Rio de Janeiro, 1993. Nascido e criado em Senador Camará, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Artista autodidata, utiliza técnicas de pintura e colagem digital. Começou a pintar no final de 2016, entendendo ser a forma mais genuína de expressão e comunicação com a comunidade e o público que convive. Mistura a vivência de rua, música e referências de artistas como: Salvador Dalí, Heitor dos Prazer, René Magritte, Hyeronimous Boch, Hanna Höch, Candido Portinari, Basquiat, entre outros.
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“Quando você mora na zona oeste você aprende desde cedo que tudo vai demorar.”
_ Hebert, sendo autodidata, suas referências são de multiplicidade diversa. Durante os primeiros anos produzindo, você enfrenta dificuldades, enquanto recebe apoio de amigos para investir no seu trabalho. Conta como foram esses primeiros anos?
Bem, no começo foi tudo muito estranho na real, ao mesmo tempo que eu sentia que realmente podia fazer alguma diferença. Mesmo não entendendo nada no começo, tudo era festa… Sem muita base de nada, só querendo de alguma forma colocar as coisas que eu tinha na cabeça para fora, e quanto mais o tempo passava, mesmo sem nunca ter pensado em fazer arte, ou criar, só fui fazendo. Hoje consigo ver um pouco a minha caminhada e entender muita coisa que aconteceu no início, e que hoje de alguma forma me dá mais força para continuar. Meio que fui criando casca. Engolir sapo, escutar coisas como “’pagar sua arte com divulgação”’ ou pagar para colocar minha arte em galeria… Aí me joguei de cabeça, por alguns anos, não ganhava quase nada com arte, tinha que fazer trabalho por fora para ganhar uma grana.Acho que boa parte de quem tenta viver de arte no Brasil e não vem de família rica é isso. Trabalhar pelo seu sonho até conseguir de fato viver do seu sonho ou até onde dá, né? Nessa caminhada, conheci muita gente que foi me ajudando e está me ajudando até hoje.
_ Enquanto artista, a questão financeira sempre é um elemento presente e muito forte. Você comenta sobre como durante a criação de um trabalho, seu computador queimou, além de ter perdido o arquivo e recomeçado. Quais as maiores dificuldades encontradas nesse começo de processo?
Tudo. Tudo é uma dificuldade, nada cai do céu né? Como fui fazendo o famoso ‘”DIY”, fui fazendo eu mesmo, sabe? Com ajuda dos meus amigos, procurando no YouTube, fórum e afins. Boa parte é em inglês, então só de ocupar esse espaço de criar equipamentos, que na maioria das vezes não eram o “básico”’ para fazer um trabalho e mesmo assim precisamos criar, né? Tudo é caro, infelizmente. Ao mesmo tempo, poucos querem pagar o que o trabalho realmente vale. Essa é a conta que a gente tem que fazer toda vez, e às vezes nem a matemática explica isso. Então começa assim. É complicado, todo dia eu pensava em parar, sabe? Basicamente eu só fazia isso o dia todo, às vezes passava dias sem dormir direito só para conseguir criar os trabalhos. Eu sabia que se eu fosse desligar meu pc ele ia demorar, sei lá, umas 4 ou 6 horas para abrir o arquivo de novo. Com o tempo, as coisas foram melhorando, consegui arrumar um pc “bom” para criar. Então quando as coisas começam a melhorar, de alguma forma, você já tá pronto…
_ Suas influências são amplas, percorrendo artistas plásticos como Salvador Dalí, Heitor dos Prazeres, Magritte, Hyeronimous Boch, Hanna Höch, Basquiat, incorporado bandas de rock como Deftones, Rage Against the Machine, e chegando no Rap. Ao longo dos anos percorremos diversos caminhos, acredito que essa vivência tenha te permitido observar vários aspectos geracionais e culturais. Vejo essa pluralidade como um aspecto de forte presença na sua produção. Sendo um artista de diversas referências, como você enxerga tudo isso sendo construído na sua desenvoltura enquanto artista?
Acho que é isso que faz ser tão fluido. Vejo meu trabalho hoje como se eu estivesse fazendo um “sample”, estou sampleando alguma ideia que já foi feita, mas colocando a minha visão sobre. Nunca fui de ler, comecei esse hábito tarde até. O que chegou para mim primeiro foi a música. Eu já escutei muita música na vida, de muitos gêneros musicais. E com isso fui procurando as letras, sobre o que falavam e tudo mais, só que de primeiro o que chamava a atenção sempre foi o beat, o som. Quem me mostrou o charme, rap e afins foi meu pai, já meu irmão, mostrou o rock, e minha mãe era aquilo, forró, samba e mpb, e com isso criei minha base, e fui procurando as coisas de que eu gostava com o tempo.
Comecei a ir cedo para rua e com 12 já estava na Lapa. Por muito tempo eu ia em um lugar chamado Planet Music, em Cascadura, ou alguma roda cultural. Ficava sempre vendo, nunca fui de fazer música de fato. Até que quando comecei a fazer arte, também tentei algo como DJ, toquei em algumas festas mas era nas festas dos amigos da WAVES. E foi nessa época que de fato me joguei de cabeça só em fazer arte digital e deixei meu equipamento com Antconstantino. Foquei em criar arte digital, o que faço até hoje, com toda essa informação, meu trabalho foi só colocar toda essa vivência para fora.
_ Além da presença desses agentes nos seus trabalhos, como tudo isso te afeta? Ter várias referências também nos permite várias observações: estéticas, narrativas, temporais… Como você se vê enquanto agente artístico no meio de tudo isso?
Bem, de verdade? No começo eu não pensava muito sobre, apenas ia criando e criando.
Mas com o tempo fui vendo algo ganhando força, ganhando uma vida que já ia além da minha sabe? Fui entendendo que meu trabalho já não era algo meu, era do Mundo. Um funil, quanto mais eu falava sobre como eu vejo a minha vida, minha família, meus amigos, meu bairro, minha cidade, o país que vivemos. Quanto mais fazia mais aparecia gente de vários lugares do Brasil e do Mundo, mesmo falando sobre minha vida, uma pessoa que mora em Senador Camará, Zona Oeste do Rio de Janeiro. De alguma forma muita gente começou ver coisas que faziam sentido em sua vida também, sua caminhada na minha arte. E assim foi indo, hoje vejo que estou deixando um legado, estou contando uma história que provavelmente ninguém iria contar. A minha história, a história da minha família, meus amigos, do meu bairro e tudo mais. Como é viver em um lugar esquecido, como é sobreviver a isso tudo e ainda assim criar arte. Criar arte é a parte mais fácil.
_ Você cresceu na Zona Oeste do Rio, mais precisamente em Senador Camará, a multiplicidade cultural, poética, e política encontrada na Zona Oeste é gigante. Tendo como uma de suas referências atuais o cenário contemporâneo de Rap, como são os primeiros encontros entre você e o cenário atual de Rap?
Com o Cenário atual? Lapa. De alguma forma tudo acontece ali, então você acaba vendo novos artistas todo dia. Tanto na música, como na arte ou até na moda mesmo. Estamos tirando leite de pedra, em uma cidade que muitas das vezes vê nosso trabalho como sem valor, “exótico” e afins. Mas se você parar para ver mesmo, é uma das poucas coisas que ainda dá alguma esperança a nossa juventude, podia estar fazendo mil coisas erradas, mas estão gastando sua energia para criar arte, cultura. Fazemos da nossa realidade, mesmo que muitas das vezes triste, arte. E muita coisa de qualidade está sendo feita mesmo sem recurso ou ajuda nenhuma, porque é nosso sonho, sabe? É a nossa vida. Estamos registrando uma geração que está sendo apagada todo dia. Eu faço da minha realidade uma arte, surrealista, muitas das vezes por que é assim que eu vejo as coisas. Quando eu faço uma arte é da minha realidade que estou falando. É sentir a raiva de estar esperando um ônibus às 5 da manhã em uma fila e acabar pegando um ônibus que muita das vezes nem banco tem. É a raiva de quem fica parado na [Avenida] Brasil por 1 ou 2 horas só para chegar no Centro e ainda tem a volta. É a raiva de quem fica esperando o trem. Como até chegar a “cultura” é difícil para quem mora aqui, então isso tudo me faz de alguma forma contestar isso tudo, sabe? Porque eu também estou nisso, eu vivo no Rio de Janeiro, não o da TV, o de verdade. Então como vou ver isso e como artista deixar isso passar? É sobre estudar a cultura, estudar o hip-hop.
_ Quais os elementos mais fortes do cenário de Rap, e também do seu entorno você acredita ter conseguido potencializar e consolidar na sua arte?
Do rap, tem muita gente criando novos olhares, novas formas de mundo. Hoje conseguimos falar de política e ao mesmo tempo falar de dinheiro. A gente não quer só falar de morte, ou droga, existem mil coisas. Precisamos ocupar o espaço, criar de alguma forma uma visão de melhoria. A vida por si só já é pesada demais, então precisamos criar arte para de alguma forma aliviar a dor de viver isso tudo. Digo arte, música e afins. Ao mesmo tempo, precisamos pagar as contas, né? Então, acho que a cada dia estamos entendendo como fazer do nosso sonho uma realidade. Onde eu moro também vejo essa vontade de mudança. Quando você não tem muito, você só pensa em como melhorar sua vida. Nada cai do céu, a gente entende de novo que tem que correr, batalhar pelas coisas. Então, penso que é a vontade de mudança que move, a gente não aguenta mais muita coisa, precisamos gritar por aqueles que não conseguem, por quem precisa acordar cedo e só pagar as contas, e muitas das vezes são essas pessoas que realmente têm algo para dizer.
_ Tendo enfrentado todo o processo de construir e entender seu trabalho, seus arredores e espaços, tudo isso constitui parte de um percurso. Do início pra cá, quais foram as mudanças mais percebidas por você, em relação a você e o mundo?
Muita coisa mudou, né? Antes eu era aquela pessoa que entrava de cabeça baixa em certos lugares. Muitas das vezes, até me questionava por estar ocupando lugares que claramente não foram feitos (ou fizeram a gente acreditar nisso) para a gente ocupar. Vejo que além de tudo fui uma pessoa perseverante, muita das vezes tirei forças da onde eu nem tinha mais. Mas sou de um lugar que muitas das vezes você nem tem a chance de ter a oportunidade. Isso faz você criar uma casca, nada é fácil, é uma caminhada, todas as vezes que eu não tinha dinheiro ou tinha que ficar esperando quase 2 horas por um ônibus que ia demorar no mínimo mais 1 hora e meia para chegar na minha casa, muita das vezes só com água e biscoito. Já peguei chuva para vender prints na feira da Glória. Mesmo assim eu continuei, mesmo com todo esse peso de muita das vezes não via uma luz, uma direção. Acho que meu amor por isso, pela arte é o que me moveu até aqui. Sem isso, não sei o que eu ia fazer da vida realmente, tudo o que eu tenho hoje é por causa da arte. Fora que vivemos em uma epidemia [pandemia de COVID-19] e uma guerra, né? O mundo como eu conhecia mesmo mudou né, de 2020 para cá é tudo novo. Hoje eu já consigo pensar no meu trabalho, não só em pagar contas. Consigo de alguma forma já fazer do meu trabalho algo que comece a melhorar a minha realidade. Já é algo que vai muito além do que já pensei. Então quando não tinha os equipamentos, o tempo e tudo mais, cheguei onde cheguei com isso, e toda a experiência que fui criando com o tempo me levou, sabe? Me fizeram esperar muito tempo. Quando você mora na Zona Oeste você aprende desde cedo que tudo vai demorar. Mas aí é com você ficar parado ou tentar fazer alguma coisa, né? E hoje eu sei que consigo criar algo.
_ Você comenta sobre como no início ofereciam pagar seus trabalhos com divulgação, e até mesmo sobre pagar para expor em galerias. A força representativa presente nos seus trabalhos é impactante, e a visibilidade alcançada por você demonstra o quanto você diz e ainda tem a dizer. Ao passar do tempo, como foi modificada sua visão e relação com museus, galerias e espaços de arte no geral?
Eu vejo que é muito importante ir em museu, galerias, rodas culturais, eventos de rua e tudo mais. Como falei, acho que precisamos ocupar todos os espaços. Quando eu era criança, para mim, o melhor museu sempre era a rua. O muro sempre fala com a gente, um grafite, lambe-lambe e afins. Mas hoje eu olho também como um artista. E esse é meu trabalho, assim como todo mundo que trabalha quer receber pelo seu trabalho. Ou ter o mínimo de respeito. Eu acho que o Rio de Janeiro tem muita gente criando muita coisa boa mesmo. Que tudo que está sendo feito agora, tanto na arte, na moda, na fotografia, na música e tudo que envolve criação, existe muita coisa boa. Mas muitas das vezes tem gente que não tem nem a oportunidade de continuar criando, ou trabalhando pelo seu sonho, sabe? Precisamos de alguma forma criar essa ponte, fazer todos se sentirem parte disso. Mostrar que a cultura é sua também, que o museu também é seu.
_ Recentemente você participou da Flup 2022, sendo um evento de relevância cultural e étnica massiva, especialmente considerando as multiplicidades existentes no Rio de Janeiro. Como foi essa experiência pra você?
Foi algo único de verdade. Ainda mais fazer um trabalho sobre Lima Barreto. É o tipo de dia que faz valer a pena tudo que você passou até aquele momento, sabe? No dia da abertura passou um filme na minha cabeça, todas as vezes que eu fazia aquele trajeto, muita das vezes sem ter força para sonhar e ver onde todo esse esforço me levou foi uma experiência incrível. Olhar no MUHCAB, no MAR, cheio de gente falando sobre a nossa cultura, sobre a cultura negra, periférica. Foi lindo. Ter meus amigos ao meu lado nesse momento foi algo único também, naquele momento a gente não era o coadjuvante e sim o principal. Fazendo ali na hora, mostrando para eles que sim, conseguimos de alguma forma. Que naquele momento, a gente estava vivo e não só vivendo, mesmo que no outro dia tudo ia voltar a batalha do dia-a-dia. Aquele momento era o nosso momento de apenas curtir um pouco. Minha família feliz, meus amigos da rua, energia de muita gente. E é isso, né? Tudo começou com uma vontade de só criar e ver onde isso já me levou que faz tudo parecer um sonho, felizmente é a realidade e muita coisa ainda vai acontecer. Sempre pensando no futuro. Ainda estamos aqui.
_ Além de artista, você e sua arte também são elementos políticos, de que maneira você enxerga essa potência política na sua produção?
De alguma forma mostrar que não somos apenas figurantes nisso tudo. O fato da minha avó dizer que só viu uma mulher negra em uma arte e foi na minha quer dizer muito. Precisamos ocupar, precisamos dizer a nossa história. Sankofa, tudo o que minha avó já me falou, as histórias sobre ela e a história da minha família. Tudo que os mais velhos já me falaram, tudo isso de alguma forma vai aparecer no meu trabalho. E sei que no futuro, o que estou fazendo hoje, vai ajudar alguém, sabe? Não é fácil viver de arte no Brasil. Assim como não é fácil viver no Brasil. Só o fato de estar vivo já é a maior política que estou fazendo. Minha arma é a minha arte, meu trabalho.
2022
Essa minha letra: Lima Barreto e os Modernismos Negros, Festival Flup 2022 – Rio de Janeiro.
2021
Como Não Subir Uma Escada, Paço Imperial & Casa da Escada Colorida – Rio de Janeiro.
Protagonismos – Memória, orgulho, identidade.
MUHCAB: Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira.
Ocupação virtual de arte contemporânea.
Conexão MUHCAB.
Operar (n)o Caos, Casa da Escada Colorida – Rio de Janeiro.
Sal60, Mostra virtual.
2020
Caô, Centro Cultural UERJ – Coart.
A Virada agora é Preta – Universidade Federal Fluminense.
Artefavelada – Anfiteatro Da Rocinha.
Vvdearte – Pedra do Sal.
Prêmios, colaborações e matérias
3x Vencedor do Desafio Masp [em casa].
Criações para as marcas Qualfoizn(RJ) e Dugueto (SSA).
Colaborações nas páginas @brasilcollab e @brazilguettoboys.

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.
