Gabriella Marinho é artista plástica e jornalista negra, de 26 anos, moradora do bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo – RJ, tem graduação em Comunicação Social pela Anhanguera e especialização em Literaturas Africanas pela UFRJ. Desenvolve um trabalho de pesquisa no Ateliê Kianda, espaço físico e metafórico onde atua em arte educação, pesquisa e produção de obras que enfatizam a relação de povos africanos e diaspóricos com o barro. Em seus trabalhos estão presentes linguagens como escultura, pintura, poesia, fotografia e audiovisual. Até hoje esteve em diferentes cidades do Rio de Janeiro participando de exposições coletivas e individuais. No estado do Belém do Pará teve suas obras projetadas em galeria vertical ao ar livre pelo projeto Mostra tua Arte. Participou de roda de conversa sobre ”A mulher preta na contemporaneidade” no Ella, que aconteceu na Universidad Nacional de La Plata, na Argentina em 2018. Recentemente teve seu trabalho veiculado na Edição Agosto 20 da revista Casa Vogue, participou de uma galeria virtual promovida pela plataforma Spotify em parceria com a Sony Music para o lançamento do primeiro DVD do DJ Rennan da Penha. Virtualmente, foi pauta na revista Glamour Brasil, portal AUR e nas revistas especializadas em arte contemporânea Gravidade e Desvio também fazendo parte da última edição da SP Arte Viewing Room sendo representada pela 01.01 Art Platform. Seu processo criativo reverencia a relação da mulher negra enquanto corpo-potência estética e decolonial na modernidade, visando construir narrativas que promovam a reontologização do povo preto através de sua subjetividade.
_ Gabriella, sua graduação teve início na área de Comunicação Social, e posteriormente, você realizou sua especialização em Literaturas Africanas pela UFRJ. Ao iniciar sua graduação, você já possuía alguma inclinação ao estudo da Literatura Africana?
Nesse período eu me deparei com tudo muito embranquecido, de bibliografias aos temas levantados. Quando percebi isso busquei possibilidades de contar e conhecer histórias de pessoas pretas. Acredito que essa já seja uma inclinação para a especialização e para a mudança de paradigma em muitos outros aspectos da minha vida.
_ É fato termos nossas referências bibliográficas sempre diretamente ligadas a publicações e estudos europeus e norte americanos, enquanto estudos negros e afrodescendentes, publicados por corpos negros, são raramente indicados ou citados. De que forma você tenta contrapor essas imposições?
Nós pessoas negras temos contato obrigatório com a escrita, leituras e outras linguagens produzida por pessoas brancas (que na maioria das vezes usam o vampirismo colonial para roubar e registrar como delas esses conteúdos), enquanto as pessoas brancas se mantém, como sempre, no comodismo de terem referências iguais a elas e linhas de pensamento que afirmam esse conforto existencial. Reforçam uma superioridade completamente ilusória, que só existe por conta do apagamento e massacre de outras culturas. Esse contraponto é essencial para perceber o quanto nós, povo preto, temos que aprender e estar ‘’10 passos’’ a frente. Estudamos as produções hegemônicas, mas como forma de se reconhecer, conhecer e afirmar também outras linhas de pensamentos buscamos autores e autoras pretos, indígenas. Por isso, prezo por me alimentar essencialmente por conhecimento preto, e por consequência feminino. Minha última leitura foi um texto chamado “A categoria político-cultural de Amefricanidade” escrito pela autora Lélia Gonzales. Também gosto muito da Grada Kilomba (artista e escritora)e da Paulina Chiziane (escritora moçambicana que fala muito sobre a mulher africana).
_ Você realizou sua graduação na Faculdade Anhanguera, e sua pós na UFRJ. Quais as maiores diferenças percebidas entre as duas universidades?
São universos completamente diferentes. O que mais me chamou a atenção foi a falta de possibilidade de vivenciar a universidade em todos os aspectos que ela tem a oferecer. O ambiente privado te leva automaticamente a mecanizar os horários e formas de absorver o que está sendo vivido.
_ Sua trajetória é diferente de alguns artistas, que iniciam a graduação em faculdades de arte. Em que momento você percebeu a possibilidade de trabalhar com artes plásticas?
No momento em que decidi aceitar a arte como parte da minha construção enquanto mulher preta. A formação artística não passa diretamente pela universidade, que é o complemento de uma série de atravessamentos que passamos durante nossas vidas. Entendi também a importância dessa forma de me ouvir e me comunicar com as pessoas;
_ Você é moradora de São Gonçalo, e realizou diversas exposições no município, de que forma você vê seus trabalhos sendo percebidos nesses espaços?
Isso é muito importante. Se minhas atividades não chegarem aos meus próximos, é sinal de que me comunico apenas com um nicho específico de pessoas. Colaborar com a movimentação artística do meu município é potencializar tudo que tem nele. Senti um acolhimento muito grande das pessoas, principalmente dos mais velhos e crianças.
_ Durante sua carreira, artística e jornalística, quais foram os maiores obstáculos percebidos?
Os maiores obstáculos foram o racismo. É bem nítida a diferença de acessos e tratamentos quando nos disponibilizamos a existir em diferentes espaços. Cada situação se dá em diferentes níveis, e mesmo os mais sutis se tornam obstáculos a serem atravessados.
_ Você também atua enquanto arte educadora no Ateliê Kianda, como é essa relação?
Percebo muito a necessidade de troca e entrega. Na arte educação encontrei uma forma de manter esses dois pontos bem atrelados. Compartilhar e aprender nos encontros que arte oferece nos dá bagagem para reflexões e criações. Penso, também, em fomentar a cerâmica no meu bairro em algum momento, acredito que possa ser uma forma mantê-la ativa e em circulação no meu território.
_ Seu trabalho atravessa diversas plataformas, uma delas sendo sua participação na revista Casa Vogue, fala mais sobre isso?
Durante boa parte do ano passado, as redes sociais passaram a ser usadas de uma outra forma. Sem a possibilidade de territorializar os acessos, as pessoas passaram a buscar novidades e a fomentar a circulação de arte virtualmente. Isso acarretou em novas formas de olhar os jovens artistas e suas produções. A Stephanie Ribeiro tem total influência nisso. Ela (arquiteta) fez uma curadoria de artistas pretos no Instagram da revista e eu fui uma das citadas. Acredito que junto a isso, meu trabalho com a cerâmica que já tem uma relação direta com a arquitetura e design despertou interesse na editora da revista, que me convidou para participar de uma pauta da revista.
_ Sua pesquisa é fortemente visível em suas produções artísticas. De que forma você acredita que a literatura se funde à plasticidade encontrada na arte, principalmente quando discutimos afro-ancestralidade, tem ação enquanto potência social?
A literatura é uma das linguagens que guardam nossos próprios segredos nas entrelinhas, muitas vezes. Principalmente se formos falar do povo preto. Em conjunto com a linguagem das artes plásticas, amplia-se a possibilidade de entendimento e reconhecimento da própria existência na sociedade. Se formos refletir que o racismo caminha para o esquecimento e apagamento da cultura preta e a arte, seja ela em qual modalidade for, é uma forma eficiente e, muitas vezes subjetiva, de resgatar, manter e reconstruir memórias, a gente dá de cara com uma arma poderosa de novas possibilidades de viver em sociedade.
_ Barro, cerâmica e argila são materialidades frequentemente encontradas em sua produção, assim como em produções artistas de origem africana. Que potência e importância histórica você enxerga ao trabalhar esses materiais?
É dar o devido valor à relevância simbólica e estrutural da terra. Muitos de nós relacionamos o barro à escassez, ao primitivismo e quando fazemos isso retiramos de nós mesmos a possibilidade de enxergar grandeza, fartura e resistência desse mesmo elemento. Sinto bem latente que o barro é a materialização da nossa possibilidade de existência e subsistência. É como se nele a gente encontrasse os segredos que te falei antes.
_ Um dos seus trabalhos “Autorretrato” me remetem a algumas obras do Abdias Nascimento, como “Yemanja n.1 (1968).” Esse trabalho tem alguma pitada de influência desse artista? Pergunto isso pela importância simbólica e estrutural que toda a produção dele carrega.
Muito maneira essa sua observação! Sim, acredito que quando passamos a conhecer e se reconhecer nessas raízes, principalmente as histórias e segredos que vieram antes de nós e são compartilhados através da ancestralidade, as referências estéticas e práticas se fazem presentes mesmo que inconscientemente. Ta aí a importância de pessoas como Abdias. Ele foi certeiro no propósito de perpetuar a partir de diferentes linguagens sua existência enquanto corpo preto que é individual no olhar e traço, mas também é coletivo no olhar e traço. Acredito que esses dois trabalhos partem de um ponto em comum que é expressar através da imagem e do uso de símbolos uma possibilidade de reverenciar esses segredos que te falei. Nesse ‘’Autorretrato’’, transcrevo uma mulher que tem características de uma entidade africana (que pode ser Yemanja, Kianda…) e características que me remetem aos penteados que eu usava em um momento específico da vida; reconheço também os impactos que as novas tecnologias (celular, redes sociais) trazem a essa estética e simbolismo. Personificar a entidade num corpo de mulher preta que compreende passado, presente e futuro como um só. E usar a cerâmica como material para registro complementa esse sentido de atemporalidade e ancestralidade.
_ Uma das suas pinturas,”Sem título, 2016” e “Série Guarita, 2019” tem como tema as Espadas de São Jorge, também conhecidas como “Espada de Ogum” ou “Espada de Iansã”. Essas plantas de origem africana são amplamente vistas em solo brasileiro, mas seu simbolismo é frequentemente apagado, tomando como exemplo seu uso em rituais de sasanha e proteção contra o mal olhado. Fala sobre a presença dessas plantas na sua produção?
Essas folhas são importantíssimas para quem acredita e vive o axé. Atrelada a outras frentes como (música, dança, comida), o cuidado e também na extração dos sumos delas faz com que a relação com orixá se dê. Essa planta também é uma prova cotidiana de que a cultura africana busca estratégias de respiro e sobrevivência em meio ao racismo e epistemicídio. Minha relação com elas começa na infância, nos quintais de familiares, na frente das casas. Depois de adulta pude me atentar e racionalizar a presença e poder delas. Quando me permiti realmente me dedicar à pintura, foram as espadas que me receberam. Desde então raramente pinto em tela outras figuras que não sejam espadas, quando acontece, de alguma forma as espadas aparecem. Na cerâmica também, a série Guarita surge como uma representação do espiritual e da natureza, que são, pra mim, a mesma coisa. Quando elas se traduzem enquanto cerâmica, que é esse material que sai da maleabilidade e se funde na dureza absurda, vejo ela como uma barreira de proteção, é quase aquele canteiro de espadas na frente das casas, sabe? Só que suspensa, alinhada, compacta, aquele lugar que é usado para receber o que vem, observar e entender o que pode ou não deixar entrar, uma Guarita mesmo.
_ Gabriela, mulheres negras são constantemente apagadas da história da arte brasileira, principalmente no Brasil, o que não é acidental, considerando o histórico político brasileiro de violência racial, psicológica, e estrutural contra mulheres negras. Quais artistas, e escritoras você recomendaria?
Reverenciar mulheres pretas é sempre muito importante. Nossas percepções de mundo são, na maioria das vezes, carregadas de detalhes e pontos de alavanca. Atentar a esses olhares é entender possibilidades de existência capazes de potencializar basicamente todo mundo. Mulheres que, pra mim trouxeram esses pontos de alavanca são Conceição Evaristo, a ceramista Lira Marques que sempre me lembro quando penso em referência. Artistas como a Kika Carvalho, Carla Santana, Mayara Amaral, me tocam muito; as reflexões de Carol Dall Farra, Obirin Odara, Geni Nuñez, Katiuscia Ribeiro sempre são uma virada de chave, são maravilhosas.
_ Você também ministrou diversas oficinas, como “AFROLAB – Cerâmica, sustentabilidade e ancestralidade“, “Casa Amarela – Cerâmica, sustentabilidade e brincadeira“. Comenta um pouco sobre como foram esses processos?
Eu e Carla Santana fomos convidadas pelo coletivo AFROLAB, da região dos lagos do Rio para facilitar uma oficina como parte da grade de atividades do evento. Foi um fim de semana com várias atividades. Esse modelo de oficina é uma mistura de conversa e prática, onde faço uma introdução ao contexto histórico da cerâmica, enfatizando a visão africana e ameríndia dessa construção. As oficinas geralmente são livres, tento levar o ponto de atenção e entrega para as mãos, onde cada um experimenta a reação que as diferentes aplicações de força trazem para a argila, e a partir disso a peça é produzida. A oficina é finalizada com uma conversa sobre tipos de queimas e possibilidades de esmaltação.
_Por último, você participou de diversas exposições e eventos, algum deles te tocou de forma simbólica?
Duas coisas que me tocaram profundamente foi minha participação no ArtRio 2020, onde junto com os artistas e curadores da @0101artplatform_ pude expor em um evento que tem a presença de tantos artistas importantes e super relevantes na arte. Trabalhos meus foram expostos a poucos metros de trabalhos do Abdias. Honestamente, fiquei chocada e foi pauta dos meus pensamentos por dias.
EXPOSIÇÕES
Exposição Encruzilhadas – Coletivo Pence Lapa, Rio de Janeiro – 10 de agosto a 31 de agosto de 2018;
Exposição no evento Literatura na Varanda – Paiol Cultural Espaço Multi, Centro de Niterói – maio de 2018;
Participação no ELLA, Encuentro LatinoAmericano de Feminismos Universidade Nacional de La Plata, La Plata, Argentina – 7 a 10 de novembro de 2018;
Exposição no evento Escurecimento – Coletivo Emoriô Teatro Municipal de Cabo Frio, Rio de Janeiro – 23 de novembro de 2018;
Exposição Quinta Black – Coletivo 2ª Black Sesc São Gonçalo – 21 de março de 2019;
Recebimento de Moção de Aplausos Pérola Negra – OAB São Gonçalo – 28 de março de 2019.
Capa do single Razão, e capa do EP de estréia do cantor Bruno Albert. São Gonçalo – agosto 2019;
Participação no projeto virtual Encruzilhando Possibilidades da produtora cultural baiana Naymare Azevedo – junho 2020;
Exposição Mostra tua Arte, obras projetadas em galeria vertical ao ar livre. Belém do Pará – maio 2020;
Trabalho incluso em projeto sala residencial na Barra da Tijuca – RJ. Arquiteto Migual Carolino – julho 2020;
Verão para todos os corpos com Slam das Minas. Parque Laje –março 2019;
Patifaria, exposição coletiva no Corredor Azul. UFRJ – novembro 2019;
Aniversário Sarau Cultural no Shopping São Gonçalo. São Gonçalo – outubro 2019;
Concurso Masp desenho em casa. Releitura da obra ‘Zeferina’ do artista Dalton Paula. Virtual – Maio 2020;
Participação na SP Arte. São Paulo – Agosto 2020;
Entrevista para minidoc da exposição ‘Entre Fragmentos e Frestas’ no Museu Janete Costa. Niterói – Outubro 2020;
Participação na ArtRio 2020. Marina da Glória – outubro 2020;
Revista impressa CasaVogue. Agosto 2020;
Revista Impressa Glamour Brasil. Outubro 2020;
Vídeo Ilustração DVD Segue o Baile Rennan da Penha no;
Galeria a céu aberto FAIM Festival. Imbariê – novembro 2020;
Citação no Instagram do MoMa. Novembro de 2020;
Exposição individual Do Barro ao Corpo – A experiência feminina na cerâmica Sesc São Gonçalo – 28 de junho a 1º de setembro de 2019;

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.