Entrevista Breno de Sant’ana

Artista Visual, nascido e criado na favela do Cavalo de Aço, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Breno de Sant’Ana usa o corpo como elemento poético central. A sua pesquisa se desenvolve em fotoperformance, vídeo-arte, instalação e objetos, para falar a respeito das simbologias e das problemáticas do corpo na sociedade a partir de sua autobiografia. Temas como controle, resistência e identidade são recorrentes em seus trabalhos. Destaca-se sua exposição coletiva recente “Todo corpo em deslocamento tem trajetória” (2024) em Belém–PA. Foi um dos artistas premiados pelo Circuito Latino-Americano de Arte Contemporânea (CLAC) em 2022, seu trabalho foi adquirido pela Casa de Cultura Mário Quintana (2022).

Sem título, 2021 Fotoperformance, Série: Vinhadinho.

_ Gostaria de saber sobre sua formação universitária em Psicologia e a sua trajetória artística, quais instituições você frequentou, quais relações você consegue estabelecer entre elas. O que despertou o seu desejo em ser artista?


Atualmente faço Psicologia na Universidade Federal Fluminense (UFF), de Campos dos Goytacazes. A minha entrada no curso foi um pouco forçada, mas eu aprendi a gostar ao longo dos anos. Agora, no meu último ano de graduação, acredito que foi, e vem sendo, um espaço muito importante para a percepção de novos mundos e de pensar novas formas de se colocar no mundo, articulando meu trabalho e processo artístico com isso. Nesse sentido, narrar a “si mesmo” pode funcionar como uma articulação entre reparação psíquica e elaboração dos traumas, transformando a própria vida numa obra de arte. Por isso, durante meu estágio na clínica, me encontrei com a esquizoanalise e a sua dimensão poética e crítica, faz pensar, falar, desejar e ampliar seus territórios existenciais. Percebi que a prática esquizoanalítica pode ser usada como recurso não apenas para a libertação do sujeito para criar novas estéticas de si, mas também como ferramenta de prática social, política e artística, construindo uma vivência para além dos limites estabelecidos moralmente pelo poder normalizador, impulsionando a minha vida e a minha existência. 

Além disso, minha primeira aparição numa exposição foi durante a pandemia de COVID-19, no Festival Margem Visual, do Mó Coletivo. Considero que essa exposição foi essencial na minha trajetória, pois com o cachê eu consegui frequentar o curso de Fotografia do Parque Lage e, posteriormente, o de Arte da Performance, que foram importantes para que eu me entendesse enquanto artista. Dessa forma, no início de 2024, consegui uma bolsa para participar do Clínica Geral no Ateliê 397, foi um acompanhamento que me possibilitou a ter novas direções para o meu trabalho. Gostei tanto que me inscrevi novamente no segundo semestre de 2024, passei com bolsa novamente. Por isso, acredito que a Psicologia junto às Artes tem a possibilidade de abrir a experimentação de nós mesmos por constituir, forjar e fortalecer nossos corpos, apostando em identidades outras para novos encontros, intensidades e territórios existenciais.

Fragmento ll, 2024, Fotoperformance.

_ O seu trabalho tem uma propriedade identitária muito legítima, que transborda para uma coletividade que é a “vivência viada” nas periferias do Rio de Janeiro. Como se deu esse processo artístico? Quais implicações a produção deste trabalho trouxe para você? E como esses desdobramentos se relacionam como o tema de sexualidade e identidade bicha periférica?

Desde a minha infância, o termo pejorativo “viado” esteve presente em minha vida e acredito que na vida de outras crianças que, assim como eu, apresentavam ações e comportamentos não esperados social e culturalmente para o seu corpo. Por outro lado, a internet, de fato, é um meio de ter informações e de produzir informações, mesmo que elas sejam falsas. Os limites de certo e errado ficam nebulosos dentro desse sistema. São espaços paradoxais e caóticos no qual se cria e fortalece relações, mas, também, onde os discursos de ódio proliferam indiscriminadamente e sem punição. Eu fui uma das vítimas e não consegui me posicionar sobre a violência que sofri desde a infância e que se acentuou nas redes sociais na minha adolescência. Muitas vezes, os discursos que circulam nas nossas casas, internet ou nas escolas são reguladores, que normatizam, instauram saberes hegemônicos e que produzem uma verdade inquestionável. Na rede social das imagens, Instagram, eu sempre postava as minhas fotos até o momento em que tive algumas de minhas fotos assaltadas por um grupo no WhatsApp, no qual tinha o objetivo de colocar imagens de pessoas e fazer comentários preconceituosos. Eu tive acesso ao grupo e percebi que a maioria dos insultos e discursos de ódio estava relacionada à palavra “viado”. Após isso, depois de um longo período de terapia, eu me propus a entender melhor a origem e o significado desse termo que sempre esteve presente em minha vida e, a partir disso, ressignificá-lo. A violência causa marcas na subjetividade, mas elas não podem ser o único destino de sujeitos. Dessa forma, acredito que todos esses acontecimentos despertaram o meu fazer artístico.

Penso que a periferia não apenas como um lugar de pertencimento, mas como um lugar de aprendizagem, como uma forma de olhar o mundo e de fazer mundos. Usando o território como afirmação de identidade. As esquinas, os paralelepípedos para as bichas e viados são passarelas e o asfalto, nosso grande tapete vermelho. A partir disso, consegui sair do “Meu Deus, eu me odeio” para o “Meu Deus, eu sou normal”, ressignificando o sentimento, me reconhecendo mesmo como homossexual, entendendo a homossexualidade como um modo de viver tão legítimo quanto a heterossexualidade. VINHADINHO inaugura palavra que agora possui uma dimensão social e existencial, que resiste ao controle de seu corpo e encontra estratégias de subversão às normas cis-heteronormativas. Assim, provocando fronteiras e a margem como possibilidade de existência e rearticulação. Quando nós, viados, nos apropriamos do corpo e dos discursos, o poder treme pela falha em seus mecanismos de proibição e de controle. A palavra assusta por ser altamente subversiva.  Quando nos abrimos às experimentações, nos damos a possibilidade de mudar a nossa forma de sentir, desejar e pensar nossos territórios existenciais, construindo um mundo e uma vida diferente. Por isso, acredito que toda experiência individual é também coletiva, exponho minha experiência de maneira autobiográfica, tensionando saberes hegemônicos e tratando vivências periféricas de maneira afirmativa. Acredito que nesse trabalho reinventar a si mesmo não se limita apenas à experiência aqui registrada, mas é um convite para conectar corpos às suas trajetórias singulares e experimentar a reconexão com lugares, histórias e memórias.

Atenção: Vinhadinho na pista, 2023, Fotoperformance, Série: Vinhadinho.

_ O trabalho “Vinhadinho” é uma das suas produções mais conhecidas, mas em sua trajetória vejo outro trabalho que estão bem próximos ou que se desdobraram partir deste, gostaria de saber as relações que você constroi entre os trabalho, como, por exemplo “A festa” e “Metamorfose”.
Em meus trabalhos gosto muito da ideia da repetição, pois acredito que ela cria trajetórias e narrativas que guiam toda a minha produção. Tenho Vinhadinho  como minha pesquisa poética central, a partir dela que vou pensando o mesmo assunto de forma diferente e com diferentes materialidades. Acredito que quando a gente repete uma ação ou um gesto ele não é o mesmo, quando a cena muda a repetição ganham contextos diferentes e ganham novos sentidos. Voltando em minhas imagens de infância, como você menciona em A festa ou em  O primeiro beijo na qual eu beijo meu primo na boca,  o que mais me intriga e me norteia nessas imagens é que alguém deixou com que o ato se efetivasse e ainda o registrou. Ninguém impediu que o movimento acontecesse e ainda foi eternizado pela fotografia. Penso que esses registros, vendo com outro olhar, revelam uma estratégia de subversão e de preservação de uma história que repensam as formas de nascer, crescer e amar. Já em Metaformosei eu tento mostrar essa ambiguidade de ser uma coisa e ser outra ao mesmo tempo, o bicho-bicha, criando esse sujeito paradoxal que é uma coisa e outra ao mesmo tempo. O que mais me chama atenção são os chifres e a contorção que mimetizam um veado e como esse sujeito que quer ser fotografado, sempre chamando atenção por onde passa. Assim, as imagens que se constroem pela repetição e diferença revelam um sujeito que está constantemente contrariando as formas hegemônicas de estar no mundo.

A festa, 2021-2024 Fotoperformance, Série: Vinhadinho

_ Em 2023 realizou sua primeira exposição individual, “SOLTE SUA FERA”, que aconteceu no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica. Você poderia comentar algo sobre?
A exposição “SOLTE SUA FERA” foi um acontecimento em minha vida, pois eu não esperava. Quando inscrevi meu trabalho no Projeto Hélio Oiticica, era para ser apenas uma instalação na entrada do prédio com a faixa, placa e faixa pendurada entre paredes. Ao longo do processo, o Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica estava reabrindo depois de uma reforma e estava sem programação, a partir disso meu amigo, que assinou a curadoria, Rubens Takamine, sugeriu que eu ocupasse uma sala com minhas fotos um dia antes da abertura da instalação. Conversamos com as produtoras do espaço e elas aceitaram, foi muita correria e perrengue chique, mas no final deu certo. Sem dúvida, foi muito importante ver uma parte da minha pesquisa junta, pois nunca tinha visto dessa forma. Além disso, foi muito importante ver, também, as trocas e as reverberações da exposição. Tenho poucos anos de produção, meu trabalho dá passos de formiguinha, mas faço o possível para que ele aconteça conforme os materiais que tenho à minha volta. A minha performance saiu em Crítica feita pela Revista Select, isso é muito gratificante, ver minha história sendo ampliada, repensada e, ainda, causando uma identificação com quem assiste e acompanha meu trabalho.

Mesmo ameaçado serei vinhadinho, 2022, Objeto, Série: Alerta Geral.

ACERVO PÚBLICO:

Casa de Cultura Mário Quintana (CCMQ) | RS

EXPOSIÇÃO COLETIVA:

2024

TELA-TELA -Galeria Vermelho | SP

Apocalipse – Paradoxo Ateliê | RJ

Todo corpo em deslocamento tem trajetória- Espaço Cultural Casa das Onze Janelas| PA

Estandarte e Bandeiras – Ateliê terreiro | RJ

2023

20 território de Araraquara – Palácio das rosas | SP

48 Salão de Arte de Ribeirão Preto nacional-contemporâneo. MARP- Museu de Ribeirão Preto| SP

Ocupação Bela Maré – Bela Maré | RJ

Animal Doméstico: Festival internacional de performance- UFPel | RS

2022

AhRuyNada – Triplex | RJ

IDOLATRADA SALVE! SALVE! – Fábrica Bhering | RJ

XXX ARTE – Capiberibe 27 | RJ

ll Salão de Artes Vermelhas- Atelie Sanitário | RJ

Saravá-Projeto Gás – Galeria Anita Shwartz | Rj

 Ver-ão SaL-ão – Galeria Oásis | RJ

2021-2022 | Circuito Latino-americano de Arte Contemporânea – Casa de Cultura Mario Quintana | RS

2021

46 Salão de Arte de Ribeirão Preto nacional-contemporâneo. MARP- Museu de Ribeirão Preto| SP

Bienal on-line – 14 Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba | PR

Festival Margem Visual – Mó coletivo | Virtual

EXPOSIÇÃO SOLO:

2023

SOLTE SUA FERA-Projeto Hélio Oiticica- Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica| RJ

PRÊMIO:

2022

Circuito Latino-americano de Arte Contemporânea – Casa de Cultura Mario Quintana | RS

Mateus A. Krustx é artista visual, educador e curador. Graduado em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Arte e Cultura Contemporânea pelo PPGArtes/UERJ.