Entrevista Lucas Simpli

Após a pós-verdade, Acrílica sobre lona, 2m x 2m, 2019.

Mini bio

Lucas Almeida de Melo, 1994.

Nascido no bairro da Gávea, Zona Sul Carioca. Vindo de família de professores e funcionários públicos, pai servidor estatal, mãe normalista, irmã pedagoga e tataravô servidor do Ministério da Educação e da Cultura. Vive e atua na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Professor de Artes licenciado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Especialista em Ensino Contemporâneo da Arte pela Faculdade de Educação e Colégio de Aplicação da UFRJ. Mestrando em Design, na linha de Design e Cultura pela UFRJ. Integrante do Instituto CASA, professor no projeto Missão Arte Educação, na Favela do Aço em Santa Cruz. Pesquisa a linguagem dos quadrinhos e a questão da narrativa na pintura acadêmica e as possibilidades didáticas dos quadrinhos no âmbito do ensino de história da arte.

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Série, Colagens para o Fim do Mundo, 2020.

_Lucas, você realizou sua graduação na Escola de Belas Artes da UFRJ, como foi sua trajetória durante a graduação?

Minha trajetória foi muito bacana. Antes de entrar na Universidade Federal do Rio de Janeiro eu fazia um curso na área de engenharia ambiental no Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET). Engenheiro não sabe dar aula. A UFRJ foi uma segunda casa, encontrei muitas pessoas importantes na faculdade pública e que me fizeram crescer. Esbarrei com professores incríveis dentro da instituição e que me ajudaram nessa trajetória maluca, foram verdadeiros padrinhos do conhecimento. Após a faculdade, mantive amizade com muitas pessoas e alguns professores. Adorei tanto a Escola de Belas Artes que voltei para cursar o Bacharelado em História da Arte (gosto muito de sofrer), esse movimento é muito incentivado pelos professores, coordenadores e diretores da instituição e isso é simplesmente magnífico. Estudei em um colégio muito tradicional e achei que estivesse entrando na faculdade muito “velho” com 21 anos e reparei que a maioria das pessoas da minha turma eram de uma mesma faixa etária. Outra caraterística muito interessante foi perceber que a busca por uma carreira artística dificilmente era a primeira opção. Acredito que isso venha tanto do estigma da carreira de arte, quanto ao pouco acesso da população a essas profissões,  ou até mesmo escolas que não incentivam esse interesse.  Na minha turma mesmo tinham pessoas vindas da física, jornalismo, geografia, engenharia, direito, odontologia,  pessoas da área da saúde e de carreira militar, outros eram de áreas afins como História da Arte e Design. Alguns eram mais experientes, já tinham terminado a faculdade ou se aposentado e procuravam na arte alguma espécie de satisfação pessoal que não haviam encontrado ao longo de sua primeira carreira. Foi uma experiência realmente transformadora, frequentei espaços que não foram pensados para minha família e isso tudo é muito doido. Outro fato interessante foi conhecer pessoas de todas as regiões do Brasil na UFRJ. Querendo ou não, o nome da universidade e a importância histórica do Rio de Janeiro, acaba atraindo muitas pessoas para a cidade. Ou seja, foi uma troca cultural também muito rica.. Apesar de minha irmã ser a primeira pessoa da família no ensino superior, eu era a primeira pessoa a entrar na faculdade pública. Quando defendo o papel da universidade para as pessoas que não a conhecem, comento muito sobre o papel transformador de um ensino de qualidade para ascensão social e para o pensamento crítico. Vejo muitas pessoas que acham que sabem de tudo e desvalorizam os profissionais das áreas, a UFRJ me ensinou a ter humildade em relação ao conhecimento. No ensino médio a frase de Sócrates: “Só sei que nada sei” até que fazia sentido nas aulas de filosofia mas passando pela universidade comecei a entender melhor essa relação. Aprendemos sempre e o tempo todo. Obviamente, a trajetória foi muito complicada pelo transporte público na cidade do Rio de Janeiro que exclui a maioria das cidades dos acessos. Em média, minhas viagens demoravam entre cinco ou seis horas de transporte público ao longo do dia.

_ Você vem de uma família fortemente influenciada pela educação, de que forma isso te afetou?

Minha irmã costuma dizer que a primeira biblioteca dela foi a casa do meu avô materno e isso é muito bonito de se pensar. É normal um avô presentear seus netos com livros de Harry Potter? Meu avô lia tanto Machado de Assis ou Jorge amado quanto J.K Rowling. Não existia uma hierarquia entre grandes clássicos da literatura ou grandes best-sellers mundiais. Fazendo um resgate sobre a minha família, a educação sempre esteve muito presente. Pesquisando para a faculdade, descobri que meu bisavô era funcionário do antigo Ministério da Educação e Saúde quando o Rio de Janeiro ainda era a capital do Brasil. Segundo os relatos do meu avô, Antenor (meu biso) caçava na Maciço de Gericinó-Mendanha junto com o ministro Mario de Andrade. Sim, o mesmo Mario de Andrade da Semana de  Arte Moderna de 22. Acho essa anedota bastante  doida, mas de alguma forma isso influenciou toda a geração do meu avô e seus irmãos. Minha mãe, por exemplo, estudou para ser normalista e minha irmã conseguiu uma bolsa de estudos no tradicional curso de pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO). Meus dois avôs vieram de um ensino extremamente conservador: um militar e um ex-padre, mas a educação sempre foi muito presente. Por parte do meu pai, meu avô José veio fugido de Portugal em um navio católico (parece até novela da Globo). Não o conhecia, mas meu pai comentava dele ser extremamente intelectual, estudou filosofia, teologia e trabalhou como engenheiro na TV Tupi. Meu pai sempre incentivou nossa formação comprando livros. Falando neles, minha casa e dos meus avós sempre teve um monte deles. Sempre tivemos muito acesso aos aparelhos culturais da cidade como livrarias, teatros, museus, mas isso também está relacionado ao bairro no qual fui criado. Meu pai era servidor público e isso deu a ele o direito de uma casa no bairro da Gávea no centro da rica boemia carioca. O trabalho que era de dois anos na Zona Sul aumentou para vinte e cinco. Morei minha infância e parte da minha adolescência em um bairro extremamente elitizado e com acesso ao mundo. Eu costumava brincar que a Gávea tinha tudo menos cinema, mas era só andar até o Leblon que ainda existiam cinemas de rua. Mas o bairro da Gávea era incrível. Tinha tudo lá, desde a corrida de cavalo no Jockey Club até as galerias de arte. É um bairro antigo, boêmio e cheio de idoso herdeiro. Tinha um conhecido da família que tinha ficado “pobre” por ter apostado muito dinheiro no Jockey Club. Depois de alguns anos, andei pelo Alto Gávea e encontrei uma faixa de protesto: Os moradores estavam reclamando que o bairro só tinha um único Parcão e medidas urgentes para a prefeitura e a associação de moradores. Para quem não conhece esses parques são áreas de lazer pensados para o público pet e seus donos. Patabéns e lambi-beijos. Era esse o público da Gávea.

Após a pós-verdade, Acrílica sobre lona, 2m x 2m, 2019.

_ Além de arte educador, você também é artista, como foi dar início a sua produção?

Eu nunca me considerei artista enquanto estudante. Achava um pouco pedante mas isso tinha relação com a Faculdade de Belas Artes da UFRJ. Ninguém se orgulhava de ser professor ou estudante de licenciatura. De modo geral, os alunos desses cursos sofrem muitos preconceitos. Talvez seja um elitismo acadêmico ou apenas ignorância. Muitos professores não gostam de dar aula para licenciatura, fazem pouco caso das aulas e a maioria dos substitutos são destinados a esses cursos. É muito doido pensar, que o curso mais importante de artes da faculdade é negligenciado. Pois são esses professores que vão até as favelas, interiores e escolas do subúrbio,  ensinando a importância da disciplina na vida de crianças e jovens, valorizando e dando visibilidade para todos os outros bacharelados da Escola de Belas Artes. Fato é que a elitista faculdade pública estava em um momento ainda novo de transformação pelo Enem. Era uma nova geração de estudantes entrando com um corpo docente ainda muito conservador. Meu trabalho fala sobre isso. Eu sempre trabalhei na esfera da arte-política na graduação. Ninguém escolhe a profissão de educador para ficar milionário e isso também não deveria ser uma ambição de vida. Nada contra, tenho até amigos que querem ser milionários. Por isso educação é tão importante nesse país tão doido quanto o Brasil. O fato de morar na Gávea por quinze anos e depois da minha vivência na Zona Oeste foi refletir o quanto a universidade não foi pensada para a maior parte das pessoas do Rio de Janeiro.

Após a pós-verdade, Lucas Almeida de Melo, Acrílica sobre lona, 2m x 2m, 2019.

_ Há alguns anos atuando enquanto artista, quais modificações você percebe na sua produção e forma de se relacionar com arte?

Meu trabalho conversa muito com a cultura de massa pelos quais eu fui criado: quadrinhos, mangás, filmes, animação, memes e até mesmo pokémon. Alguns professores da faculdade ignoram tudo aquilo que vem do povo. Muitos alunos entram na faculdade por essas linguagens e é importante levá-las para sala de aula de maneira crítica. Os professores acham que os estudantes entram na faculdade por ter frequentado o Louvre, Museu Britânico, Metropolitan Museum ou o Parque Lage. Pelo contrário, muitos estudantes de arte entram porque tiveram contato com algum professor  de artes na escola, através dos desenhos animados da TV aberta ou mesmo lendo o quadrinho pirateado de naruto na internet. O mito do artista gênio e perfeito do Renascimento só existe nos relatos de Vasari, considerado o primeiro historiador de Arte. Na vida real do Brasileiro, esses relatos heróicos só servem para aumentar a desigualdade. Ano passado, tive até problemas em Brasília. (Risos de nervoso). Comecei a ser perseguido pela extrema-direita do Brasil. Uma longa história. Nunca achei que precisaria usar um nome artístico, mas foi necessário para eu poder ter minha liberdade de expressão preservada e não ser perseguido. Entrei na lógica das redes sociais. Esse meu nome artístico, é baseado no sobrenome da minha família paterna. No mesmo ano comecei a aprofundar meus conhecimentos sobre as Vanguardas Russas e a trabalhar nos mapas. Meu último trabalho foi elaborado para viralizar na internet. Duas referências para o meu trabalho foram do grupo feminista de artista-ativista Guerrilha Girls fundado em 1985 em Nova York e os movimentos artísticos da Revolução e das Vanguardas Russas no começo do século XX. A maioria dos artistas que conhecemos nesse período foram professores-ativistas pela educação, entre eles poderíamos citar Vladimir Tatlin, Marc Chagal, Kazimir Malevich, Varvara Stepanova, Liubov Popova. Eles simplificaram as artes buscando uma melhor comunicação com o povo, como forma de propaganda para agitação e transformação social. E convenhamos que os princípios de unir a população com o mundo da arte está ainda muito distante e que para diversos agentes, como por instância, o próprio Estado, é importante que seja assim. Um povo sem acesso a arte, é aquele que não sabe sobre suas raízes e está cada vez mais suscetível a manipulação. A relação desses artistas como docentes dificilmente era abordada pelos professores da faculdade. De alguma maneira, deixamos a internet para o campo da extrema-direita e das terras de fake news. Atualmente, meu trabalho reúne os cânones da história da arte, memes e linguagem digital reunidos através de uma estética tosca para entender as relações entre Arte e Política e pensar as redes sociais como importante ferramenta de manipulação das criações de mitos e fake news. Afinal, não é uma caneta brasileira que faz um presidente ser patriota. Eu e o João Paulo Ovidio, escrevemos em 2021 para a Revista Philos uma matéria sobre meu trabalho e acredito que cabe muito acrescentar aqui nessa entrevista:

Se antes os discursos já soavam absurdos, agora, somado a estética daqueles que os defendem, devolvemos a eles nossa interpretação de suas práticas reacionárias. Continuemos a ridicularizar o ridículo , para que não haja espaço para a sua adoração.”

Série Grupo do Zap, 2020.

_ Como comentado por você, atualmente sua produção percorre poéticas como história da arte, memes, e linguagem digital. Como você estabelece a ligação entre tais?

Eu não sei como será no futuro, mas como historiador da arte em formação, eu penso que essa linguagem estará na historiografia dos grandes livros de arte. Dentro da academia eu reparo que já há um levantamento sobre os memes. Dois anos atrás, estava pesquisando na Universidade de São Paulo e encontrei pelos corredores muitos trabalhos na área da Ciências da Comunicação. Eu como professor tento abordar a história da arte através deles, sabe? A Revista Philos encontrou meu trabalho e pediu para escrevermos um texto sobre ele e a relação com os memes. Chamei o João Ovídio e escrevemos um texto intitulado:  Design Reacionário e os memes como campo de disputa ideológica das imagens. Lá nós comentamos que os memes de certa forma concatenam uma ideia: A internet e especificamente os memes são um veículo popular de circulação/comunicação de imagens e ideologias , desse modo, perguntamo-nos: Por que não trabalhar sobre eles em sala de aula? Quais são as possibilidades dessa linguagem? Em que medida contribuem para o ensino/aprendizado? Se no século passado as charges estampadas nos jornais foram apropriadas como material didático, com o declínio da mídia impressa na contemporaneidade, coube aos memes ocupar esse cargo. Há uma década observamos o crescimento vertiginoso desse fenômeno na rede, e consequentemente, um aumento no número de estudos, iniciados por midiólogos e comunicólogos, porém, logo em seguida acolhidos por diversas áreas do conhecimento. Presentes em nosso cotidiano, apropriam-se de imagens e discursos, adequando-os a uma estrutura reconhecível por determinados grupos, os quais também são entendidos como “bolhas”. Eles tendem a serem universais em razão do alcance por todo o globo, mas, ao mesmo tempo, transmitem mensagens de caráter regionalista. Assim sendo, semelhante a uma obra de arte, tais nos exigem o reconhecimento dos códigos, visto que ambos solicitam uma alfabetização do olhar . Cada vez que estivermos diante deles, uma nova interpretação será possível, porque acessamos somente o fragmento e não todo. Como professor eu enxergo as potências pedagógicas dessa linguagem para sala de aula. Você pode pegar um conhecimento conteudista de alguma disciplina e discutir todas as potencialidades dentro dessa linguagem. Os jovens adoram e precisamos nos adaptar a essas linguagens contemporâneas de ensino. Paulo Freire já nos alertava sobre isso em seus ensinamentos na valorização do conhecimento dos alunos. O idioma erudito da pintura histórica e da história da arte está muito afastado do cotidiano do estudante contemporâneo (tanto porque é uma mídia extemporânea que há muito não é praticada quanto sua presença em veículos de comunicação atuais não dá conta das especificidades dos seus códigos). É necessário conectar as pessoas a esses conhecimentos e os memes e a linguagem digital ajudam nessa aproximação didática. Não vejo outra solução como nação a não ser pela valorização e o investimento em educação.

Série, grupo de Zap, 2020.

_ Lucas, um dos seus trabalhos mais atuais, a série intitulada “Grupo do Zap” traz uma estética bem particular utilizada na Internet, sendo uma justaposição de memes, cultura popular e política. Conta como foi dar início a essa série?

O trabalho “Grupo do ZAP” foi iniciado em 2020 com técnica de Manipulação Digital (desculpe o trocadilho). O conjunto  busca entender como a linguagem do design reacionário das correntes dos grupos de whatzapp e facebook atingem a população. Não há valorização dos professores de artes no Brasil. É importante entender esse profissional como curador do currículo e do conhecimento cuja importância está no ensinamento aos estudantes sobre o reportório e a cultura visual para entender as imagens de maneira crítica. Na era do youtube, do instagram e das redes sociais a busca por um profissional que fala das imagens com as crianças é extremamente importante. A simplificação das informações, a desvalorização da escola e o difícil acesso pelos instrumentos culturais fez com que a população fosse alfabetizada pelos grupos de zap. A internet e consequentemente, os memes são um veículo popular de circulação de imagens e ideologias e por que não trabalhar sobre eles? Mas essa doença não atinge somente as camadas populares. Mês passado, um médico de um hospital particular na Zona Oeste, receitou um Coquetel Anticovid-19 para minha família. Todos nós sabemos que esses nessas profissões são considerados Deuses, né? De forma humorada, meu trabalho reúne os cânones da história da arte, memes e linguagem digital reunidos através de uma estética tosca para entender as relações entre Arte e Política e pensar as redes sociais como importante ferramenta de manipulação das criações de mitos e fake news, uma das temáticas centrais da Bienal de Veneza de 2019. Todas as frases que vemos nessa  série são baseadas em fontes oficiais do governo como o Plano Político de Eleição da Chapa Bolsonaro/Mourão e dos discursos dos diversos ex-funcionários do alto escalão da Secretaria de Cultura.

Série Grupo do Zap, 2020.

_ Ao desenvolver esse trabalho, a estética trabalhada é uma particularidade popular, mas pouco vista no circuito tradicional. Quais foram as respostas percebidas por você à tal produção?

Acredito que esta relação está relacionada ao conservadorismo dentro das academias e do circuito de arte tradicional. Em uma ArtRio (A Feira de Arte do Rio de Janeiro), por exemplo, é muito comum você encontrar galerias abarrotadas com o trabalho das bandeirinhas do Volpi, mas parte dessa estética da internet está sendo apresentada por artistas da nova geração. O Guerreiro do Divino Amor foi o vencedor do Prêmio PIPA 2019 e seu trabalho conversa muito com as caóticas redes sociais. Todos esses novos trabalhos foram pensados na lógica de circular das redes sociais, ou seja, uma linguagem que servisse para viralizar. Recebi muitas mensagens positivas e compartilhamento de pessoas que nunca tinha imaginado. Uma delas foi a Aleta Valente (@ex_miss_febem_) que compartilhou meus mapas sobre a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Aleta foi criada em Bangu e talvez seja uma das artistas mais importantes trabalhando com memes atualmente nas artes visuais. Você ter um ensino superior ou frequentar uma universidade sendo morador da Zona Oeste é muito doido e os trabalhos foram muito importantes para se comunicar com pessoas aqui da região. Acabei conhecendo vários coletivos, pessoas formadas em diversas áreas do conhecimento, entrevista para algumas revistas, inspiração para TTC e até mesmo o meu trabalho foi usado com algumas turmas de um pré-vestibular da região e isso é muito incrível. Ano passado uma grande amiga que conheci na faculdade começou a trabalhar em uma revista da Fiocruz sobre a Covid-19. Day Medeiros (@day.eth)  além de uma profissional incrível é coordenadora do Coletivo Artístico Sustentável e Alternativo (@plataformacasa) trabalhamos como professores em um projeto social chamado “Missão Arte Educação” na Favela do Aço em Santa Cruz. Ela foi uma das principais responsáveis pela Revista da Fiocruz e convidou para escrever um texto para a edição um dossiê especial de fevereiro sobre  Pandemia e a Extrema Zona Oeste da cidade. Meus mapas estão compondo a revista. Aquela ideia inicial que comentei sobre a arte está alinhada ao povo como dos artistas da Revolução Russa, foi muito bem contemplada. Além de toda essa visibilidade, algumas artistas como Adriana Varejão curtiram alguns dos meus trabalhos e começaram a me seguir. Isso é muito doido, porque eu lembro dela nas minhas aulas da escola do ensino fundamental ou das exposições que minha família levava para o Museu de Arte Moderna. De certa maneira, o trabalho inserido no campo da extrema ironia e expondo os discursos absurdos daqueles que deveriam ter decoro com o cargo público. Meu trabalho fala disso, sabe? Estamos em um país da extrema-direita e as pessoas que deveriam nos proteger estão fazendo nota de repúdio ou fazendo panelaço no Leblon. Enquanto isso, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, às igrejas neopentecostais estão dominando os terrenos feudais. Já viram o novo nome do Calçadão de Campo Grande? Mas estou querendo demais, talvez eu tenha pensamentos muito utópicos, vivemos um país onde o tradicional Ministério da Cultura foi extinto em 2019. Mas é importante entender a utopia, ela serve para gente seguir adiante e lutar pelo que a gente acredita, sabe?

Série Grupo do Zap, 2020.
Série Grupo do Zap, 2020.

_ Dossiê Zona Oeste, é um trabalho importante que toca em problemáticas fundamentais ao Rio de Janeiro. Nele são envolvidas divisões geográficas, culturais e socioeconômicas. Gostaria muito de saber o que te incentivou a dar início a esse projeto e de que maneira ele vem se desenvolvendo.

Como comentado, meus pais moraram na Zona Sul durante vinte cinco anos. Assim, na minha infância e adolescência pude ocupar muitos espaços como museus, teatros, cinemas e livrarias. Essa relação com a Zona Oeste, começou incomodar a Universidade Federal do Rio de Janeiro. A instituição sempre foi o berço intelectual da elite carioca. Repare nos alunos ilustres dessa instituição, Vinicius de Moraes e Clarice Lispector são apenas alguns exemplos. No universo das artes, outros alunos como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Burle Marx, Portinari, Victor Meirelles e Pedro Américo. Aqui na cidade a UFRJ tem fama de ser uma universidade muito elitizada, voltada para pesquisa e tradicionalista. De certa maneira, ela é, mas isso não retira sua excelência em educação, ensino e pesquisa. Tive algumas aulas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e muitos amigos dessa instituição comentam que se sentem muito mais à vontade nela. Ela é muito mais do povo, sabe? Ela foi pioneira em relação às cotas dentro da universidade pública. Está interligada com os modais de grande circulação da cidade como os trens e metrôs. Grande parte da UFRJ está isolada em uma ilha circundada pela Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. É aquela desigualdade tradicional do Rio de Janeiro. O Bairro Universitário é uma espécie de Panteão. Muitos professores mantêm um discurso alienante e completamente elitista. Eu acordava 3:30 da manhã para pegar ônibus. É impossível imaginar aulas em faculdade pública às 7 horas da manhã e a maioria dos cursos da UFRJ são integrais, os cursos noturnos são exceções. Tive uma amiga que estava grávida e também vinha da Zona Oeste e o professor simplesmente trancava a sala porque não atuava aluno atrasado. Para a maior universidade pública do país só existia uma linha de ônibus vinda da Zona Oeste. Era muito triste porque esse ônibus também levava os idosos para os hospitais universitários. Eu fiquei cansado de ir sentado no chão do ônibus (entre a catraca e o motorista) mas estava indo estudar, sabe? Para muitas pessoas, aquele ônibus era transporte para saúde. Já cansei de ver vários velhinhos e crianças no ônibus com soro, acesso nas veias ou bolsa de colostomia. Eu às vezes estava virando ou pernoitando, mas sempre encontrava forças para ajudar essas pessoas. Quando as pessoas falam sobre a privatização do sistema público, eu acho que nunca andaram de ônibus. Não preciso avisar que o transporte sempre estava cheio e quebrava no meio do caminho, não tinha ar condicionado e com alguns abismos de horário de quase de hora em hora ou de hora ou nunca. Ao mesmo tempo, via alguns amigos da Zona Sul reclamando do ônibus de Copacabana que passava de dez em dez minutos ou da comida do bandejão. A relação da arte com acesso aos instrumentos culturais nunca foi debatida em sala de aula, pelo contrário, acredito que a maioria dos professores da faculdade acham que uma instituição perto do metrô é sinônimo de acessibilidade. Eles realmente acreditam que a cidade é interligada por metro. Talvez ainda estejam acostumados com Madri, Paris ou Nova York. Afastado do Rio de Janeiro da Bossa Nova, das calçadas portuguesas, da perfeição das montanhas e do vai e vem do mar, existe uma cidade ainda pouco conhecida dos cartões postais, ou melhor, invisibilizada pelo poder público e meus mapas falam sobre isso, sabe? São os mapas que não estão nos livros de geografia. A ideia para o trabalho surgiu de duas experiências ao longo da faculdade. Afastados dos problemas sociais da cidade, muitos professores não tinham noção da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Quer dizer, eles conheciam a Barra e às vezes o Recreio, que são bairros extremamente diferentes da Zona Oeste. Eles são amantes de Romero Britto ou qualquer coisa assim. De maneira muito sucinta, a primeira experiência veio de uma conversa informal com um senhor motorista de uber que acreditava que todos os cinemas apresentavam uma mesma programação. Como um senhor foi enganado por todos esses anos? Comentei que os filmes exibidos na sala de cinema dependem do público e do bairro. Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, dificilmente você irá encontrar um filme longe dos blockbusters norte-americanos ou as comédias pastelão brasileira, ou seja, uma cinematografia cheia de estereótipos e busca por mitos. A segunda experiência veio das três turmas de ensino médio onde eu lecionava sobre artes. Apesar de ser uma escola de classe média, o direito à cidade e os aparelhos culturais nunca tinham sido debatidos. Se eu dependesse do currículo escolar, seria mais uma aula chata de algum artista branco, euro-centrado, e afastado do cotidiano escolar. De certa maneira, como professor, subverter sempre foi uma questão na história da arte. Parei o conteúdo da escola para discutir sobre a desigualdade na cidade que, por acaso, foi umas das temáticas da redação do  Enem. O “Dossiê Zona Oeste” surgiu de todas essas inquietações dentro da academia e no dia a dia da cidade nasceu da força do ódio, nos trens sucateados do Ramal Santa Cruz, e nas conversas com amigos professores sobre a cidade. Pesquisei todas as informações necessárias para tentar alertar a população sobre a desigualdade da nossa região e comecei a reparar que essas informações não estão centralizadas em um único órgão público. Isso faz com que a população não tenha acesso fácil a essas informações. A cartografia foi elaborada para viralizar na internet. Duas referências para o meu trabalho são do grupo feminista de artista-ativista Guerrilha Girls fundado em 1985 em Nova York e os movimentos artísticos da Revolução e das Vanguardas Russas no começo do século XX como já citados.

_ Entre 2017 e 2020, seus trabalhos percorreram diversos espaços. Alguma exposição teve impacto maior a cerca de você e sua produção?

Olha, de alguma forma, todos os trabalhos foram importantes para entender o funcionamento e a circulação dos espaços expositivos. Foi interessante circular nesses ambientes, participar de vernissages e ter meu trabalho eternizado em catálogos, porém,  o maior impacto sobre a minha produção foi dentro das redes sociais. O “Dossiê Zona Oeste” , por exemplo, soma mais de 10 mil curtidas e compartilhamentos no instagram. Meu perfil é pequeno e praticamente usado para seguir amigos, procurar material didático e acompanhar as exposições que estão rolando na cidade. É muito doido como muita gente teve acesso a esse trabalho, como comentado, eu soube até que meus mapas foram usados dentro de um pré-vestibular comunitário e tudo isso é muito incrível de se pensar. Tudo aquilo que aprendi em uma universidade pública, sendo compartilhado e discutido por muitas pessoas. A minha primeira exposição ocorreu no Bienal de Artes da UFRJ no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Foi uma parceria incrível com meu amigo e também artista Rustem Gomes (@Rustenico). Lembra que falei que na universidade conheci pessoas incríveis e de várias partes do Brasil? Então, conheci o Rustem e a Camilla (@45_marron) no primeiro período da licenciatura. Eram recém chegados de Fortaleza e toda sua família tinha ligação com as artes. Diferente das famílias que conheci na infância na Gávea, eram ligadas à Medicina ou ao Direito. O trabalho que enviamos selecionado para a Bienal foi fruto de quase um mês de trabalho, representantes oficiais da fictícia ‘Arquivo Corrompido Comics’ tivemos o prazer e orgulho de apresentar o projeto como: Enquadrado e Malfeitores. O coitado do Rustem ficou 100% com trabalho de ilustração. Em abril de 2017 foi divulgado pela imprensa a famigerada Lista de Fachin onde o relator da Lava Jato no STF, listou diversos políticos investigados pelo Ministério Público. O Departamento de Propina da Odebrecht usava os apelidos para fazer repasses irregulares mascarando os políticos e demonstrando um sistema cruel dentro do sistema brasileiro. Uma lista que a primeiro momento parece brincadeira, demonstra a criatividade maquiavélica de diversos executivos dentro da empresa: Acelerado, Aquático, Caranguejo, Mineirinho e Nervosinho são apenas alguns apelidos encontrados dentro da planilha da Odebrecht. Nós dois gostamos de quadrinhos e fomos para faculdade de artes por causa deles, logo, imaginamos os nomes dos políticos como verdadeiros vilões brasileiros. Enquadrado e Malfeitores, homenageia diversas capas de quadrinhos icônicos da história mundial e brinca com os apelidos da Lista da Odebrecht. Quem serão nossos heróis homenageados para combater os criminosos? Diante a conjuntura política do Brasil, o Departamento de Propina da Odebrecht revela um triste e surpreendente sistema político corrupto sendo reflexo de uma sociedade ignorada há anos por seus Governantes. Dessa exposição também conheci o João Paulo Ovidio antes da criação da Revista Desvio. Ele também foi outra pessoa que parece que conheci na infância. Ele ficou responsável pelo texto crítico do nosso trabalho para o catálogo e escreveu: Formando um grande painel, os artistas constroem uma obra crítica com as capas das HQs, as quais alertam sobre a atual (ir)realidade do nosso país. No trecho da música Ideologia, Cazuza cantava: “os meus inimigos estão no poder”, e de fato estão. Só nos resta, portanto, questionar: “Ô, e agora, que poderá nos defender?”. Por ironia do destino, esse trabalho saiu como capa na área das exposições do site e da Revista Veja do Rio de Janeiro.

Enquadrado e Malfeitores, Desenho Digital, . (Coautoria), 2016.
Série, Colagens para o Fim do Mundo, 2020.

_ Lucas, pra finalizar, 2020 foi um ano de isolamento, além da impossibilidade de frequentar espaços de arte, o cenário e agentes artísticos sofreram grandes mudanças. Essa nova rotina afetou sua produção?

Nos três primeiros meses do ano eu estava muito chateado. Terminava meu primeiro semestre no mestrado quando fui indicado a uma bolsa de pesquisa do Governo Federal. A universidade pública está em constante campo de ataque: Balbúrdia, plantação de maconha, foram os ataques de Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação do Brasil, às universidades em 2020. No começo do ano ele acabou cortando várias bolsas de pesquisas no Brasil e a minha estava nessa leva. Foram três meses tentando resolver isso e a UFRJ foi muito solícita em relação a essa questão. Precisamos enviar uma carta para Brasília e conseguimos resolver toda essa burocracia maluca. Assim que entrou a pandemia, a bolsa começou a ser paga para o projeto de pesquisa. De alguma forma, toda essa situação serviu para que eu repensasse minha produção voltada para as redes sociais e longe dos sistemas expositivos. Apesar da pandemia, foi um dos melhores anos da minha produção artística, acadêmica e profissional.

Série Grupo do Zap, 2020.
Série Grupo do Zap, 2020.

Série Gupo do Zap, 2020.

Exposições

2020 – Área Interditada: Zona de Trânsito Central no Centro Cultural Light (RJ).

2019 – PEGA III: Encontro de Estudantes de Graduações em Artes do Estado do Rio de Janeiro no Centro Cultural Phabrika (RJ).

2019 – Desvio Convida: Artes Aquáticas – Verão em Queimados no Centro Esportivo e Educacional Golfinhos da Baixada (RJ).

2018 – Corpos e Territórios: Arte em Disputa no Encontro de Pesquisadores dos Programas de Pós-Graduação em Artes visuais do Estado do Rio de Janeiro no Museu da República (RJ).

2017 – Censura! Semana de Artes Cênicas no Centro Municipal de Artes Calouste Gulbenkian.

2017 – Vi Bienal da Escola de Belas Artes/UFRJ – Reflexos no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (RJ).


Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.