Artista pesquisadora e graduanda do curso de Artes Visuais/ Escultura na UFRJ. Trabalha com a construção do transporte coletivo como um lugar que possibilita acontecimentos. Utiliza o trem e a malha ferroviária como principais objetos de pesquisa e paixão investigativa. Acredita na performatividade inerente a tais objetos, enquanto espaços, máquinas e imagens.
_ Isadora, você é atualmente estudante de Artes Visuais, Escultura, na UFRJ. Conta como foi o início da sua graduação?
Entrei no curso de Artes Visuais Escultura caindo de paraquedas. Por não ter tido aulas de arte no ensino médio, e nunca ter tido contato com arte contemporânea antes, mal imaginava no que eu estava prestes a entrar. Mas logo no início me encontrei graças a um querido professor e artista, Jimson Vilela. Sem o acolhimento dele e seu grande resumo dos primórdios da história da arte até a arte contemporânea nas primeiras aulas, eu teria ficado perdida por um longo período. A universidade transforma nossa visão de mundo, a partir dela eu pude ter acesso ao conhecimento que tenho hoje, criar uma rede de pares, e só então, fazer o que faço. Especialmente por ter precisado me deslocar pelo Rio de Janeiro, enfrentando longas horas de ida e volta para frequentá-la. Esse foi o ponto de partida para tudo o que veio depois.
_ Isadora, você é oriunda da Baixada, e toda a poética do seu trabalho percorre processos de transporte, de onde surge a ideia de se trabalhar esse assunto?
Nós começamos a desenvolver trabalhos ainda no início da graduação. Como bem nesse começo eu passava muitas horas na ida e volta do transporte, eram esses momentos que eu tinha para pensar os trabalhos, espremida no meio de várias outras pessoas. Então espontaneamente meus trabalhos começaram a refletir isso. Fazer parte da coletividade dentro de um vagão, das interações que surgem, daqueles momentos em que todo mundo tem que colaborar para abrir um caminho para as pessoas que vão descer em certa estação, foi o princípio da minha pesquisa artística. Quanto mais eu refletia dentro e sobre o transporte coletivo e o deslocamento, mais eu queria trabalhar com isso. Sem deixar de perceber as diferenças sociais entre os diferentes meios de transporte. As questões da mobilidade, principalmente aqui no Rio de Janeiro com transporte em crise, afetam jovens artistas e atravessam nossos trabalhos de diversas formas.
_ Além da relação profissional com as estações de trem e o próprio trem, você também possui forte memória afetiva ligada a esse meio de transporte. De que maneira teve início essa ligação?
Na infância eu sempre gostei de andar de trem. Já li que ninguém sabe gostar da potência e eternidade do trem e das surpresas das viagens como as crianças. Paul Valéry disse isso e concordo. Mas lembro também dos fãs de trens ao redor do mundo. Eu nunca deixei de gostar de estar embalada no movimento contínuo do trem. E no Rio, além do movimento para curtir e das paisagens na janela para observar, temos coisas inusitadas que podem acontecer a qualquer momento. Quem anda frequentemente em transporte coletivo tem história pra contar, porque as memórias ficam inculcadas em nós. Com a pandemia meu afeto por trens têm partido para assisti-los em filmes, vídeos, ler livros em que trens são personagens, praticar ser fã de trens de outra forma que não fazendo viagens. Sempre assisto no Youtube as lives de trem do ponto de vista da cabine do maquinista.
_ Relacionado ao que você disse previamente, a pandemia afeta cada corpo de maneira diferente. Ao desenvolver trabalhos relacionados à mobilidade, acredito que os dois últimos anos tenham afetado significativamente sua produção. Durante esse período, o que você percebe ter mudado?
Vemos como a pandemia tem exposto os problemas da mobilidade urbana no Rio de Janeiro. Tenho o privilégio de estar em casa e falando do ponto de vista dos meus processos, os ritmos e a materialidade que utilizo mudaram, e passei a me dedicar à escrita. Antes eu me debruçava mais sobre o trem do Rio, como um espaço performativo e disparador de acontecimentos. Desses tempos para cá comecei a olhar para outros aspectos do trem. Seu nascimento na Revolução Industrial, quando o trem se tornou símbolo de um avanço tecnológico. O início de seus contornos políticos, quando o trem começou a transportar a classe operária. Venho observando o trem ao longo da história da arte e como esse transporte é um objeto cultural, que afeta pessoas e acumula fãs ao redor do mundo, estes que por sua vez fotografam, filmam, praticam o ferromodelismo, o encontro com outras pessoas em chats de lives de trem, entre outros…
_ Ao ouvir sua menção à Paul Valéry, me recordo também do movimento internacional situacionista e sua ligação com eventos do cotidiano. Além de Paul Valéry, quais estudiosos e/ou estudiosas você recomendaria à leitura?
Brígida Campbell, para pensar arte e cidade. Elilson, que pesquisa a performatividade da mobilidade, das ações dos ambulantes, das “possibilidades de ser com o espaço da cidade”, em seu livro “Mobilidade [inter]urbana-performativa”. Mayana Redin, seus textos me ajudam a pensar nas possibilidades da escrita. E Marc Augé, o “Não lugares” é clássico, mas gosto do “In the metro”, que ele fala afetivamente, além de um ponto de vista antropológico, do metrô de Paris.
_ Durante suas viagens, o que mais lhe capta atenção?
Tudo e qualquer coisa pode acontecer em uma viagem de trem e eu já presenciei e ouvi umas histórias particularmente engraçadas. Então eu estou sempre atenta às conversas de quem senta perto, e qualquer fala, gesto, atitude que fuja da curva e do silêncio. Mas acho que o que mais capta a atenção não só minha, mas de todas pessoas no trem, são os ambulantes. E claro, eles desenvolvem suas estratégias pensando nisso. E são estratégias de sobrevivência. Uma vez vi um vendedor de pregador demonstrando detalhadamente com uma corda amarrada nas barras de ferro como se usa um pregador, parodiando os vendedores de diferentes raladores de legumes que explicam, às vezes com microfone, como usar seus produtos. Aliás, andam meio sumidos esses raladores de legumes. A sensação agora é a maquininha de cartão. Então, quando eu comecei a notar os movimentos do comércio ambulante, as temporadas de certos produtos que vão sendo substituídos por outros – teve a época da mangueira que estica e toma metade do vagão -, os discursos dos ambulantes, senti vontade de estudar tudo isso. Por um tempo eu não conseguia pegar trem sem prestar atenção e anotar tudo o que acontecia, todos os produtos dos ambulantes que passavam por mim. Sem esquecer das pessoas que pegam trem no mesmo horário todos os dias e formam um grupo para jogar cartas, esse tipo de construção que também se cria no transporte. Todo mundo que atua no trem, habita e interage com aquele espaço, colabora para a criação desse lugar de acontecimentos.
_ A casualidade do dia a dia por vezes passa batida ao olhar, ao observar sua produção, é notável como diversos trabalhos seus abordam eventos e objetos corriqueiros. Onde se inicia esse estudo?
Um cineasta estadunidense que fez um filme de trens chamado RR, James Benning, diz que o longa foi uma colaboração com o trem. Já que são trens passando, quase todos enormes cargueiros, ele dependia do tempo de esperar o trem chegar e passar por completo – ou parar no meio do frame. Os trens que ditaram a duração do filme. Acho que desde o início dos meus processos precisei colaborar com as coisas corriqueiras para trabalhar. Foi acontecendo de uma forma espontânea por pensar nos fluxos da vida e do transporte. Se você procurar “tem coisas que só acontecem no Japeri” no Youtube, além do meu trabalho vários outros vídeos de mesmo título vão aparecer. Queria construir junto a esse imaginário coletivo. As linhas borradas entre público e pessoal, arte e cotidiano me interessaram assim que comecei a desenvolver meus trabalhos. Gosto que certos gestos possam se misturar com o mundo e gosto quando despertam interações de outras pessoas.
_ Parte majoritária da sua pesquisa e produção artística é realizada tendo como localização ou temática, a via ferroviária. Em “Têm coisas que só acontecem no Japeri” você desenvolve uma performance dentro do espaço do vagão. Conta como se deu início a este trabalho?
Pendurar uma rede no vagão não é algo tão incomum e registros performáticos do ramal Japeri também não. Algumas pessoas levam cadeiras e banquinhos que abrem e fecham para sentar no trem nas horas de pico e enfrentar o longo trajeto. Uma vez já vi rolando no Facebook um conjunto de fotos de uma pessoa que passou a noite no Japeri. Acho que a história era mais ou menos a seguinte: a pessoa dormiu no último trem do dia e quando deu por si já era muito tarde e todos os trens tinham parado. Então, ela tirou várias fotos tentando dormir em várias posições dentro do vagão e construiu uma história de como foi essa noite até acordar de manhã e o trem voltar a rodar. Essa é uma das referências. Para pendurar a rede eu precisei de ganchos como os que os ambulantes usam. Fui com meu amigo e artista João, que filmou, e meu namorado Rafael Lopes César, que tanto apoia meus trabalhos. Era sábado e pegamos o trem em um horário que não estava nem tão vazio nem tão cheio, era fundamental que a rede não impedisse o fluxo de passagem. Eu esperava que algumas pessoas pudessem interagir, mas não sabia o quanto seria. Eu estava performando, mas estava ao mesmo tempo me colocando em um lugar de conforto entre os trabalhadores. E a frase do título, que é uma expressão comum desse ramal, é dita por um deles.
_ Além do trabalho anterior, você também realiza “Isadora faz 15“, utilizando o espaço da estação de trem Central do Brasil, que apesar de histórica, é cenário pouco comum à tomadas fotográficas nesse formato. Conta mais sobre esse trabalho?
Já trabalhei em uma gráfica fazendo convite e capa de DVD de casamento e festas de 15 anos. Nessa época, vi muitos ensaios fotográficos de 15 anos, que são feitos em pontos turísticos do Rio e depois são usados para fazer os convites e são projetados em uma tela durante a festa. Neles estão presentes os acessórios como coroa de flores, os números infláveis, saltos, maquiagem. Isso faz parte dessa perpetuação da tradição antiga de debutar, um rito de passagem da juventude para a “fase adulta”, se apresentar à sociedade. O trem é considerado um lugar de passagem, mas é um espaço habitado por diversas pessoas todos os dias. Então, debutei no trem e na Central do Brasil. Foi a primeira performance que fiz no trem. Meu amigo, o artista Gabriel Blazar, tirou as lindas fotos. Um tempo depois montei um vídeo reunindo mais fotos e usando aquelas passagens meio exageradas de uma imagem para a outra, também pensando na maneira como esses ensaios são exibidos durante a festa de debutante.
_ Além de trabalhos realizados em localidades relacionadas a malha ferroviária, você também possui diversas obras realizadas em locais não tão comuns, e com notável relação social e de classe. “Teresa, A Jovem Rica” é um trabalho de performance em andamento. De onde surge a ideia de se realizar tal performance?
Eu estava pensando em outro trabalho no VillageMall e fui lá ver como era. Me deparei com as lojas de grife. Lembrando das fotos em provador que se veem em redes sociais, Teresa decidiu entrar em uma para ver o que acontecia. Era a Dolce & Gabbana, que estava vazia, como essas lojas quase sempre estão, então a vendedora veio imediatamente atendê-la. A narrativa foi se criando a partir das perguntas da vendedora – “o vestido é para qual ocasião? Casamento à noite ou durante o dia? Casual ou formal? Onde?”. Com isso, Teresa continuou nas outras lojas do shopping, pegava os vestidos indicados, ia experimentar no provador e tirava as fotos. Não é surpresa que a concentração das lojas de grife estão na Barra da Tijuca, nesse shopping em particular. Depois saía sem comprar, mas colecionava os cartões dos vendedores, alguns com os altos preços das peças. É a primeira vez que apresento esses, gosto dessa possibilidade de reavivar um trabalho. Também ficava com o contato de alguns vendedores no celular, e um da Miu Miu sempre avisava quando chegavam novos produtos na loja. A performance estava nesse diálogo com os vendedores e estar com o vestido no corpo e possuí-lo com as fotos. A narrativa se estendeu para o perfil do Instagram, onde Teresa podia reclamar de um atendimento e usar hashtags genéricas. A performance lidava com o tempo dos vendedores, Teresa não podia ir na mesma loja no mesmo dia da semana e em torno do mesmo horário muitas vezes. O trabalho está em andamento, de certa forma, pois eu ainda penso nas possibilidades de continuar um dia, mas sempre entro em dúvida quanto a isso.
_ Isadora, ao trabalhar diversas materialidades, é possível caminhar por múltiplas propostas artísticas. De todos os trabalhos realizados por você, algum deles marcou sua pesquisa?
Acho que todos que falei aqui marcaram minha pesquisa de alguma forma. “Teresa, a Jovem Rica” marcou o início da minha produção, minha pesquisa em ficção e personagem e foi a primeira vez que fiz um trabalho em um espaço fora. Não digo público, pois o shopping na verdade é um ambiente de propriedade privada, controlado e excludente. Mas foi por meio desse trabalho e da presença dele na internet que pude conhecer uma ampla gama de artistas e por isso sou muito grata. “Isadora faz 15” inaugurou minhas performances em trem. Com “Tem coisas que só acontecem no Japeri”, comecei a pensar mais em performance na cidade e na circulação dos trabalhos. E “Paraíso trem” resume minha pesquisa e ligação com o transporte ferroviário, nele também lembro do meu interesse pelo biscoito Tira Teima, que usei os pacotes que eu colecionei para montar um mural, ainda com o design antigo das embalagens, que logo depois foi atualizado pela marca.
_ Isadora, pra finalizar, você tem uma gama interessante de trabalhos contida em sua pesquisa. Além das obras já realizadas, você comenta sobre o novo direcionamento tomado por sua produção diante da pandemia, e sua inclinação à escrita. Que caminhos tem tomado essa escrita?
Eu estou perto de me formar, então tenho escrito o tcc, que norteia a minha pesquisa. Às vezes a escrita segue caminhos acadêmicos, às vezes experimento um pouco. Tenho o hábito de escrever diário e me mandar e-mails para o futuro, penso que isso me ajuda. Nunca tinha aproximado tanto essa prática com os meus trabalhos, talvez por uma insegurança que rondava meu ver da minha escrita. E agora tenho explorado mais o transporte de experiências do trem para essa escrita, que é investigativa, afetiva e em fluxo como um trem.
Exposições
2021
Exposição Internacional de Video Arte TRELA. Coletivo Engasga gato. Anteriormente disponível online.
1º Festival Margem Visual – Performance periférica na rede. Anteriormente disponível em: https://festivalmargemvisual.com/
2020
Qualquer exercício de repetição ou monotonia gera fascínio. Coletiva
exposição. Anteriormente disponível em: qualquerexercicio.hotglue.me/exposicao/
A quarta-fractal. Caixa Preta. Mostra multimídia anteriormente disponível em: instagram.com/_caixapreta/
Mostra Outro Rio. Festival online anteriormente disponível em: mostraoutrorio.wixsite.com/outrorio
PATIFARIA!. Titocar Espaço Poético, Maricá
2019
PEGA III. Centro Cultural Phábrika, Acari/Fazenda Botafogo
Bienal da EBA: Diversidades. Paço Imperial, Rio de Janeiro
Ateliê Aberto no Conhecendo a UFRJ. CT, Cidade Universitária
Artes Aquáticas: Verão em Queimados. Golfinhos da Baixada, Queimados

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.