Entrevista Ju Morais

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Varal do sagrado, 2018

Ju Morais nasceu em 1986 no Rio de Janeiro, cidade onde vive e trabalha. Bacharelada em Design de moda pelo Senai Cetiqt, estudou Indumentária na UFRJ, Artes Visuais na UERJ e atualmente é mestranda em Linguagens Visuais no PPGAV-UFRJ. No Parque Lage, fez Fundamentação em Arte (2012) com Cadu, João Modé e Marcelo Campos e Poéticas expositivas (2018) com Sônia Salcedo.

Seu trabalho vem da necessidade de aprofundamento do bordado não como um processo e sim como marco cultural na vida das mulheres. Sua pesquisa abrange o lado político do gesto e como ele foi usado não só como forma de recamo, mas como resistência feminina ao longo de vários momentos da sua narrativa. É através desse pensamento que o utiliza como fio condutor em suas obras. 

_ Juliana, sinto que preciso antes de tudo comentar sobre a potência do seu trabalho. Entre as múltiplas materialidades utilizadas por você, todas elas carregam simultaneamente força e delicadeza, e ao observar sua produção fui tomada por grande surpresa e admiração. Um dos seus trabalhos me chama demasiada atenção e sinto que deveria começar essa entrevista por ele. Em “Varal do Sagrado” você traz não apenas violências encontradas no cotidiano feminino, mas também uma perspectiva histórica do bairro de Santa Tereza, nomeado em homenagem a Santa Teresa de Ávila. Na peça em questão você e cita frases de Teresa de Ávila, importante figura histórica dentro da Igreja Católica por lutar pelo direito das mulheres no catolicismo. De que forma surge o interesse em se apropriar dessa narrativa enquanto artista? 

No caso do “Varal do Sagrado”, eu me inscrevi para um edital do Artes de Portas Abertas que tinha como premissa Intervenções Urbanas no bairro de Santa Teresa. A grande maioria das minhas obras são resultados de pesquisas sobre o objeto, local, momentos históricos, e não foi diferente com essa. Eu queria fazer algo que tivesse a ver com o feminino, tão presente em meu trabalho, e que, ao mesmo tempo se ligasse ao local que seria colocada a obra. Comecei a pesquisa sobre o bairro, e não encontrava nada de significante sobre sua história que o ligasse às mulheres, até saber melhor sobre a sua fundação. Quem fundou o local foram as freiras Carmelitas e o nome Santa Teresa se deu devido à santa ser a padroeira da congregação. Descoberto esse fato comecei a me aprofundar sobre ela, até ler muitos de seus textos e ficar surpresa ao ver o quanto ela era visionária nas questões femininas, estando muito à frente do seu tempo, principalmente dentro de uma religião como o catolicismo. Eu que estudei em colégio de freira minha vida toda, nunca tinha ouvido falar muito sobre ela e acho que não é tão propagado esse seu lado. O que ela escreveu lá no século XVI, ainda ecoa para nós mulheres e se encaixa no que vivemos. A partir desse momento tudo fez sentido e resolvi utilizar o bordado (que dentro da minha produção não tem só o papel de simples técnica e estética, mas é um instrumento de resistência meu e das mulheres) como um fio condutor das palavras ditas por ela. Procuro sempre utilizar objetos que tenham memória e que muitas das vezes sejam do imaginário feminino, assim, bordei suas frases em peças usadas, garimpadas em brechós e bazares, como toalhas de mesa, fronha, panos de prato e roupas. Formei meu enxoval, que dialogou com a rua através de um varal, símbolo presente no universo doméstico e ligado a um fazer feminino. 

_ Enquanto mulher e artista é, visível através da sua obra sua atuação não apenas como artista, mas também como corpo político. A delicadeza e força encontrada nas suas peças é um incrível ativador de potências. Em “Escondo imperfeição, marca, lágrima, roxo, tempo…” você expõe e trabalha diretamente violências encontradas no cotidiano feminino. Você pode comentar um pouco mais sobre essa peça? 

Eu ganhei esse pó de arroz de uma tia, e fiquei intrigada com ele por diversos motivos. Ficava olhando esse objeto, o admirando por ser uma antiguidade, rebuscado, bem feito, algo que a gente não vê mais no nosso dia a dia, principalmente se tratando de maquiagem. Comecei a deixar de lado a parte estética da peça em si e passei a pensar no hábito de se maquiar, no que aquele gesto imprime para nós mulheres. E isso trouxe à tona muitas questões que passam despercebidas no nosso dia a dia. Pesquisei sobre a origem desse pó de arroz e descobri que era dos anos 50, mesma época que foi criada esse tipo de maquiagem portátil, para ser levada dentro da bolsa em qualquer ocasião. Comecei a pensar em quanto tempo a maquiagem está presente na nossa vida, e como a gente ficou refém dela de várias formas. Seja como um instrumento de beleza, para nos fazer “sentir” melhor, como pressão da sociedade para sermos sempre perfeitas, ou até mesmo esconder violências que sofremos. Através do bordado quis ressaltar esse poder que ela tem em muitas de nós escrevendo essa frase que poderia ser quase uma propaganda ao contrário, mas que nos dá força para uma libertação. 

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O papel da mulher, 2018
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O papel da mulher, 2018
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O papel da mulher, 2018

_ O bordado foi utilizado historicamente por mulheres como forma de resistência. Durante as décadas onde as mulheres foram proibidas de frequentar a escola, era através dele que as que sabiam ler ensinavam à leitura à aquelas que não sabiam. Na série, “O Papel da Mulher”, você trabalha a importância histórica do bordado, utilizando como suporte uma enciclopédia dada à você por sua mãe durante seus anos escolares. Nele você concilia duas narrativas, uma pessoal, com a utilização da enciclopédia passada de sua mãe para você, e a narrativa histórica do bordado. Como foi pra você o desenvolvimento desse projeto? 

Esse trabalho foi um dos primeiros desenvolvidos a partir da minha pesquisa sobre o bordado como forma de resistência feminina e de como a gente pode contar a história da mulher através dele. Tenho pesquisado bastante sobre o ato em si não só como forma de recamo, mas como algo cultural e social. Nas leituras dentro da minha pesquisa foi recorrente o fato de que na época que mulheres não poderiam frequentar o ensino formal (por volta de 1850), elas nas chamadas “aulinhas de bordado” se reuniam para ensinar a ler e escrever através do bordado. Essas aulas eram momentos que elas poderiam conversar abertamente sobre tudo sem a intervenção masculina, sendo uma forma de resistência contra o patriarcado. Eu achei a história linda e foi o pontapé inicial para tudo que eu tenho feito. Eu que já era bordadeira, sempre tive no bordado uma ligação forte, seja por ser um saber feminino, mas também por entender que através dele mulheres contavam histórias, mesmo elas não sendo vistas a olho nu. O tempo que se passa fazendo é uma forma de meditação, terapia, naquele momento você está colocando todo seu pensamento ali, você ri, você chora, você pensa, então de alguma forma o resultado final carrega muito sentimento, afeto, sendo uma forma de resistir e se libertar. Quando revisitei essa enciclopédia que usei quando criança e foi da minha mãe, comecei a ver em muitas páginas textos sobre as mulheres ao longo da sua história, seja como em tempos de submissão, mas também como militante e reivindicando seus direitos. Naquele momento bordar as letras e numerais nessas páginas se fez necessário como forma de reforçar esse conhecimento e mostrar que a gente continua resistindo até hoje. 

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La Cucaracha, 2019

_ Todos os seus trabalhos podem ser encarados também como formas de resistência. Vezes rememorando e lutas e processos de resistência históricos, vezes trazendo à tona processos de luta, resistência e violências atuais, como a utilização da frase “Come and take it” na peça “La Cucaracha”. Enquanto mulher e artista, como você se vê inserida como corpo político no momento atual? Como você enxerga a designação de artista dada à você nesse momento? 

Acho que o momento atual é o pior e também o melhor momento pra ser artista. O pior porque a gente está vendo de perto o sucateamento da cultura, dos investimentos nas universidades, um ataque a tudo que nós artistas fazemos e acreditamos. Ao mesmo tempo, é o melhor porque isso tudo acende mais ainda a nossa chama, dá mais impulso à nossa criatividade, nos dá mais vontade de lutar e são nesses momentos que são criadas obras incríveis, muitas vezes de maior relevância. Eu sendo artista tenho um papel muito importante de reafirmar a nossa liberdade e lutar por ela. Sendo mulher ainda carrego mais uma responsabilidade que é de denunciar tudo que foi e continua sendo feito de errado contra nós, e de nos colocar no lugar que é nosso por direito. Isso tudo poderia ser resumo da minha produção artística. 

_ Eu também encaro bastante esse momento atual como ativador de potências, principalmente artísticas. A nossa arte sempre acaba por ser, além de uma peça do tempo, um reflexo do nosso consciente e inconsciente. Ao mesmo tempo que a gente existe no tempo, esse tempo também existe na gente. O seu trabalho, além de ser uma resposta às questões do nosso tempo, é um reflexo de processos históricos de resistência. Como você enxerga o impacto do momento atual na sua produção? Algum acontecimento específico teve peso maior? 

O impacto do momento que estamos vivendo sem dúvida é que está movendo muito da minha produção artística. Todo o processo de eleição do ano passado, as manifestações, principalmente a do #elenao, a união das mulheres na luta de igualdade, e o momento político atual foram e estão sendo cruciais para a criação de dispositivos poéticos que falem sobre o que estamos vivendo. Todo dia ao acordar e olhar as notícias me sinto completamente angustiada e com vários tipos de sentimentos, mas tento canalizar a minha energia em produzir, e colocar no mundo trabalhos de questionem e denunciem o que estamos vivendo.  

_ Em “Símbolo Augusto da Paz” você trabalha diretamente com a externalização e materialização, através do objeto de arte, um momento político extremo e violento vivido atualmente no Brasil. Você pode comentar um pouco mais sobre essa peça?

Estou com uma fixação por bandeiras e venho trabalhando em obras com elas. Uma bandeira por si só carrega uma simbologia forte e hoje eu vejo claramente que seu significado pode ser um para mim e outro para você. Quando a bandeira do Brasil começou a ser usada como ícone de patriotismo nas manifestações, ela saiu de um lugar comum a todos para representar algo que só uma parte dos brasileiros acreditam. Foi o sequestro de um símbolo nacional que acredito que não vai ter uma libertação tão fácil. Resolvi trazer essa questão com uma metáfora bem literal, direta do que eu acredito que estamos vivendo hoje. A bandeira foi torturada, costurada, deformada, e sangra em forma de cristais bordados que se espalham pelo chão. 

_ Quando a gente trabalha com arte, a gente lida frequentemente com a ressignificação. Através da arte é possível denominar outros rumos de significância e sensibilidade dirigidas à um objeto. No caso da bandeira do Brasil, esse ato de ressignificação ocorre durante um momento histórico, e a ressignificação acabou por tomar rumos negativos. Enquanto artista e indivíduo, como você acredita que a arte pode lidar com isso? 

A arte é um instrumento de questionamento e pensamento muito poderoso. Acho que o papel do artista e da arte que a gente produz é o de denunciar e de muitas vezes gerar incômodo. E é daí que vai vir o senso crítico e o pensamento em torno da obra. É importante que se mantenha ativo, com o olhar atento e se utilize de objetos de diversas maneiras dando novos significados a ele gerando novos valores e reflexões. E essa premissa tem que ser uma constante, até porque a cada momento estamos lidando com diversos cenários diferentes. 

varal do sagrado - 2018 (8)
Varal do sagrado, 2018
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Escondo imperfeição, marca, lágrima, roxo, tempo…, 2019
varal do sagrado - 2018 (10)
Varal do sagrado, 2018
varal do sagrado - 2018 (11)
Varal do sagrado, 2018
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Série Uma dama sem um leque é como um nobre sem espada, 2018

Formação acadêmica

Mestranda em Linguagens Visuais – PPGAV – UFRJ  (em andamento)

Bacharel em Design de moda – Senai Cetiqt

Bacharel em Artes Cênicas – Indumentária – UFRJ (Incompleto)

Bacharel em Artes Visuais – UERJ (Incompleto)

Cursos

Metodologia feministas das artes – Centro cultural municipal Hélio Oiticica – Rio de Janeiro

Poéticas expositivas – EAV Parque Lage – Rio de Janeiro

Fundamentação em arte – EAV Parque Lage – Rio de Janeiro

Prêmios

Selo Arte e Resistência – Arte de Portas Abertas – Rio de Janeiro

Prêmio Iniciativa Jovem Shell – Rio de Janeiro 

Prêmio Lycra Future Designers – Brasil 

Residências Artísticas

Programa Carmen – Atelier Organi.Co + Revista Desvio – Rio de Janeiro

Exposições coletivas

2019

1º Salão Vermelho de Artes Degeneradas – Atelier Sanitário – Rio de Janeiro

2018

Mostra de alunos – EAV Parque Lage – Rio de Janeiro – Organização: Ulisses Carrilho

Metodologias Artísticas – Centro cultural municipal Helio Oiticica – Rio de Janeiro – Curadoria: Danielle Machado

Intervenção urbana/ Arte de Portas Abertas – Rio de Janeiro – Curadoria: Martha Niklaus, Xico Chaves e Regina Marconi.

Corpos e territórios: Arte em disputa – Museu da República – Rio de Janeiro – Organização: Tatiana Martins e Ana Beatriz Cerbino.

Design sem nome

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte, UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.