Bruno Portella – Entrevista

A Desvio Indica apresenta todas as sextas artistas para o público. Entrevista realizada por Clarisse Gonçalves. As primeiros cinco entrevistas foram realizadas com artistas com pesquisas premiadas pela Desvio no II PEGA.

Bruno Portella, 1992. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Artista visual formado em Design pela UFRJ. Realizou intercâmbio de seis meses no IADE-Lisboa. Foi bolsista integral do curso Imersões Poéticas, da Escola sem Sítio e monitor do curso Experiências Gráficas da EAV – Parque Lage. Seus trabalhos se configuram na busca pela construção de um mecanismo de diálogo que se estabeleça através da memória afetiva e sensível. É co-autor do projeto Pão na Chapa. Na sua atuação se destacam a exposição individual no Centro Cultural Light, a exposição coletiva Serendipity C. Galeria, a residência Pictopoética da Petrobrás no Teatro Poeira e a premiação de melhor pesquisa apresentada no II PEGA da Desvio no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica.

Clarisse Gonçalves: Bruno, de onde nasce a ideia do trabalho Não trabalhe, reclame da crise?

Bruno Portella: Não trabalhe, reclame da crise surge como contraproposta ao discurso do ex-presidente Michel Temer, no contexto do pós-golpe, em que o mesmo cita uma frase vista em um outdoor instalado num posto de gasolina desativado, que dizia “Não pense em crise, trabalhe!”. Dessa maneira, me apropriei do recurso narrativo proposto por temer, para que, a partir daí, eu pudesse desenvolver uma forma de questionar o sistema trabalhista através do contexto que a frase me colocava, como por exemplo, os espaços onde reclamamos do trabalho, seja na mesa do bar, no churrasco de domingo, no cafezinho pré-expediente ou na hora do almoço. A ideia do trabalho foi entender o ócio enquanto potência de protesto e elaborar uma série de imagens que misturam fotografias catalogadas do meu acervo familiar e o recurso textual. Sendo assim, o trabalho continua se desenvolvendo, ora sendo apresentado pela figura do meu pai – taxista há quase 30 anos -, trazida em uma fotografia de 1993 (um ano após meu nascimento), em seu momento de lazer abrindo uma cerveja, ora pela fotografia dos primos na piscina de plástico, etc.

CG: Você é coautor do projeto Pão na chapa, qual relação esse projeto estabelece com sua produção artística? Você pode comentar um pouco mais sobre o projeto?

BP: Pão na chapa surgiu de uma vontade minha, enquanto designer, e de mais três amigas, Isadora Gonzaga, Beatriz Nunes e Paula Amparo, todes moradores do subúrbio e baixada carioca, de desenvolver uma publicação independente, um jornal de arte contemporânea feito por/para corpos e espaços fora do eixo artístico centro/zona sul. O jornal, até agora, possui apenas uma edição e teve seu lançamento em novembro de 2017, num evento co-produzido por Mayara velozo e pelo coletivo És uma Maluca. Acredito que a relação estabelecida com a minha produção parte do princípio do encontro, da troca e das festividades, além de, obviamente, do contexto que se insere enquanto produção periférica. Cada vez mais meu processo vem construindo espaços de diálogo que se edificam em ambientes de afeto, principalmente quando o trabalho se trata de um embate. O evento e a publicação, por sua vez, se caracterizam como facilitadores do encontro entre os artistas e produções que desviem do centro e a elaboração de uma rede de apoio entre eles.

CG: Você é formado em design, como se dá a relação do design com a sua produção artística?

BP: Ele se tornou mais um mecanismo possível para o desenvolvimento das obras. Passei um tempo sem conseguir enxergar o design como essa ferramenta e usá-lo a favor da minha produção, mas comecei a reconhecer muito das características das peças gráficas nas obras que produzo. Às vezes aparece como forma de compor a imagem, às vezes no grafismo e até mesmo na tipografia, como é o caso da obra Não trabalhe, reclame da crise, onde me senti seguro de usar o arranjo tipográfico por conta da proximidade com o universo gráfico.

CG: De onde surge o interesse em trabalhar com arte?

BP: Essa ponte entre o design e a arte sempre existiu, e por vezes foi deixada de lado ou distanciada pelo tempo corrido que o design necessita. Foi no projeto em que elaborei para o TCC da faculdade de design que tudo começa a dialogar de forma mais concreta, e apresentar conexões de maneira mais nítida. O processo artístico foi, aos poucos, se tornando um elemento de ativação e deslocamento, de vida e produção, fazendo com que os caminhos se cruzassem cada vez mais. Além disso, ele começou a traçar direções mais elaboradas aos pensamentos que rodeavam minha cabeça. Acredito que reconhecer a pausa e, consequentemente, o ritmo desacelerado do olhar e do pensamento tenham sido métodos importantes para começar a trabalhar com arte.

CG: Um dos seus trabalhos, Repartição Pública, se apresenta como que uma escultura interativa, no formato de bolo com a imagem da carteira de trabalho e previdência social, que foi sendo consumido pelo público. Você pode comentar um pouco mais sobre essa obra?

BP: Repartição pública é um trabalho que vem sendo repensado a cada montagem. Até então ele assume o papel de happening e configura seu discurso de acordo com a situação na qual é apresentado. Ao mesmo tempo em que representa uma resposta direta ao sucateamento de ministérios e a repartição desenfreada de cargos públicos, na tentativa de dissipar determinadas ocupações. Também fala um pouco da minha posição, e de outros artistas, em relação à inserção no mercado de trabalho, principalmente no que tangencia a arte. É uma sensação quase antropofágica, onde convido o público a digerir tal situação comigo. Além disso, é claro, assim como toda minha produção, Repartição Pública tem como um dos seus objetivos a construção de um lugar de afeto para os tensionamentos e diálogos que proponho ao público, que nesse caso se materializa num bolo confeitado com decoração de papel de arroz, figura recorrente nos aniversários infantis.

CG: Um dos seus trabalhos, Parasita 1 e 2, existe dentro de uma poética diferente em relação as peças da série Não trabalhe, reclame da crise e também da obra Repartição Pública. Como se deu a produção dessas obras? De onde surge essa outra poética?

BP: Sim, mas não tanto. Talvez o que se diferencie mais seja a abordagem que dei para cada um dos processos. Meu trabalho tenta elaborar diálogos e confrontos a partir de um lugar construído pelo afeto. Esse lugar se abastece das catalogações e averiguações do meu espaço familiar, da memória da infância e das histórias de onde vim. O Anel e o Sapato fazem parte de uma série mais ampla e mais antiga, onde revisito minha família na tentativa de catalogar alguns objetos relicários e, dentre eles, me deparo com a matéria do meu cordão umbilical em estado de decomposição. A partir daí começo a trabalhar a organicidade que o tempo traz, relações de vida e morte, relações parasitárias da memória e uma tentativa de conseguir a matéria do umbigo através de uma série de decomposições de frutas. Por isso, acredito que exista um fio condutor que costura a poética de todas as obras, que ora produz pontos mais fechados, ligados ao íntimo e pessoal, e ora costura de maneira mais aberta, com uma leitura mais direta.

CG: Bruno, em mais de um dos seus trabalhos aparece a imagem de familiares ou pessoas próximas a você. Como você mesmo nos disse, seu trabalho passa diretamente pelos lugares do afeto e das relações interpessoais.  Em Não trabalhe, reclame da crise vemos a imagem de seu pai, que você mesmo disse ser taxista há quase 30 anos. Existe alguma relação da figura do seu pai com sua produção artística?

BP: Totalmente! Principalmente nas produções mais recentes. Não só a produção artística como toda a minha vida da minha família. O táxi sempre foi o protagonista da maioria das histórias, era nele que íamos passar as férias na região dos Lagos, é dele que vem a maior parte do sustento da minha família e é nele que meu pai passa a maior parte do tempo. Toda a noção que tenho a respeito das condições trabalhistas, questões financeiras, tempo de trabalho e, posteriormente, herança (ou a falta dela) se constrói/ construiu da vivência que tenho com o meu pai e o táxi. E, por ser justamente o elemento central da pesquisa que desenvolvo no meu trabalho, seria quase impossível não falar sobre meu pai.

repartição pública
Repartição Pública (2018 – 2019)
NAO TRABALHE RECLAME DA CRISE
Não trabalhe, reclame da crise (2018)

senescência

Senescência (2018)

parasita 1
Parasita 1 (2018)

Exposições                                                                                                                           

Individual

Bruno Portella – Centro Cultural Light (2018)

Coletivas

Serendipity – C. Galeria 2019                                                                                                               

II PEGA – Centro Municipal de Arte Hélio oiticica (2018)                                                           

1º salão vermelho – Atelier sanitário (2019)                                                                           

Mostra de alunos – EAV 

Premiação                                                                                                                                              

II PEGA – Centro Municipal de Arte Hélio oiticica (2018)

Design sem nome

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte, UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.