais me provoca muito assim como imagens e questões que me cruzam. Normalmente tudo parte de um incomodo que eu tento aplacar num movimento catártico através do trabalho. Minha formação é em pintura. Pinto figurativamente, mas me permito transitar por traços abstratos, assim como também gosto de em um mesmo espaço compositivo trabalhar hachuras e transparências, o desgaste do suporte e o exagero da camada pictórica. Às vezes os recursos plásticos estão em função da poética, às vezes pela materialidade em si. Perguntada uma vez porque a matéria é tão relevante no meu trabalho que também tem potência poética tão determinante cheguei à conclusão de que o meu corpo é meu primeiro suporte de trabalho. E desde muito jovem tenho sido lida e julgada pela materialidade dele. Sou alta. Tenho 1,78 desde os 14 anos. Me perceberam mulher antes que eu me desse conta disso. Tudo isso pela forma. Forma que a gordura preenche minha carne. Acredito que, como já disse antes, nesse movimento catártico, trabalho pluralmente as linguagens artísticas sem pudor ou limites como forma de expurgar esse uso que antes fizeram de mim mesma. Hoje, me permito trabalhar com qualquer linguagem e meio. Um exemplo disso é a fotografia. Até pouco tempo atrás ela era referência pra a pintura. Hoje percebo que alguns trabalhos se finalizam ali mesmo na fotografia. Por outro lado tenho percebido que existe a possibilidade de relacionar trabalhos entre si, como objetos e tenho me interessado muito por essa possibilidade, assim como o método expositivo que tem ganhado muita relevância na construção dos meus trabalhos.



_ Ser mulher no Brasil, e em diversos outros países pode ser uma trajetória dolorosa e complexa. Como você comentou, te perceberam mulher antes de que você mesma se desse conta. Um dos seus trabalhos, Vênus ( )formada, dialoga com violências frequentemente dirigidas a nós mulheres. Você quer falar sobre ele?
Sim. Esse trabalho é muito especial para mim. Foi minha primeira performance pensada e executada. Estava numa pesquisa de extrapolamento das “Mulheres Insuportáveis”. Experimentando outros materiais clássicos da pintura transitando para a escultura. Depois de carvão e massa corrida, comecei a pensar como trazer a potência do óleo para essa pesquisa de insuportabilidade. Nesta pesquisa eu propus uma separação entre suporte e camada pictórica. O suporte seria o masculino e a camada pictórica o feminino. A proposta era implicar sobre o feminino a não necessidade do masculino. A poética do meu trabalho surge muito a partir do material em si. Quando comecei a pensar em usar o óleo, comecei a pensar em gordura. Comprei gordura de porco e comecei a modelar tendo a vênus de willendorf como referência. Uso essa forma com frequência porque faz sentido poético dentro da minha trajetória pesquisando o feminino. Tanto no eixo maternidade quanto no eixo corpo gordo. Além disso a forma é simples e orgânica, não levanta grandes desafios para o fazer escultórico que, para uma pintora, seria um desafio a mais. O primeiro exercício foi levar essa escultura do congelador diretamente para a frigideira e perceber o desfazer dela em si mesma. Estou me preocupando em descrever com detalhes o processo porque muito do pensamento poético do meu trabalho surge no fazer. Nesse período eu estava pensando muito na potência da vênus e comecei a pensar em outras figuras femininas do panteão da história da arte como Madonas e Cariátides. A potência escultórica das Cariátides gerou muitos trabalhos. O que me leva finalmente à Vênus ( ) formada. A cariátide é a mulher que sustenta a estrutura arquitetônica. Ela é coluna. A coluna é uma forma fálica e nessa hora eu enxerto gordura. O projeto Vênus ( )formada começa nessa potência de levar a matéria que dá forma à mulher, no caso a gordura, e deslocar para o espaço arquitetônico num elemento que inicialmente seria masculino, fálico. Originalmente eu pretendia propor fazer essa “instalação” numa das colunas do viaduto Negrão de Lima em Madureira. Acrescentar sobre a estrutura rígida mamas, abdômen, quadris e nádegas. Elementos formais que caracterizam o feminino tanto biologicamente quanto no âmbito formal do desenho. Propus levar este projeto para a exposição DENTRO-FORA-ENTRE, na Galeria Desvio. A exposição tratava de maternidade e achei que a proposta instalativa dialogaria bem com a coletiva. Mas ao transpor o que seria uma instalação urbana efêmera para um espaço expositivo interno me vi diante de outros desafios. O que estaria no campo escultórico acabou retornando para a pintura por questão de adequação ao espaço. Os enxertos tridimensionais que eu havia imaginado na proposta inicial deram lugar à uma representação volumétrica de mamas , ventre e quadris em gordura de porco, pigmento e graxa. A graxa foi um recurso para eu poder controlar o tempo de “derretimento” da gordura. Esse fator foi agregado a poética do trabalho que ganhou mais um eixo de sentido quando justapus ao elemento da forma feminina texto escrito em pigmentos e lápis aquarelado no chão. Escrevi “palavras deformadoras”. Rótulos que as mulheres recebem da sociedade ao longo da sua vida e exercem esse potencial deformador. Por fim, o que seria instalação acabou se transformando em performance. Um corpo gordo, entrou no espaço expositivo com uma caixa branca. Dentro da caixa, potes escritos “elemento formal” estavam cheios da mistura de gordura, pigmento e graxa. Levei essa mistura para a parede formando mamas, ventre e quadris e me retirei no espaço. Ao me retirar, o calor do ambiente e a estabilidade da graxa fizeram a gordura cair devagar e “calar” as palavras escritas em pigmento que estavam no chão logo abaixo da figura. O título do trabalho oferece ao observador a oportunidade de completar o prefixo da palavra “formada”. A palavra forma dentro do universo da arte carrega sentido estético, plástico, concreto e abstrato ao mesmo tempo. De maneira geral, o pensamento no meu trabalho surge a partir de estímulos que partem de elementos metalinguísticos da própria pintura ou arte e traço diálogos para questões que sejam urgentes para mim. Nesse caso, o sustento da coluna que deixou de ser falo e se transformou em cariátide por causa de elementos acessórios do corpo, que são feitos de gordura. Gordura que gera desejo e preconceito ao mesmo tempo. Presença feminina que é alvo de rótulos deformadores e por fim, o desgaste dos elementos que são formadores do feminino apaga as palavras deformadoras. Quando o corpo gordo lança sobre a parede a gordura, busca se livrar do que desperta desejo, atenção, nojo, repulsa. Mas, acima de tudo, ela busca se livrar dessa bola de ferro que ela sabe que não determina seu caráter feminino. Retomando o título, quando implico sobre o observador a responsabilidade de completar o título, ele experimenta a potência de rotular essa mulher. Deformada, reformada, transformada. Quem é essa mulher? Esse trabalho não se propõe somente a lançar luz sobre a violência vivida pelas mulheres mas também a instigar o observador a perceber como é tênue a linha entre quem sofre violência e quem violenta. Essa ambiguidade da gordura ser um elemento que atrai desejo e gera repulsa e também a potência de matéria e palavras terem capacidades de formar ou deformar uma pessoa na mesma intensidade me interessa muito. A violência contra a mulher nem sempre é explicita, mas sempre tem caráter modelador. Quase como uma escultura. Uma batida de martelo, um corte de cinzel ou uma passada de lixa, fere, machuca, forma.
_ Márcia, a multiplicidade de plasticidades e poéticas no seu trabalho é admirável. Acredito que atualmente, essa multiplicidade traz aos artistas diversas formas de expressão. Como tem sido lidar com essa multiplicidade durante sua trajetória enquanto artista?
Então, uma das coisas que mais me perguntam é sobre a minha necessidade de ter a materialidade como uma questão dentro do meu trabalho. Depois de pensar, percebi que isso tem a ver com corpo e catarse de como a objetificação do corpo me atinge. O desejo, atração, vontade de toque e prova que ele desperta, tento levar para os objetos que eu construo. Quase dizendo: Não toque em mim, toque neles! Sobre a multiplicidade de plasticidades e poéticas, percebi que tem a ver com urgência. Lanço mão do que está à mão. Estou num momento de me permitir ser plural. Se daqui a pouco eu achar que preciso usar somente uma linguagem, uma plasticidade ou falar de um assunto, farei. Mas hoje não consigo focar. Estou sendo honesta comigo quando falo de várias coisas e maneiras diferentes. Pode parecer ser uma vontade de atirar para todos os lados, vendo o que “cola”. Não é isso. Desde meu período de formação tenho tentado ser honesta comigo acima de tudo. Me formei numa EBA conceitual, me dediquei à prática da pintura indo na contra-mão. Hoje me percebo diante de um sistema de arte que tem canons específicos. Pode até parecer piegas mas acredito de verdade que ser honesta na produção do trabalho deixa a obra quente, viva. Os trabalhos que tenho feedback maior são os mais pessoais e reais.

_ Você trabalha bastante com escultura, tomando como exemplo Vênus Brilhante, Lavadeira Metalinguística, e Retratos Insuportáveis, o último jogando com os limites entre pintura e escultura. Você pode falar como é sua relação com a escultura?
Minha formação é em pintura com ênfase na cozinha da pintura. Quando olho para um tubo de tinta vejo não somente cor, mas também matéria. A potência do gesto da pincelada ser levada para o espaço foi uma das motivações iniciais desse projeto. Inicialmente separei a pintura clássica de maneira estrutural: suporte, fundo, camada pictórica e verniz. O fundo e o verniz foram suprimidos inicialmente e me dediquei ao suporte e camada pictórica. Estabelecendo sentidos próprios a cada elemento. O suporte sendo a parte estrutural e a camada pictórica a que carrega sentido. Além disso, poeticamente sugeri ao suporte ser o masculino e a camada pictórica o feminino. Dessa forma comecei a trabalhar a libertação da mulher das cadeias do patriarcado propondo a não necessidade de existência de suporte para a camada pictórica. A camada seria seu próprio suporte. Daí surgiu o termo insuportabilidade. Retratos Insuportáveis e Vênus Insuportável são alguns trabalhos que iniciaram essa pesquisa. Praticamente o trabalho começou com o refugo da paleta de tinta acrílica. Depois no nascimento das minhas filhas fiquei um bom tempo sem pintar com tinta óleo por causa da necessidade de solventes mais fortes. A tinta acrílica que eu uso é bastante plástica e quando eu preciso limpar a paleta o refugo de tinta solta inteiro como um plástico. O primeiro retrato foi pintado sobre esse refugo: Insuportável Dercy. Não consegui pensar em uma mulher mais rotulada e autossuficiente no cenário artístico brasileiro no século XX. Até então o projeto transitava entre pintura e relevo. Decidi ir para uma estrutura de vulto com pastel oleoso. Foi onde nasceram as vênus insuportáveis. Durante o fazer outras peculiaridades foram sendo enxertadas na poética do trabalho como a aspereza. A finalização das pequenas esculturas de pastel oleoso deixou uma superfície como um muro chapiscado, mas os bastões em forma de mulher continuavam capazes de pintar. Quando esse trabalho foi para o espaço expositivo, foi sobre uma mesa com uma pilha de papéis em branco. E a proposição era que o visitante usasse as “pinturas escultóricas” para pintar. Isso era desconfortável. As Vênus feriam as mãos de quem as usassem. Quanto mais usada, as formas iam ficando mais orgânicas e machucavam menos as mãos dos usuários. Como já disse algumas vezes, meu pensamento poético surge muito do fazer. Uma figura representando o feminino foi colocada sobre uma pilha de papéis em branco e feria as mãos de que ousasse tocá-la. Quem a usou bastante, a feriu o suficiente para deixa-la sem defesas. Mas suas feridas geraram registro no papel que deixou de ser branco. Os retratos insuportáveis por outro lado foram expostos enfileirados. 28 cabecinhas de mais ou menos 10 cm cada. Mulheres notáveis e anônimas. Todas independentes de suporte. De alguma maneira aquilo me levou a pensar em cabeças decapitadas. Com o passar do tempo o método expositivo foi ganhando peso poético no meu trabalho e isso me interessa muito. Onde e como o trabalho é colocado muda e muito o que está sendo dito. Retomando a pergunta, esse trânsito começou de forma muito orgânica e foi ganhando sentido com o passar do tempo. A cera de abelha foi o primeiro degrau depois do pastel porque é o material base para os bastonetes caseiros de pastel oleoso que eu faço, já o sabão foi um solução prática para um workshop que ministrei na Vila Aymoré. Costumo fazer o workshop com carvão de churrasco lixado mas, como era um espaço que não permitia grandes sujidades, a solução foi o sabão. É um material relativamente barato e com a potência da cor. Além disso o sabão carrega signos para dentro e para fora do universo da arte. Imagina uma vulva esculpida em sabão. É suja? fede? Agora imagina uma mulher esculpida em sabão. É suja? fede? Agora imagina uma divindade do feminino esculpida em sabão. É suja? fede? Essas gradações de pensamento também são lugar comum do meu pensamento poético. Essas duas esculturas em sabão foram feitas agora no início do período de quarentena, em casa, durante lives com minhas filhas. Inicialmente a minha motivação foi dividir com mais pessoas esse exercício que é fácil e acessível, mas hoje considero sementes para projetos futuros. Vênus Brilhante está participando de exposição online e Lavadeira Metalinguística, que é uma releitura de Mestre Vitalino deve se transformar em vídeo performance com água. Assim como a vênus de gordura se mergulhou em si mesma na frigideira, esta lavadeira ser diluída até o desaparecimento me interessa. Uma mulher levada a inexistência. Mas ainda estou pensando nisso.
_ O feminino, periferia, e a violência são poéticas recorrentes em seus trabalhos, você pode comentar sobre como foi descobrir essa potência a ser explorada?
Gosto de falar de coisas que eu conheço. O feminino tem sido um tema recorrente desde sempre. O corpo feminino sempre esteve disponível na minha casa. Mulheres nuas ao alcance dos meus olhos, foram inspiração para muitos desenhos da minha adolescência. Através das formas femininas aprendi dinâmica da linha. Cresci à vontade com o corpo e nudez e hoje vejo a potência de ter total direito sobre o corpo. Impossível falar de feminino sem pensar em violência. A simples ocupação de espaços pelo corpo feminino gera violência. A mulher periférica resiste na cidade do Rio transitando pelos diferentes espaços, servindo de suporte para a cidade com sua força de trabalho e, ainda hoje, formando os seus filhos e os filhos dos outros.
_ Diversos trabalhos seus me chamam bastante a atenção, um deles sendo Ex mulher, você pode falar sobre ele?
Ex-mulher é um trabalho que eu gosto muito também. Pintei essa aquarela em 2018. Poucos meses depois do pai das minhas filhas ter saído de casa. Foi uma separação definitiva depois de muita discussão sem idas e vindas. Me vi em casa com duas crianças pequenas. Uma lactante ainda e um corpo que gritava a maternidade. Mamas cheias de leite e marcas gestacionais. Mas agora eu era ex-mulher. E me via mais mulher que nunca. Comecei a pensar na palavra em si. Ex-mulher. Fui mulher e deixei de ser. Deixei de ser porque não estava mais justaposta a um homem. Era mulher. Fui mulher de alguém e agora era ex-mulher. Não existe ex-homem. Somente ex-mulher. Tive vontade de retratar meu corpo. Como estava. Me lembro de acordar de manhã, antes da casa acordar, para me fotografar nua. Quando vi minha parte íntima pensei que ficaria algum tempo sem sexo. E comecei a pensar que as pessoas se acham no direito de definir até isso na vida da mulher separada. Vi uma ambiguidade incrível naquela situação. Um corpo cheio de marcas de maternidade é a casa de uma ex-mulher que não deve ter vida sexual. Ex-mulher trata disso. Um corpo cansado, usado, marcado e temporariamente lacrado. Interditado até a segunda ordem.

_ Márcia, você é moradora de Irajá. Como você encara as relações centro-periferia em sua vida e no desenvolvimento do seu processo artístico?
O deslocamento é uma constante na vida de qualquer suburbano carioca. A certeza de que vamos perder pelo menos 3 horas de nossos dias em trânsito já gera uma série de consequências no rendimento do trabalho, convívio familiar e social. Além da relação com o tempo ser diferente de quem habita regiões mais centrais, existe ainda a questão da exposição a violência, o gasto maior com deslocamento, e todos esses fatores são no fim das contas mais obstáculos que nós, periféricos, temos que driblar. Claro que as dificuldades geram calos que servem de trampolim para a criatividade. Posso colocar aqui um exemplo disso. Quando morava na Praça Seca, pegava um Caxias-Freguesia e descia em Irajá para pegar o metrô. Esse trajeto passa por Madureira e Vaz Lobo, entre outros bairros. Nesse percurso, tive várias prospecções de trabalhos já realizados e outros ainda em produção. Uma universidade que virou um prédio sucateado e ruas muito íngremes com excesso de fios de ligações clandestinas que criam hachuras no espaço são exemplos.
_ Um de seus trabalhos já realizados, intitulado Pos detrás da Lei, entra em contato diretamente com o que você acabou de comentar, fala um pouco sobre ele?
Claro! Esse trabalho é barroco! São tantos elementos! Tantas linguagens e questionamentos! Eu o considero tendo várias nascentes. A primeira é a que vai dar luz a faixa. Durante uma conversa na EAV Parque Lage fui indagada sobre a ausência do meu entorno suburbano no meu trabalho. Comecei a pensar sobre isso e percebi que ao longo da minha trajetória falei disso de forma orgânica. Sem pressão fetichista. Mas nessa volta ao fazer artístico, devido as minhas questões mais urgentes com o feminino, a violência urbana e toda essa potência periférica ficou um pouco calada. Nesse período estava morando na Praça Seca. Então comecei a me propor exercícios que dialogassem minha pesquisa com o feminino e o meu entorno. Nesse período o bairro estava passando por uma guerra entre milicianos e traficantes e essa disputa me atingia através das minhas filhas, principalmente. Éramos constantemente impedidas de ir à escola ou ao posto de saúde e isso foi fomentando alguns trabalhos. Pesquisando na internet vi uma faixa que havia sido colocada em frente ao posto de saúde onde elas eram vacinadas com os dizeres “Proibido Roubar: Não é pra um nem pra dois, é pra geral”. Essa frase partindo de traficantes me fez pensar muito. A posição onde ela foi colocada interrompia a paisagem. Cobrava um comportamento moral que quem exigia não cumpria. Paralelo a isso estávamos vivendo o processo de tramitação do projeto de lei anticrime do Sérgio Moro, que diminuía a punição de agentes públicos que usassem violência no exercício da função. E então, aconteceu uma coisa incrível. Caíram na área de serviço da minha casa duas sacas de ração para gado em ráfia plástica. O mesmo material das faixas de aviso dos traficantes. Descosturei uma das sacolas e escrevi parte do texto da faixa. Depois disso imprimi o projeto de lei anticrime do Sérgio Moro e picotei. Linha por linha para não perder totalmente a legibilidade e comecei a tramar essas leis inspirada pela trama do saco de ráfia. Meu pensamento era de unir de uma forma grotesca essas duas leis. Uma do poder “legítimo” e outra do poder paralelo. Uma tramada com legislação tendenciosa e outra escrita sobre saco que carrega alimento para gado. Mas faltava alguma coisa. Dei uma pausa na produção porque eu mesma não sabia o que estava faltando. Mas sentia que o sentido completo ainda não havia sido atingido apenas com a faixa. Retomei as motivações iniciais do projeto e percebi que havia um eixo que eu ainda não tinha explorado no trabalho. A faixa dos traficantes, entre outras coisas, servia como barreira visual na paisagem do bairro. Comecei a pensar que a faixa por si só no espaço expositivo estaria num cubo branco. Então comecei a pensar no que esta faixa estaria escondendo. O que essa violência impedia que a gente acessasse. Cheguei à conclusão de que precisaria arranjar uma maneira de representar o subúrbio que acaba se tornando difícil de ser acessado por causa da violência. Então comecei a pensar numa forma de trazer essa representatividade. Mas não queria que fosse óbvia nem fetichista. Costumo ouvir músíca quando estou pintando. Estava ouvindo Fundo de Quintal e bate de frente com a letra de Bebeto Loteria. Tem uma letra muito concreta e narrativa e em vários aspectos me tocou. Resolvi então pintar um painel alegórico e escondê-lo atrás da faixa. O método expositivo aqui foi determinante para o desfecho do sentido do trabalho. Quando você pinta um painel de mais de 3m², ele chama a atenção no cubo branco. Quando você esconde essa pregnância toda com uma faixa predominantemente branca, isso causa um ruído. Estranhamento. É violento. Consegui o que eu queria. Colocar o observador no meu lugar. A mesma raiva que eu sentia ao ver a paisagem do meu bairro interrompida por uma frase violenta, a mesma sensação de impotência diante do projeto de lei foi sentida por que visitou o espaço expositivo. Vontade de arrancar fora aquela faixa grotesca. Desleixada. Improvisada. E finalmente poder observar a pintura por completo. Pintura grande a gente vê de longe, mas essa só podia ser vista a um metro do quadro, que foi a distância que colocamos a faixa a frente do quadro. Dessa forma também era possível ver o rótulo do saco de ração para gado. Enfim, esse trabalho foi fruto de ações e pausar durante o projeto que fizeram o caldo ir engrossando bem organicamente e me levou para um resultado inesperadamente satisfatório tanto plasticamente como poeticamente.
_ Além disso, você ainda tem outros trabalhos com essa temática ainda em produção, você quer falar sobre eles?
Para este ano estava planejando dar continuidade à frentes que Por detrás da Lei abriram pra mim tanto no processo quanto no método expositivo. Com relação ao processo, falo de partir do samba para tratar violência, racismo e questões do feminino. As letras de samba são interessantes porque são fruto de marginalidade para tratar de marginalidade. Essa metalinguagem me interessa. O projeto ainda está numa fase inicial. O que pretendo é fazer um recorte específico de composições e pintar alegorias dessas letras. Gostei muito de retomar a pintura tradicional. Fazia anos que eu não pintava com óleo e “Once you go oil …”. Além disso, a possibilidade de manipular o espaço expositivo tem me motivado. As ruas suburbanas tem peculiaridades compositivas que me interessam. Hachuras de fios de ligações clandestinas harmonizam com amontoados de lixos descartados em locais proibidos, frases informativas em muros antagonizam com os produtos de um vendedor de rua, cadeiras de praia nas calçadas a quilômetros do mar. Quero levar essas potências para o espaço expositivo com a mesma intencionalidade poética da faixa de Por detrás da Lei.
_ Além de tudo isso, você também é mãe. Conciliar maternidade e carreira não é uma tarefa fácil, mas isso não impede que você apresente trabalhos incríveis. Você quer comentar sobre isso?
Meu trabalho é acima de tudo autobiográfico. No início, temia que essa abordagem trouxesse barreiras de entendimento por tratarem de temas pessoais. Mas, me surpreendo porque quanto mais pessoal é o trabalho, maior é o alcance. Quando falo da maternidade procuro falar do que vivo e conheço para não cair na tentação de tratar o tema a partir de percepções aprendidas e não vividas. A maternidade foi um sonho alcançado na minha vida. Desejei muito. Não imaginava que me tornaria mãe em tempo integral e nem que teria que gerenciar a educação das minhas filhas sem o pai delas. Esses fatores prospectam muitos trabalhos que muitas vezes nem refletem tão explicitamente o ser mãe mas que trazem relações com tempo, dor, corpo, espaço e forma por exemplo. O próprio pensar e fazer artístico acaba sendo impactado pela presença das minhas filhas. O pensamento fragmentado é uma das tintas da minha paleta atual. Perceber-se diante da necessidade de super organizar o tempo a fim de conseguir trabalhar escalonadamente entre pinceladas e trocas de fraldas, idas a cursos e espaços expositivos com tempo determinado de volta para casa, ler um texto acadêmico ao som de galinha pintadinha, essas colagens de relações e sentidos ressignificam todo contexto poético e abrem outras portas de pensamento.
_ Em Vênus Exposta no Rio, você apresenta diversas poéticas que percorrem sua produção, sendo uma delas a maternidade. Fala mais sobre esse trabalho?
Esse trabalho foi uma resposta a um edital. Eu sou novata nessas escritas e tenho tentado aprender dia após dia como escrever e me fazer entender. O edital NaZanza tratava de “zanzar”. Eu propus uma descentralização do espaço expositivo por toda a cidade. Escolhi 10 trabalhos que retratavam mulheres cotidianas da cidade e imprimi em lambes que espalhei pela cidade em bairros que tinham relação com minha vida e dentro da galeria foi colado um lambe com o mapa do subúrbio da cidade do Rio partindo da Glória que era o local da exposição. Nesse mapa eu pintei, lá mesmo na galeria, na parede, depois de ter colado, uma “vênus contemporânea”. Que é um desenho que eu fiz. É uma mulher nua, segurando um bebê no colo se equilibrando em apenas uma perna. Pintei em uma monocromia de branco. Queria de alguma forma ficar no eixo lambe. E a cola de farinha tem uma plasticidade biancosa que eu quis trazer com os brancos, mesmo assim, a pintura tinha muitos recursos gráficos. Sabia que seria efêmera mas queria que fosse uma pintura forte. Esse caráter efêmero acabou sendo super marcante nesse trabalho. Quando a gente trabalha na rua é esperado que haja intervenções inesperadas, mas relacionar isso com a figura do feminino leva a outros pensamentos poéticos como: quanto tempo é permitida a presença do feminino no espaço público? Tiveram trabalhos que foram arrancados no mesmo dia outros estão até hoje na parede. Outro detalhe deste trabalho foi eu ter disponibilizado cartões riocard carregados para que os visitantes pudessem acessar a exposição na cidade. No fim, a tal Zanza foi repassada para os observadores e a minha intenção era que eles pudessem ver aquelas mulheres retratadas nos meus trabalhos em seu espaço. A gente sabe que a mulher negra une as cidades há séculos. Ela se desloca e é lida de diversas maneiras nesses espaços. Poder ver esses lugares é uma chamada para a leitura mais honesta dessas mulheres que de viárias formas suportam a cidade. Cariocátides. Na sua pergunta você falou da maternidade. Não considero que esse trabalho passe especificamente por este lugar. A maternidade é apenas mais uma faceta que a “vênus contemporânea” tem. Acho que equilibrar carreira, filhos, violências e tantas outras demandas é a questão que envolve esse trabalho. E fazer tudo isso sem ser percebida, ou permitida, nos espaços.
_ Márcia, você possui um projeto de curso de pintura focada em cozinha da pintura, você pode falar sobre esse seu projeto?
O projeto nasceu na tentativa de suprir uma carência técnica que tenho percebido nos circuitos de arte. Me formei em 2009 e somente em 2018 voltei a circular em ambientes de formação de artistas. Conversando com colegas, percebi que muitos tinham pouco conhecimento sobre uso de materiais e adequação das ideias a prática. Com a intensão de encurtar a distância entre o pensamento e o objeto artístico em si, escrevi um projeto no qual é proposto 1 encontro semanal com duração de 3 horas. Ao término de 4 meses, o artista seria potencialmente capaz de dominar práticas com diversos recursos clássicos e alternativos a fim de produzir objetos artísticos. O curso tem caráter extremamente prático e dinâmico. Além disso, cada encontro se propõe a associar o material a uma técnica, movimento da história da arte e artista que seja afim. Por fim, o projeto visa democratizar conhecimentos técnicos que muitas vezes são difíceis de ser acessados e uma vez em posse de muitos artistas podem vir a gerar uma produção mais densa e plasticamente interessante.

_ Pra encerrar, você pode comentar como tem sido os frutos desse projeto?
Como disse já ministrei alguns workshops filhos desse projeto. Na galeria desvio por exemplo fizemos “Arte Masturbatória” dentro do programa da exposição DENTRO_FORA_ENTRE e na Vila Aymoré “Insuportabilidade”. Atualmente, pré quarentena, trabalho na Vila Sophia, em Santa Tereza, colocando o projeto Ateliê e sua cozinha em prática.



Lista de exposições
Coletivas
Éramos mais unidos aos domingos. Sergio Porto, Rio de Janeiro, 2020 (Online pelo
covid).
Estandarte1: A Vanguarda dos Povos. Castelinho do Flamengo, Rio de Janeiro,
2020.
Ainda fazemos as coisas em grupo. Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, Rio de
Janeiro, 2020.
NaZanza. Vila Aymoré, Rio de Janeiro 2019.
Dentro Fora Entre. Galeria Desvio, Rio de Janeiro, 2019.
12 Métodos de se chegar a lugar algum. Paço Imperial, Rio de Janeiro, 2019.
Curto-circuito. Caixa Preta, Rio de Janeiro, 2019.
Fixo só o Prego. Sérgio Porto, Rio de Janeiro, 2019.
Exposição de encerramento dos alunos da EAV Parque Lage. Rio de Janeiro, 2018.
Participação Feira Cultural ZabaZinga como artista convidada. Rio de Janeiro, 2017.
Participação Feira Cultural ZabaZinga como artista convidada. Rio de Janeiro, 2016.
Pintura ao vivo no Reveillon. PIBI Rio de Janeiro, 2015-2016.
Participação Feira Cultural ZabaZinga como artista convidada. Rio de Janeiro, 2015.
Pintura ao vivo AVIVA. PIBI, Rio de Janeiro, 2015.
Exposição Coletiva de Cadernos de Estudo. UFRJ, Rio de Janeiro, 2009.
Participação como artista convidada no evento Ostra Aberta. Rio de Janeiro, 2008.
Individual:
Todas Eu. EBA7, UFRJ, Rio de Janeiro, 2008.
*Devido à um erro de sistema, a entrevista de julho será postada ao fim do mês.
Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte, UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.