Guilherme Kid, nascido e criado em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro. É artista urbano e artista plástico. Seu trabalho retrata o subúrbio e a periferia, em seus aspectos sociais, culturais e do cotidiano; O camelô, a barraca de açaí, as crianças jogando bola e soltando pipa, a feira, o botequim, diversos personagens e cenários são retratados em suas obras. Sempre com o intuito de retratar o povo periférico como protagonistas de suas obras. Por ser um artista da periferia, se sente na necessidade de falar sobre a opressão do sistema, oriundo da herança colonial que assombra o Brasil. Portanto, as lutas são constantemente retratadas em seus trabalhos, denunciando as terríveis causas da desigualdade social no país. E assim, através de variadas estruturas como paredes, telas, papelão e outros demais materiais em que desejar obter experiências, Guilherme Kid põe em prática o seu jeito de ver o mundo.
_ Guilherme, a presença de cenários e corpos oriundos e pertencentes a periferia tem ligação direta com sua própria existência. Onde se inicia sua relação com a arte?
Comecei a desenhar quando criança, gostava de desenhar, mas aí chegou a adolescência e já não tinha mais interesse em fazer desenhos. Daí quando eu tinha 18 anos de idade eu conheci uma igreja em que as reuniões aconteciam na rua, numa praça aqui em Realengo. Os membros eram jovens, andavam de skate, uns tocavam reggae, curtiam hardcore, e uns faziam graffiti. Cheguei lá e me deparei com essa galera que fazia graffiti, inclusive nesse primeiro dia tinham um mano lá com uma revista de graffiti. Foi o primeiro contato que tive com esse universo. Daí, logo depois rolou um mutirão lá perto de casa, do qual fui só pra olhar e acabei fazendo um graffiti por influência do meu amigo Clock. Muita coisa aconteceu de lá pra cá, inclusive desisti do graffiti, parei e voltei. Logo depois comecei a dar início ao que faço hoje, e comecei a fazer arte urbana. Um tempo depois resolvi que tinha que começar a falar sobre a minha realidade, da realidade das pessoas que viviam a minha volta.
_ Um de seus primeiros trabalhos em Grafitti foi desenvolvido durante um multirão, conta como foi esse processo?
Eu ia nesse mutirão só pra olhar, de rolé mesmo. Esse mutirão foi por volta de 2009 ou 2010, perto da minha rua. Daí quando eu estava a caminho do evento, encontrei meu amigo Clock, que na época fazia graffiti. Daí ele me chamou pra ir até a casa dele pra pegar uma tinta e me chamou pra pintar com ele. Daí foi com o látex dele, e mais a lata de spray do meu amigo Cety, que fiz meu primeiro graffiti, um bomb escrito “Kidd”, na época eu escrevia “kid” com duas letras “d”. E assim começou minha trajetória na arte.
_ Além dos muros, você também desenvolve trabalhos se apropriando de diversas materialidades, como o papelão. A valorização dessa materialidade traz não apenas força a obras, mas também incentiva artistas a investigarem outras telas e suportes. Ao utilizar tal materialidade, você tem grande influência social, como tudo isso lhe atravessa?
A um bom tempo eu já estava querendo sair do hábito de unicamente pintar apenas muros e telas, queria explorar novas estruturas, sair da minha zona de conforto. O papelão foi o início desse processo. Já utilizei garrafa de cerveja, colher de pedreiro e tecido. Quero ser um artista que trabalhe em diversas estruturas, sem medo de arriscar. Hoje em dia eu vejo muitas e muitos artistas explorando diversos materiais, o que vem inclusive modificando o cenário artístico, explorando possibilidades, o que acho ótimo! E sim, utilizar esses materiais é reaproveitar, ressignificar. Dar um nova vida a eles através da arte, a arte também tem esse poder.
_ Quando a gente fala sobre arte, a gente sabe quanta potência modificadora ela possui. De que forma sua vida mudou a partir do momento no qual você decidiu trabalhar com arte?
Minha vida mudou totalmente! Eu era uma pessoa com um grande problema de autoestima, do qual vivia me questionando. A arte me acolheu e me levantou. Trabalhar com arte me permitiu conhecer muitas pessoas, pessoas essas que influenciaram na minha forma de ver o mundo. Conheci coisas e lugares que se não fosse a arte talvez eu não conheceria. Através da arte fiz grandes amigos. A arte me salvou. Já vi a arte salvar muitas vidas! A arte é uma potência modificadora de várias formas diferentes.
_ A presença de corpos afrodescendentes e periféricos na sua obra é outro gerador social de modificações. Ao retratar momentos como os das típicas barbearias, o cotidiano de moradores de diversas localidades, é clara a valorização desses espaços e agentes. Ao realizar tais obras, de que maneira você é percebido?
Eu retrato o que vivo, falo sobre o que vejo no meu dia a dia, o que está à minha volta. Então pra mim funciona de uma forma muito natural tudo isso. Acho que isso facilita pra que as pessoas se identifiquem, se vejam ali.
_ Durante a criação de algum mural, você já se surpreendeu com algum acontecimento?
Eu pinto tem cerca de 11 anos, vim do graffiti, sou artista urbano, pinto na rua. A rua é muito diferente de um ateliê, onde está você e sua obra. A rua é você, sua obra, e todos aqueles elementos e pessoas que estão à sua volta. Muita coisa pode acontecer. Vários acontecimentos já rolaram comigo durante esses anos que são difíceis de esquecer. do tipo, já rolou de tomar dura da polícia, do qual o policial levou minhas tintas e me botou maior terror. Também já me aconteceu de um morador de uma região do qual eu estava pintando, chegar e falar pra mim que ” a muito tempo não via as crianças da área desse jeito”, felizes com a minha presença e de outras e outros artistas que estavam lá pintando.
_ Você comenta sobre a presença e reação das crianças ao seu trabalho. Durante a criação dos seus murais, o que mais acontece?
Cada lugar proporciona reações diferentes ao meu trabalho. Mas fico muito feliz com algo que acontece muito, que é a reação positiva de pessoas do subúrbio e da periferia se identificando com meus trabalhos. De pessoas chegarem e dizer; “isso lembra minha infância”. Não existe nada que se compare a satisfação de ouvir isso!
_ Ao iniciar o desenvolvimento de seus trabalhos, quais foram, e ainda são, as maiores dificuldades percebidas por você?
Eu sempre digo que não sou um artista, eu digo que sou um artista da zona oeste do Rio de Janeiro, de Realengo. A zona oeste é a região mais afastada da região central da cidade, e também a região mais abandonada. De serviços públicos, infra estrutura e aparelhos culturais. A questão do transporte então, é bem ruim. Portanto, essa foi e é a minha maior dificuldade, de ser um artista pobre, da zona oeste do Rio de Janeiro. Esse fator faz com que artistas das mesmas condições que eu, tenham que correr muito atrás pra conseguir seu lugar ao sol, por estar a dez passos atrás de muitas pessoas. Mas sigo correndo atrás fazendo o que mais amo, que é arte!
_ A criação de murais ao redor das cidades do Rio de Janeiro, retratando a própria cidade, frequentemente partem de corpos que existem nesses espaços. Como se dá sua ligação com a comunidade?
Eu retrato o que vivo, o que vejo. Sou nascido e criado em Realengo, no subúrbio. Cresci brincando na rua, jogando bola, brincando de pique e pega, ao lado do pessoal soltando pipa. Trailer de X Tudão, barraca de açaí, pessoal usando camisa de time, boteco e pagode tocando sempre fizeram parte do cenário em que vivo. Um Rio de Janeiro que inclusive está bem longe dos cartões postais, um Rio que atravessa o outro lado do túnel. Eu sou isso!
_ A valorização do Grafitti abre diversas portas para pensarmos arte fora dos moldes tradicionais e clássicos europeus. Com as modificações que vem acontecendo, o que você deseja para você, futuras e futuros grafiteiros?
Eu pretendo continuar estudando, pintando e ocupando cada vez mais espaços. E a todas e todos que estão chegando agora e ainda vão chegar no graffiti e na arte urbana, que continuem estudando, pintando e que não desistam. Sei que pra pessoas que não são privilegiadas, como eu, é difícil, mas eu desejo total forças e que não desistam!
_ Guilherme, agora comentando sobre alguns trabalhos específicos, você tem diversos murais. De todos eles, algum teve maior impacto na sua vida?
Difícil eu falar sobre um só. Eu posso falar sobre alguns. O meu mural que fiz no Boulevard Olímpico em 2016 foi crucial na minha carreira, pois foi a partir dele que comecei a levar a arte de uma maneira profissional na minha vida. Também teve o mural que fiz em frente à antiga quadra da minha escola de samba do coração, que é a Mocidade Independente de Padre Miguel, onde fiz um casal de mestre sala e porta bandeira levando o estandarte da Mocidade. Era um projeto antigo, que consegui tirar do papel através do projeto QR Culture. Uma pintura que também me marcou muito, foi a pintura que fiz no jacarezinho, a convite do Lab Jaca. Essa pintura foi feita num evento que rolou lá uma semana depois daquela chacina vergonhosa que a polícia fez lá. Essa pintura me marcou porque eu vi a satisfação dos moradores e da produção do evento, ao ver nós artistas levando arte pro local logo, após um acontecimento tão terrível.
_ Outro trabalho seu que me chama a atenção é “A Santa Resenha“, uma referência à “Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci. Conta um pouco sobre essa obra?
Eu estava querendo há um tempo fazer uma releitura da “última ceia”, a princípio gostaria de fazê-la em parede, mas aí depois decidir fazer em papelão. Minha proposta era fazer a santa ceia com um cenário suburbano e periférico, com pessoas com camisas de times, com churrasco e cerveja na mesa e com Jesus no centro com uma camisa escrito “COHAB de Realengo”. E nomeei a obra como “santa resenha”, porque resenha é o nome que dão a festas e encontros das pessoas no subúrbio e na periferia. Minha intenção também foi quebrar essa imagem embranquecida e eurocêntrica que fizeram de Jesus.
_O Brasil é um país com um dos maiores índices carcerários do mundo, tendo em sua grande maioria corpos afrodescendentes e periféricos, o que diz muito a respeito do nosso próprio sistema judiciário. Pensando nisso, um de seus trabalhos me capta bastante atenção; em “Marcado pelo sistema” você retrata uma perna com tornozeleira. Fala mais um pouco sobre ele?
Um índice vergonhoso! Eu tive a ideia de fazer este trabalho quando estava andando na rua aqui perto onde moro, quando vi um homem passando com uma tornozeleira eletrônica. Essa pintura condiz muito com a minha proposta de trabalho, porque nela eu falo sobre a desigualdade social que assola as regiões periféricas dos diversos lugares do Brasil e como o sistema, fruto de uma colonização violenta, deixa suas marcas negativas há séculos.
_ Guilherme, falando sobre colonização e citando um exemplo clássico. O Grafitti no Brasil ainda sofre diversos obstáculos. Citando um artista bem conhecido, temos Banksy. Enquanto na Europa as obras do artista valem milhões, são reconhecidas e valorizadas pela crítica e circuito artístico, no Brasil, ainda existem pessoas que não consideram o graffiti arte. Pensando nossa distinta herança colonial, como você enxerga isso?
Essa desvalorização do artista no Brasil é terrível, a desvalorização do grafiteiro e do artista urbano então, nem se fala! Existem casos de que foi preciso que grafiteiros e artistas urbanos fossem pra fora do país pra serem valorizados no Brasil. Isso é péssimo! Existem pessoas aqui que enxergam a arte de uma forma muito eurocêntrica e conservadora, e lançam um olhar discriminatório sobre o graffiti, que é uma manifestação negra e periférica. Há a presença da arte urbana e graffiti ocupando galerias e centros culturais e museus, mas ainda assim é muito pouco. Inclusive, a arte urbana e o graffiti estão muito fora do circuito de arte contemporânea, o que é muito errado, porque o graffiti e a arte urbana são manifestações artísticas contemporâneas! Isso tem que mudar.
_ Passando por diversos locais, exposições, atuando como artista, e também curador, você adquiriu diversas experiências. Durante a pandemia, sentimos as mudanças proporcionadas pelo isolamento social. De que maneira isso ressoou em você?
Agora tô tendo que sair pra trabalhar, tô tendo mais contato com a rua e com os lugares. Mas no começo da pandemia, quando estava muito em casa, senti muita falta da rua, pois andar na rua ouvindo música me desperta muito a criatividade. Eu senti e ainda sinto muita falta de pintar na rua e nos eventos. Quem é do graffiti e da arte urbana sabe como isso faz falta.
Me reinventei muito como artista na pandemia. lá no começo, por estar mais em casa do que hoje, eu tirei do papel um projeto que eu tinha já de um tempo, que era pintar mais telas e explorar mais materiais, tentei aproveitar esse tempo.
_ Pra finalizar, esse ano você participou da Exposição Semba/samba, corpos e atravessamentos, no Museu do samba. Como foi esse processo?
Uma grande experiência! Foi a minha primeira participação em uma expo em museu. O convite veio de um grande artista que admiro muito, o carnavalesco Leonardo Bora, um dos curadores da exposição. A expo falou sobre a história do samba, através de uma linha do tempo. Eu tive a honra de expor uma tela que retrata uma roda de samba, interagindo com a obra que se chama “alguidar”, do qual eu pintei folhas e ervas dos orixás Exú, oxóssi e oxum em alguidares. Eu amo o samba, essa gigante cultura negra e periférica, de muita resistência. O samba inclusive desperta muito meu lado criativo. Portanto, eu amei demais estar nessa exposição.
Lista de Exposições
Mural “pérola negra” no Boulevard Olímpico, 2016.
Exposição coletiva celeiro 2.0″, na galeria celeiro, 2016.
Exposição coletiva atual”, na galeria celeiro, 2016.
Exposição coletiva bem vindos”, na galeria celeiro, 2017.
Participação no documentário ” a cor do som“, exibido pelo canal futura, 2017.
.oficineiro artista educador voluntário na casa amarela, em 2017.
Participação pela galeria celeiro, na “exposição coletiva são crio” em 2017.
Oficineiro, artista e educador na rede municipal de educação pelo “Projeto mais educação”, 2017.
Oficineiro, artista e educador na rede municipal de educação, 2018.
“Educarts graffiti”, em Abreu e lima, Pernambuco, em 2018.
Exposição coletiva “Congêneres expo“, 2018.
Curador, produtor e participante da exposição coletiva “Sentido oeste“, 2018.
Curador, produtor e participante da exposição coletiva “Sentido oeste“, em 2019.
Exposição “Bicho“, Casa bicho, 2019.
Festival nacional de graffiti “Xia graffiti“, em Belo Horizonte, Minas Gerais, 2020.
Exposição Coletiva “Trânsito”, Aussie café, 2020.
Exposição “Semba/samba, corpos e atravessamentos”, Museu do samba,
2021.
Exposição “3D Saudade”, Casa bicho, 2021.
Exposição virtual” Arte como trabalho“, 2021.
Exposição ocupação artística “Arte, agoniza, mas não morre“, Espaço travessia, instituto municipal Nise da Silveira, 2021.

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.