Elisa Castro é artista, professora e mestre em Linguagens Visuais pela UERJ, PPGAV. Participou de exposições nacionais e internacionais e bienais de arte, como a 17 Bienal de Cerveira (Portugal), IV Bienal Internacional da Bolívia (La Paz), 7 Bienal de Arte do Mercosul: Grito e Escuta (Porto Alegre-BR). Suas obras estão em coleções como a do Museu de Arte do Rio (MAR), Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), Fundação Bienal de Cerveira (Vila Nova Cerveira- Portugal) e Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea (RJ). Realizou oficinas na Escola Livre de Artes do Parque do Museu Bispo do Rosário, de 2008 a 2012. As últimas exposições individuais das quais participou foram: Políticas Incendiárias (Centro Municipal de Arte Helio Oiticica, Rio de Janeiro, 2017), Indisciplinas ( Casa França Brasil – Rio de Janeiro, 2017), Aquilo que nos Une (Centro Cultural da Caixa – Rio de Janeiro – 2016 e São Paulo -2017), Festival de Performance Corpus Urbis, 2016- Macapá), Ficções (Centro Cultural da Caixa, 2016). Site

_ Elisa, você pode comentar sobre o trabalho “Não ceder ao medo”?
Não Ceder ao Medo é o meu mais recente trabalho e aconteceu em uma escola pública para crianças, localizada em uma comunidade de Niterói, tem como questão central a problemática da conexão com o outro nos espaços de violência social. O projeto se deu a partir de práticas de escuta que envolveram tanto os alunos quanto os professores, como também a comunidade do entorno. Conheci a Comunidade Sítio de Ferro em 2017 quando, através de um contrato com o Município de Niterói, fui alocada na Escola Municipal Prof. Horácio Pacheco para lecionar Artes para crianças do primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental I. A pequena casa que é estrutura física da escola fica localizada no centro de um vale, são mais de 8000 habitantes, que vivem na comunidade e muitas vezes estudam e trabalham nas suas proximidades, deixando seus filhos na Escola Municipal Professor Horácio Pacheco, onde o projeto Não ceder ao medo se desenvolveu. Ao iniciar minha atividade docente na comunidade, notei o quanto era comum a fala sobre o medo mas, ao mesmo tempo, o quanto o assunto transitava na escola quase como algo secreto e que não deveria ser dito. A partir de então, veio à tona a problemática da conexão com o outro em um espaço de violência social. Era muito comum crianças representarem por meio de brincadeiras, as ações violentas que presenciavam em suas casas e na comunidade, brincadeiras que envolviam nomes de armas e venda de drogas. Durante a brincadeira era frequente presenciar uma criança lidando com a outra de forma agressiva com chutes, socos, tapas e pontapés. Assim como o brincar atua como meio de comunicação infantil, essa verdade também aplica-se ao adulto que diferente da criança ativa a brincadeira por meio da linguagem verbalizada, através do senso de humor, da ironia, inflexões de voz e escolhas de palavras. Não Ceder ao Medo na Escola Professor Horácio Pacheco, teve a duração de um ano, durante o período do meu contrato com a Fundação de Educação Municipal de Niterói, a intensidade das experiências vividas naquele espaço marcaram o meu fazer/pensar como artista. Desta forma, se tornou fundamental para a conclusão deste projeto a exposição das bandeiras das crianças, ou ao menos parte delas, já que ao fim do trabalho havia mais de duzentas bandeiras produzidas e não havia financiamento. A partir desta realidade, selecionei os medos mais comuns entre as crianças, e separei quarenta bandeiras. Para que todas as crianças se sentissem representadas instalei um adesivo de parede com o nome de todos os participantes. A ideia foi transpor o protagonismo da comunidade escolar para o espaço instalativo.
_ Você desenvolveu esse trabalho a partir da sua experiência como professora. Como surgiu a ideia de que o seu trabalho enquanto professora poderia ser reconfigurado enquanto proposição artística?
O desejo de realizar um trabalho que fugia à programação da escola surgiu do incômodo gerado pela violência trazida através preconceito que as crianças daquela comunidade viviam. A falta de perspectiva dos estudantes, produzida por uma situação econômica desprivilegiada era potencializada pelo olhar externo daqueles que não conheciam de perto a comunidade. Os professores, apesar de fazerem um trabalho de muita qualidade, eram tidos como desqualificados por lecionarem em uma escola localizada no Sítio de Ferro. Eu, que não pertencia à comunidade mas pertencia à escola, percebia nas mídias locais de Niterói um movimento de marginalização de todos que pertenciam à comunidade. O achatamento da auto estima era a primeira conseqüência dessa violência indireta. Meninos e meninas cresciam com medo do mundo e com a convicção de que podiam muito pouco ou quase nada. Desta forma, o projeto foi criado a partir do desejo de estabelecer dinâmicas de escuta na escola e na comunidade com as quais fosse possível trocar e falar sobre experiências vividas naqueles espaços. Desde que foi criada, Sítio de Ferro é assolada pela violência causada por operações policiais frequentes que são “justificadas” pelo poder público como um combate ao tráfico e a venda de drogas. Hoje, a comunidade é estigmatizada pela violência. Os professores que são enviados para trabalhar na escola pedem transferência para outras unidades por medo, e os que trabalham na escola vivem amedrontados com o perigo iminente de tiroteios. Em meu primeiro projeto de escuta Qual o seu medo? desenvolvido entre 2007 a 2012, tive como matéria prima o secreto, o que não pode ser verbalizado, o temor, o que não é exposto com facilidade. No meu percurso foram surgindo, em projetos posteriores, a partir do desejo de aproximação com o interlocutor, questões como: desejo, verdades, derivas, encontros foram trazidas à tona. Desenvolvi ao longo desses anos uma pesquisa em torno das relações e das possibilidades de conexões com o outro. Apesar da atividade docente ter feito parte da minha trajetória durante quase todo o tempo do meu percurso artístico até então esses dois territórios ainda não haviam se encontrado. Ao conhecer a Comunidade do Sítio de Ferro, e a escola na qual lecionei, percebi o trabalho acontecendo na potência das discussões sobre o medo, na força de transformação que o espaço me propunha por sua própria natureza. Retornei, depois de anos, ao meu trabalho com o medo, agora sob um novo formato e modo de fazer. A experiência de pertencimento e não pertencimento àquele território, de ser estrangeira e ao mesmo tempo parte da história de cada criança me trazia um sentimento de deriva e suspensão, que me remetia a sensação de deriva vivida no projeto Escuta à Deriva. Acredito que tenha sido por isso que eu tenha trazido para “Não Ceder ao Medo” a bandeira como dispositivo de comunicação. Os elementos e métodos utilizados servem, na maioria das vezes, como contribuição para o projeto seguinte, a cada trabalho os objetos vão sendo ressignificados e reposicionados como uma grande costura. No projeto “Escuta à Deriva” a bandeira era produzida por mim posteriormente à escuta, como uma elaboração do que eu tinha vivido. Já no projeto “Não Ceder ao Medo”, a bandeira serviu como veículo para a fala, foram feitas por meus interlocutores que a produziam desenhos e palavras dando formas a seus medos e comunicando-os de forma lúdica.


_ Quando analisamos o “Não ceder ao medo”, é possível perceber as diversas materialidades que tomam conta do trabalho. Em algumas peças você trabalha com tecido e tinta, em outras com bordado, e diversas peças tem a participação de outros membros da sua comunidade na época, como crianças e outros membros do corpo de professores. Como foi elaborar esse grande projeto em grupo?
As professoras, em sua grande maioria mulheres, estavam constantemente amedrontadas com o apelo que o universo do tráfico de drogas exercia sobre as crianças, pois os alunos assistiam diariamente à rápida ascensão econômica dos jovens que trabalhavam nas bocas. As professoras respondiam a esse cenário, com seu trabalho na tentativa de educar e apontar novas perspectivas de construção de vida para os alunos. Porém, pude perceber no início de desenvolvimento do projeto Não Ceder Ao Medo um desânimo coletivo, o que é completamente compreensível devido ao contexto, e uma descrença na proposta do projeto. Inicialmente houve grande resistência, não declarada mas que era expressa a partir de ironia e deboches. Inicialmente, minhas colegas de trabalho acreditavam que o projeto era uma tentativa de transformar as condições sociais dos alunos e por isso, obviamente, ingênuo. Ao longo do tempo, no desenrolar do projeto puderam perceber, que o que eu propunha eram novas possibilidades de troca e de construção de diálogo com o entorno violento. Acredito que o entendimento do trabalho, pelas professoras da escola, se deu na experiência estética vivenciada. A produção poética do trabalho se deu nas dinâmicas de escuta que eram direcionadas na intenção de produzir um processo coletivo de apropriação e entendimento do lugar de fala a partir da fala do lugar, ou seja, a partir das questões sociais trazidas pelo espaço da escola inserida em uma comunidade violenta. Neste processo foi preciso abarcar toda, ou quase toda, a comunidade escolar. Para propor esse processo coletivo de entendimento do “lugar de fala” foi preciso uma auto análise minha, sobre qual era o meu lugar de fala naquele momento. Apesar de ocupar a mesma função docente das outras professoras e ser remunerada da mesma maneira, minha formação profissional e cultural era muito distinta das minhas colegas professoras: estudei em escolas particulares a vida toda, o que me levou – sem, dúvida, com mais facilidade – a uma formação universitária pública e de qualidade. Como elas observavam e verbalizavam, eu me comportava e pensava de maneira diferente. Questões de identidade foram trazidas à tona, mesmo sendo difícil localizar uma identidade fixa para mim naquele momento e naquele lugar. Ao mesmo tempo que minha fala, com “Não Ceder Ao Medo”, era feita de dentro daquele contexto de violência, minha bagagem de vida e história não é de um grupo desprivilegiado – sem entrar aqui na questão feminista, considerando que como mulher, pertenço a um grupo historicamente oprimido pela cultura hegemônica. Essa fragmentação da identidade é a essência da sociedade pós moderna. Há uma mudança estrutural que fragmenta a paisagem cultural de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade que no passado se localizavam de forma fixa nos indivíduos sociais e que hoje se localiza de forma híbrida. [1] Essas diferenças fazem refletir minhas condições de representatividade como professora naquela escola. Apesar de viver as conseqüências daquele entorno violento, e de me sentir marginalizada socialmente ,assim como todas as outras, não poderia e nem posso reivindicar esse lugar de protagonismo do professor da comunidade porque de fato, originalmente, não venho de uma comunidade. Porém, entendendo minha identidade como múltipla , sendo de uma classe privilegiada devido à minha formação mas trabalhando em uma atividade docente em uma escola pública de comunidade.

_ Além da parte artística do trabalho, quando observamos esse projeto vemos diversas frases marcantes, fruto da violência que habita o local e seus arredores. Uma das peças que mais me chamou atenção foi uma das “Bandeiras bordadas” com o símbolo de uma arma e a frase “tenho medo é de morrer”. Como você acredita que a arte possa trabalhar e causar impacto positivo nesses espaços?
Acredito que a responsabilidade da luta contra a violência e por um permanente estado de invenção de si, no meu caso buscando novas possibilidades de vida através da atividade poética, não seja apenas responsabilidade dos protagonistas desta luta. Durante todo o processo do trabalho eu percebia e escutava aquele espaço de forma diferente; percebi aquela escola com um espaço de natureza heterotópica, que agregava o que é considerado como desvio em uma sociedade tradicional. Aos meus olhos, o espaço da escola funcionava como um verdadeiro bunker de guerra que durante as intervenções militares abrigava as crianças da comunidade. Aquela escola, como instituição social que possui objetivos e metas, empregando e reelaborando os conhecimentos socialmente produzidos, era obrigada a se reinventar tendo em vista uma realidade violenta. Para construir um novo território afetivo poético, foi preciso ativar dispositivos que permitissem a fala e a escuta sem temor nem privações. Instalei na madrugada uma faixa com a frase “Não Ceder ao Medo” ao longo de toda a extensão das varandas da escola e pendurei uma bandeira branca com a mesma frase bordada. Ao retornarem para seu primeiro dia de trabalho, após as férias, professores encontravam esses dispositivos em seu espaço de trabalho. Ao longo deste dia, realizei uma oficina de História da Arte para os meus colegas professores, no qual trabalhei a potência revolucionária da arte em diferentes momentos históricos e contextos sociais. Posteriormente, no primeiro dia de aula das crianças, instalei uma urna transparente com a frase Qual o seu medo?. A mesma permaneceu durante alguns meses no pátio e foi acumulando respostas tanto dos alunos e professores, quanto da comunidade. Os alunos, envolvidos com o trabalho traziam de casa papéis com os medos de sua família. A urna havia sido utilizada anteriormente, em minha trajetória, para a coleta de depoimentos em alguns desdobramentos do Projeto de Escuta Qual o seu medo?. A intenção era uma aproximação com o público, abrindo um espaço para receber respostas relativas às perguntas (Qual o seu medo?) que eram pintadas por mim, nos muros da cidade, junto a um número telefônico. A pergunta convocava o passante a se questionar. O muro que é bloqueio, divisa entre o público e privado, foi anteriormente escolhido como suporte para a pergunta. O projeto realizado na Escola Prof. Horácio Pacheco teve como dispositivo inicial, ao invés de uma pergunta, uma convocação através da frase “Não Ceder ao Medo”. A partir da adesão dos alunos à ativação dos dispositivos e de rodas de conversa sobre os medos do grupo, propus que transformássemos nossa fala em imagem, e essa imagem em uma bandeira. Cada aluno criou sua bandeira para que posteriormente pudéssemos, todos juntos, fazer uma caminhada na comunidade em torno da escola com as mesmas. Ao longo de mais de seis meses, o projeto se desdobrou com as crianças: o desenho era feito pelos alunos com o lápis sobre o tecido e posteriormente bordado por eles. A lentidão da prática da costura e do bordado foi a tentativa de dilatação do tempo e elaboração psíquica do medo, em forma de brincadeira. Os instantes do bordado se tornaram o momento da escuta e do diálogo, no qual as crianças verbalizaram seus medos umas com as outras, e comigo. Na construção dos dispositivos individuais (bandeiras) com cada criança havia uma aproximação e construção de vínculo, não só entre mim e elas quanto entre elas, a fala espontânea sobre situações de violência era recorrente. Elas se escutavam enquanto bordavam, conversavam umas com as outras, brincavam e mostravam seu bordado para os colegas, em uma dinâmica orgânica a partir das demandas que surgiam entre elas. Eu observava a direção que estava sendo dada para o trabalho durante o processo e acompanhava o ritmo dos alunos. A atmosfera criada suspendia o tempo e entrecruzava passado e presente, transformando o ritmo cotidiano da sala de aula, que tradicionalmente é ditado por uma rotina, no ritmo particular da criação. Desta forma, era como se tivesse instituído um espaço heterotópico de criação. Assim como Hélio Oiticica, em “Não Ceder ao Medo” rejeitei a concepção de museu como instituição para credenciar um trabalho artístico na tentativa de ascender a uma esfera mais potente. “Não Ceder Ao Medo” está relacionado à liberdade, à transgressão, à alteridade e a tentativa de construção de diálogo potente. Acredito que a arte permite esta tentativa de reviramento, transformar o medo da violência em força. Na prática artística e na prática pedagógica não existe método certo ou errado, a escuta do saber do corpo é que vai indicar a direção que devemos tomar, talvez seja essa a maior herança que eu tenha recebido de Hélio Oiticica e Lygia Clark. Nosso corpo apreende com o vivido e indica as direções possíveis para a construção de novas práticas, basta escutá-lo.

_ É ainda estranho, e ao mesmo tempo, comum trabalhar o medo. Apesar de constituir nosso cotidiano, o medo é também um potente ativador de sentidos. Na psicologia, quando trabalhado o medo, algumas abordagens o verbalizam e externalizam, a fim de tratar a condição. Quando o trabalhamos na arte, surgem outras narrativas e materialidades possíveis. como foi trabalhar o medo com crianças?
Quando os alunos, crianças de seis a treze anos, bordaram seus medos, era muito comum surgiram nos desenhos medos relacionados à morte e a armas. A fala recorrente era o medo de perder a mãe em operações policiais, no percurso do trabalho para a casa, durante trocas de tiros entre policiais e traficantes. Ser violentado de alguma forma por outro ser humano era sempre uma possibilidade, o terror crescia na mesma proporção que os corpos das crianças. Penso que parte da estrutura psíquica daquelas crianças foi constituídas a partir das experiências de medo, amadurecer para elas era ter que lidar com aquela realidade sem o filtro da fantasia comum a infância. Durante os dois primeiros anos de escolaridade os alunos demonstravam grande carência afetiva, o que se transformava, nos anos seguinte, em uma postura que acabava por refletir na imagem professor.


_ Alguma motivação, em particular, fez com que o espaço escolhido para desenvolver o trabalho fosse o escolhido?
Em “Não Ceder Ao Medo”, escolhi a potência criativa da sala de aula de escolas e universidades em instituições públicas de ensino para construir dispositivos de escuta e construção de diálogo. A crise que é estabelecida não só pelos sistemas de governo, como também para as formas de relação entre pequenos grupos, propicia e convoca novas formas de construção de diálogo e novas formas de relação interpessoal. A repetição de padrões educacionais limita o potencial criativo daqueles que ocupam o espaço e que devem se apropriar do mesmo. O “campo de ilusão”, espaço psíquico de relação entre mim e o participante do projeto, é o lugar do contato de um com o outro, no qual surge a possibilidade de compartilhamento de subjetividades e construção de novas relações dentro de uma perspectiva de reconhecimento e respeito às diferenças. Esse campo de ilusão se dá no processo criativo, e no projeto em questão se deu no fazer das bandeiras, a dimensão do bordado está relacionada a tentativa de produção de sentido e à reconstrução de sí, a uma prática de afetos. O pensamento regido pelo saber estético transborda no processo artístico, desta forma pensar a relação entre arte e política é fundamental. Propus neste trabalho que, como uma criança, pulássemos o muro do medo que silencia a violência e produz a inércia. Para “Não Ceder ao Medo” levantamos nossa bandeira e mostramos nela o que é mais íntimo em nós, avançamos sem temer o porvir. A bandeira é uma afirmação da apropriação de um território e também de nós mesmos. Ao fincar nossas bandeiras acredito que resignificamos o espaço.
_ Você expôs alguns desses trabalhos no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, como foi a experiência de fazer parte desse espaço?
O H.O. foi escolhido por ter um caráter mais democrático como instituição, se é que isso é possível, se tratando de uma instituição…
A experiência foi muito boa e positiva, apesar da precariedade e falta de verbas que o espaço vem enfrentando. Acredito que a exposição de “Não Ceder ao Medo” não seja como uma conseqüência da escrita desta dissertação, e sim uma extensão plástica poética da mesma. Na intenção de alargar e dar continuidade à proposição poética que se expande da comunidade do Sítio de Ferro para o mundo, com o desejo de democratizar, compartilhar e comunicar. Por outro lado, estou certa de que a construção das práticas na escola, tanto quanto o processo de transposição para o espaço instalativo, foram incentivados e trazem influências das reflexões produzidas pela escrita e no processo de pesquisa da presente dissertação.

_ Elisa, quando penso no “Projeto Não Ceder ao Medo” penso também no deslocamento das peças e o que esse deslocamento pode realizar a obra. O trabalho é configurado e desenvolvido num espaço muito específico, com um contexto também específico. Quando posicionado em outro ambiente, é passível de diferente leitura. Como você enxerga o deslocamento dessa obra?
A tentativa de construção de um diálogo com a comunidade escolar, principalmente com os alunos, teve como questão central refletir sobre a problemática da conexão com o outro nos espaços de violência social. Foi fundamental para esse trabalho investigar de que forma essa conexão se dá, na relação das crianças, entre elas e com os adultos da comunidade escolar, e de que maneira o medo dificulta a criação de laços afetivos. O reconhecimento da Escola Municipal como um espaço heterotópico se deu a partir dos estudos do conceito de Foucault sobre territórios que permitem a desaceleração do ritmo social cotidiano e que, por isso, possibilitam quem o habita alterar a significação do espaço. As investigações das práticas artísticas de Lygia Clark e Hélio Oiticica, artistas que são minhas referências no campo da arte, me trouxeram maior consciência do meu campo poético e dos elementos que estão em cena no meu trabalho. Ambos, como já dito anteriormente, entendiam o mundo como espaço para possibilidade de invenção e criação artística, o trabalho não dependia e nem estava inscrito em um ambiente de arte institucionalizado, pelo contrário, eram em outros espaços que eles encontraram potência para novas produções. Durante a produção das bandeiras, no processo de escuta do projeto, ficou claro para mim que cada bandeira era uma ferramenta de comunicação e denúncia. Em 2016-2017, quando se deu o trabalho na escola, pouco se falava da violência das intervenções militares dentro das comunidades do ponto de vista das crianças. A invisibilidade sofrida pela comunidade me incomodava muito, para mim era inaceitável invisibilizar crianças. A exposição surgiu deste movimento de denúncia… O deslocamento de qualquer obra e objeto artístico de sua origem traz novos camadas de significado, ampliando as possibilidades de novas leituras…levanta novas questões e dúvidas, acho natural e produtivo tanto para a obra quanto para o público.
_ As crianças e professoras que participaram do projeto visitaram a exposição? Como foi essa dinâmica?
Infelizmente não. Um dos meus objetivos era eles estarem lá e participarem de tudo isso. Minha exposição abriu em dezembro e fechou em janeiro, foi curta em período de férias. A escola não conseguiu transporte para as crianças e nem autorização das famílias. O convite foi feito e eu queria muito que todos tivessem participado, visto seus nomes como co autores na exposição e seus trabalhos…mas não foi possível. Na abertura tive a presença da coordenadora pedagógica da escola na época que fortalecia e acreditava no trabalho.

_ Um dos seus trabalhos, “Projeto EuVocê” consiste numa performance baseada no encontro. Você pode comentar um pouco sobre esse trabalho?
Esse trabalho consiste na construção de lugares/acontecimentos entre o eu e o outro a partir das condições que a linguagem verbal e não verbal podem trazer para a tentativa de comunicação. O trabalho se dá no diálogo, na experiência de se permitir escutar e sentir o que está para além do “eu” – para além da individualidade do participante e da minha própria individualidade – como se fosse possível uma diluição das fronteiras. No projeto EuVocê – Agenda para marcação de encontros, o objeto deixado no espaço expositivo servia para que o público marcasse um encontro comigo, escolhendo local e horário. Desta forma a agenda é considerada, por mim, um dispositivo para a construção do campo relacional que pode acontecer apenas na agenda, mas também fora dela, no encontro presencial. Em minha pesquisa investigo todas as nuances que podem surgir na tentativa de comunicação que se expande para além da verbalização, produzindo uma comunicação que é ativada por todo o corpo de forma integral e complexa. Para isso, os ambientes de escuta são construídos como uma “casa”, com o objetivo de ativar o campo relacional. No início de 2015, iniciei o projeto EuVocê- Agenda para marcação de encontros, trabalho que ainda está em processo. O trabalho aconteceu em dois momentos: o primeiro na Galeria do Lago, localizada no Museu da República, durante uma exposição coletiva e o segundo no Centro Cultural da Caixa, no Centro do Rio de Janeiro, também em uma exposição coletiva.Neste projeto disponibilizei um caderno com datas em que eu ficava totalmente disponível para encontros reais. O público da exposição podia escolher um dia na agenda e escrever o local, o horário e uma atividade que desejasse fazer junto comigo. Os encontros marcados ainda estão em processo, muitas pessoas criaram no caderno dias inexistentes, deixando seus contatos para que combinássemos o encontro/escuta. Nesse projeto o propositor da ação é o participante do projeto. É ele quem escolhe quando, onde e como se dará o encontro/escuta, porém a ação se dá a partir de um acordo entre mim e meu possível interlocutor, durante o encontro, para que a relação não seja abusiva. Entendo neste processo a escuta como um lugar de liberdade, que é criado no tensionamento do desejo do outro com o meu desejo.

_ Como foram as experiências geradas por essa proposta?
Durante quatro meses realizei os encontros de forma ininterrupta, nos dias e horários marcados – eram muitos agendamentos. Os participantes que deixavam e-mail ou telefone eram contatados para possíveis reagendamentos, quando havia uma impossibilidade minha. Muitos agendamentos foram feitos em páginas extras do caderno, o participante não marcava dia e nem hora, apenas deixava seu contato, alguns eram legíveis outros não. A quantidade de propostas era gigantesca e eu me vi em grande dificuldade de cumprir toda a demanda, o que provocou muita tensão em ter que “dar conta” de todos. Obviamente encontrar todos no período que eu havia me proposto se tornou impossível e me dei conta de que a agenda é um projeto para a vida toda, um trabalho em processo. Os encontros demandam muita energia, havia tensão e medo diante o desconhecido. As propostas eram variadas: jantares com famílias, trilhas na mata, cafés, encontros domiciliares, caminhadas em dias de chuva, encontros para discussão de projetos, fumar na Pedra da Gávea, shows, encontro no aeroporto antes de uma viagem para Cuba, convite para chorar junto, tomar um chá, entre outros. Os encontros que mais me assustavam eram os domiciliares, pois a possibilidade de uma situação violenta acontecer em espaços privados era maior. O primeiro aconteceu no Morro do Pinto, quando um casal me convidou para almoçar com eles. Na agenda eles escreveram que queriam cozinhar comida mexicana e que “esperavam que eu gostasse”. Era o primeiro dia da agenda, fui ao encontro do casal em uma pequena casa de dois cômodos no alto do morro, levei comigo a câmera e deixei com amigos o endereço de onde eu estava, para o caso de eu não retornar no fim da tarde. O encontro durou cinco horas e o casal, um mexicano e uma inglesa, me contaram sua história de amor, como haviam se conhecido e porque estavam viajando de bicicleta há dois anos pelo mundo. Durante as escutas, eu me colocava disponível para ouvir e vivenciar o que era proposto. Eu tentava em todos os encontros manter a atenção flutuante, como em alguns trabalhos anteriores, porém a natureza da proposta do projeto me colocava em grande instabilidade emocional, o que dificultava o distanciamento do participante. Muitas histórias me foram contadas, cada pessoa um universo, um mundo denso com diferentes demandas, desejos e angústias. Inicialmente eu levava câmera para gravar e fotografar os encontros, mas após os primeiros entendi que as imagens fotográficas e o som não dariam conta da experiência, de modo que deixei de me interessar em registrá-los. As experiências vividas neste trabalho não são relatáveis, a dimensão do encontro está na memória do que aconteceu comigo e com quem compartilhei parte da minha vida/trabalho.

_ Elisa, todo e qualquer tipo de experiência tem a possibilidade modificar nossa existência e a forma como percebemos a realidade. Enquanto artista e indivíduo, você trabalha através de experiências potentes, e que de certa forma modificaram sua percepção da realidade. Para finalizar a entrevista, como você acredita que foi afetada por todas essas vivências? Você acredita que as experiências enfrentadas nesses trabalhos tenham vindo a se desdobrar e existir em outros trabalhos seus?
Minha vida e meu trabalho de arte são uma mesma coisa, não estão dissociados. Os desdobramentos dos projetos de escuta se dão sempre como consequencia dos anteriores, no sentido de buscar maior intensidade de interlocução.
[1]HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006, p.30



EXPOSIÇÕES
- 42o Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba – SP- 2011
- Galeria Progetti – Exposição Coletiva – RJ – 2011
- Institut Valencià d’Art Modern – Valencia, Espanha – 2011
- 29o Salão Arte Pará – PA – 2010
- Salão Novíssimos – Galeria IBEU – RJ – 2010
- Experimentações – Galeria Progetti – RJ – 2010
- Bienal de SIART – Bolívia – 2009
- 7a Bienal do Mercosul: Grito e Escuta – Porto Alegre – 2009
- Ateliê Vila São Longuinhos – Museu Murillo La Greca – Recife – 2009
- São Paulo Linha Líquida – Galeria Marta Traba (Memorial da América Latina 2009)
- Arquivos do Presente – Museu da Maré – Prêmio ”Interações Urbanas em Pontos de Cultura 2009 RJ
- Abre Alas – Galeria A Gentil Carioca, 2009 – RJ
- Toque – Museu Bispo do Rosário, 2008 – RJ
- NAU – Instituto de Arquitetos do Brasil, 2008 – RJ
- Cine MAC – MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói), 2008 – RJ
- Participação no Projeto “The Flash” – Tete Alencar (Espaço The Light 2008 Londres, UK )
- Arte e Patrimônio – Iphan – Paço Imperial (Iphan), 2008 – RJ
- Morro da Conceição – Intervenções Urbanas (Iphan – Galeria Gentil Carioca 2012 RJ)
- Linhas Entrecruzadas (Espaço Cultural CBF), 2008 RJ / Porto Alegre
- O Estado das Coisas (Escola de Artes Visuais do Parque Lage), 2007 – RJ
- Salão de Arte Pará (artista convidada), 2007 – PA
- Associados (Espaço Orlândia), 2007 – RJ
- Desde Rio (Galeria Belleza e Felicidad), 2007 – Buenos Aires, Argentina
- Chave Mestra (Santa Teresa de Portas Abertas), 2007 – RJ
- Conexões Urbanas (Centro Cultural Calouste Gulbenkian), 2005 – RJ
- Posição 2004 (Escola de Artes Visuais do Parque Lage), 2004 – RJ
- Meio Contemporâneo; Variações do mesmo Tempo (Castelinho do Flamengo 2005)
- Mulheres Artistas (Centro Cultural Calouste Gulbenkian), 2004 – RJ
- Experimentações Pictóricas (Museu Nacional de Belas Artes), 2003 – RJ
- Poéticas do Campo Visual – Mostra de Arte (Centro Cultural de Artes Uerj 2002)
Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte, UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.