Entrevista Mulambö

OLO, 2017_
Olo, 2017

Mini bio

Placas vermelhas e pretas são um alerta.

Na praia, elas são um aviso de que entrar no mar é perigoso.

 Na arte, nós somos o mar.

Nasci João em 1995 e foi na Praia da Vila, em Saquarema, que nasceu Mulambö. E nasceu da necessidade de encontrar um lugar. Um lugar onde se anda descalço e uma arte com os pés no chão, porque não tem museu no mundo como a casa da nossa vó. Por isso, falo de gente como eu, usando o  que encontro nos lugares onde vivo. Mas, na verdade, eu queria mesmo era ser jogador de futebol e antes de ser artista ou qualquer coisa do tipo, sou filho, neto, irmão, padrinho e cabeça de área. Insta // Site do Artista

Na guerra, cupido vira caçador, 2017_
Na guerra cupido vira caçador, 2017

_ Mulambo, queria começar a entrevista comentando que conheci seu trabalho recentemente e fiquei completamente embasbacada com tudo que vi. Vi no seu trabalho uma grande potência estética e uma enorme capacidade de diálogo, e uma poética gigantesca. Você é de Saquarema e na sua bio você comenta que “na Praia da Vila, em Saquarema, que nasceu Mulambö” como foi isso?

Eu cresci e continuo crescendo na Praia da Vila, é a praia de onde minha família se constrói e foi lá que quando eu começo essa minha prática artística, assumo esse nome Mulambö e me sinto seguro para experimentar. Então, meu trabalho nasce na Praia da Vila não apenas pelo fato de eu ser de lá, mas também porque foi lá, com pixações e intervenções na praia, nos muros do canto da vila que eu começo o que se transformaria no meu processo artístico.

_ Como foram essas primeiras intervenções na praia?

Foram uma espécie de pixações, visualmente falando. Era minha forma de remarcar minha posição no lugar de onde eu vinha e tava me sentindo afastado. Fazia intervenções em cantos assim, no chão de lugares que passava muito tempo. Era uma ação bem pessoal de afirmar pra mim mesmo que estava ali de novo.

_ Durante uma conversa recente de galeria que tive com você, você também comentou sobre ser flamenguista e a ligação do time com seu trabalho. Inclusive sobre a ligação histórica do termo ‘Mulambo” com o time e seu trabalho. Você pode falar um pouco sobre isso?

Eu queria ser jogador de futebol, treinava mesmo em times até os 15, 16 anos então o esporte é uma coisa muito presente na minha construção como ser humano. Aprendi muito com o futebol que é um fato social que pode explicar muita coisa da nossa vida. O Flamengo aparece com essa potência também, toda a história de ser um time de massa com uma torcida gigante nos mais distantes cantos do Brasil e toda a história de como a torcida rubro-negra se apropria de termos que eram utilizados como xingamentos muitas vezes racistas contra ela. Mulambo, favela, urubu são palavras que a torcida rubro-negra se apropria e começa a gritar em plenos pulmões e se orgulhar. Essa resistência popular de tomar conta de termos e tudo mais se relaciona diretamente com meu trabalho que além das palavras, também me aproprio de materiais descartados e vistos como lixo. Meu processo é muito sobre restituição, retomada e resistência. É transformar um papelão num trabalho sem esconder que aquilo é um papelão, por exemplo.

Não tem museu no mundo como a casa da nossa avó, 2019_
Não tem museu no mundo como a casa da nossa vó, 2019

_ Durante essa mesma conversa você fala sobre o “Não tem museu no mundo como a casa da nossa vó”. De onde surge isso?

Surge da minha necessidade de estar sempre firmando meu pé no lugar de onde eu venho, entender que estamos aqui porque antes muita gente esteve e se a gente resistir e continuar estando, muita gente vai poder estar. Valorizar a casa da nossa vó, é valorizar todo esse trajeto e essa ancestralidade que nos constrói. É um lugar de aprendizado e de construção contínua.

Seleção, 2018_
Seleção, 2018

_ Num dos seus trabalhos, “Seleção” você expõe visualmente silhuetas de parte de um time de futebol com tags no rosto, esse trabalho parte de uma vivência pessoal. Você pode comentar um pouco mais sobre ele?

Esse trabalho surge após a morte de um dos meus antigos companheiros de time que tinha caído no tráfico. Começo a pensar sobre esses caminhos que traçamos e na força que é me assumir artista nesse contexto. Meu trabalho é muito sobre representatividade e identificação, então tratar de situações como essa é uma forma de aproximar pessoas com a origem parecida com a minha e fazer com que se relacionem com o trabalho porque temos uma dificuldade de penetrar nos espaços de arte por uma espécie de barreira que é construída institucionalmente há séculos. Buscamos outros diálogos, outras conversas que as instituições poucas vezes nos oferecem e ainda por cima nos fazem sentir mal por não se conectar com trabalhos que buscam uma pesquisa muito distante da nossa vivência. Então, explorar temas assim é uma força, porque quando se é periférico, ser autobiográfico é uma forma de resistência.

_ Quando você comenta sobre quebrar a barreira do espaço de arte, é possível ver isso de forma muito clara no seu trabalho. Quando olho pras suas pinturas em madeira ou papelão, que não escondem ser madeira ou papelão, vejo como isso possibilita a inserção e outros diálogos dentro da arte. Quando vejo seu trabalho consigo enxergar quem fez, e também consigo perceber em quem esse trabalho pretende chegar. A gente, e a sociedade no geral, ainda possui uma visão muito elitista de arte, onde é muito clara a separação entre os espaços e quem “pode” ou frequentar tais espaços. Vejo uma política de diálogo muito forte no seu trabalho, principalmente quando se trata de não só retratar as pessoas que fazem parte daquilo, como também precisam, de certa forma, saber que esse espaço também pertence à elas. Você pensa na dimensão política do seu trabalho? Enquanto essa proposta artística tem uma possibilidade de realmente conseguir quebrar com certas barreiras que vemos ainda hoje dentro do circuito e dos espaços de arte?

Meu trabalho é todo político. A dimensão política é o que me alimenta. Eu acredito muito em uma construção alternativa de possibilidades e criação de espaços não hegemônicos. Meu sonho é abrir um centro cultural em Saquarema para poder debater não só os trabalhos de artista tal, mas de ajudar através da arte uma criança na escola. Porque a arte para mim está abrindo caminhos que nunca imaginaria e olha que ainda é muito pouco, então tenho vontade de retribuir de alguma forma que é um sentimento que vejo em muita gente que faz arte vindo de uma origem periférica, fico feliz por isso. Quero através do meu trabalho abrir novos caminhos e por isso, a construção de novos espaços de arte e cultura são imprescindíveis, pois por mais que a gente consiga entrar nos espaços hegemônicos e tudo mais eles serão ainda estruturas e lógicas muitas vezes colonizadoras e falam com a gente através de uma tradução, um ajuste para nossa realidade. Ter espaços de cultura que não precisam ser traduzidos, que se conectem de fato com a  gente é importante e pra mim, é onde vira a chavinha da relação da arte com a galera.

Série Armas_ Altinha, 2019
Série armas, altinha, 2019

_ Mulambo,  quase todos, senão todos, os seus trabalhos também estão disponibilizados  no instagram. Como é essa relação pra você?

A internet pra mim é uma plataforma de trabalho e não somente uma ferramenta de divulgação. Eu vejo o instagram, por exemplo, como uma possibilidade mais democrática de exposição do meu trabalho e entendo que minhas paradas funcionam lá. É a possibilidade de mostrar meu trabalho para quem tá em Saquarema ou em São Gonçalo ou em Alter do Chão no Pará ao mesmo tempo. A lógica mais dinâmica e efêmera que a internet possui é uma coisa que para a arte contemporânea ainda é um campo de experimentação, estamos começando a entender aquilo como uma plataforma potente de trabalho mesmo, então eu quero explorar o máximo. Quem acompanha meu trabalho vai poder sacar pelo instagram o que eu faço, porque ali também é um dispositivo expositivo e inclusive penso trabalhos para a internet. As intervenções em fotos que faço, por exemplo, são para a internet e quando elas vão para a galeria é uma tradução de uma linguagem digital para o material, mas são trabalhos pensados para a internet, para essa velocidade. Então a internet é muito importante para tudo que faço, até porque foi a partir dela que as exposições e tudo mais apareceram.

Panela 3
Panela, 2019

_ Você recentemente realizou duas exposições individuais, uma delas no MAR, intitulada TUDO NOSSO. Como foi esse processo pra você? De onde surgiu o nome?

Foi uma doideira pura. Do convite do Marcelo Campos até a abertura foram mais ou menos 20 dias e mesmo assim conseguimos fazer dar certo. O fato da minha produção pensar a internet como plataforma me salvou, e por que eu já tinha muito trabalho pronto e sem destino, pois tinham virado postagens e estavam entulhados no meu quarto. Mostrei tudo que tinha para o time curatorial e pensamos a exposição. A forma como fui recebido pela equipe do MAR foi fundamental também para esse processo, fui muito bem acolhido e aprendi bastante com todo mundo e serei eternamente grato a todos pela oportunidade.

Conseguimos fazer uma exposição muito pessoal e até minha prancha de surfe que pintei com minha afilhada está lá suja de parafina ainda na parede do Museu de Arte do Rio. Confesso que nunca imaginei que ela seria exposta um dia e foi um pedido do museu, eles me pediram para levar. Aprendi muito sobre meu próprio trabalho nesse processo e entendo a exposição como um primeiro disco que foi produzido durante minha vida toda.

O nome surge justamente da possibilidade de estar inaugurando um novo espaço expositivo no museu que estará mais atento a produção atual no cenário da arte do RJ. TUDO NOSSO é sobre isso, é sobre estarmos chegando fazendo um barulho tão grande que as instituições não vão conseguir evitar a gente mais. É, de fato, tudo nosso.

Arte preta tipo exportação, 2018.
Arte preta tipo exportação, 2018

_ A outra exposição rolou no Centro de Artes UFF, a RESERVADO PARA PIXADOR AMADOR. Além de serem trabalhos diferentes expostos, houveram grandes diferenças entre expor em um espaço e no outro?

Completamente. Eu ocupei o Centro de Artes da UFF com essa individual junto com a exposição Corpura da Carla Santana, Mateus Almeida e Thomas Mariano que são grandes amigos e ocuparam o espaço de fotografia ao lado da galeria. Pensamos, portanto, na potência em ocupar aquele espaço com esses dois projetos, por ser a primeira vez que o lugar é completamente ocupado por artistas negros que moram em Niterói e São Gonçalo. Fizemos uma abertura histórica com show do Joca, batemos recorde de visitação mas o Centro de Artes passa por um momento complicadíssimo, então a forma como fomos recebidos foi mais fria e acho que eles poderiam ter aproveitado melhor nossa ocupação, mas tem muito interesse envolvido ainda mais em momentos de desmonte da cultura.

A exposição era muito mais densa e pesada do que a TUDO NOSSO, tratava sobre violências e foi toda produzida em 20 dias que foi a diferença entre a abertura do MAR e a abertura da UFF, já que todos os trabalhos entulhados no meu quarto que foram para Rio iriam para a UFF pois essa já estava marcada há mais tempo, então eu tive que repensar a expo inteira e produzir novos trabalhos num ritmo alucinado, foi doideira pura. Inclusive essa loucura só foi possível por conta da ajuda que recebi da minha namorada, Ana Bia, uma artista incrível que me fortaleceu em todas as etapas da produção, sem ela não teria acontecido.

Série Armas_ Tudo Nosso, 2019
Série armas, tudo nosso, 2019

_ Ainda sobre a RESERVADO PARA PIXADOR AMADOR, e a questão dos trabalhos, você pode comentar um pouco mais sobre os trabalhos expostos lá? Como foi essa experiência de pensar outros trabalhos num ritmo e tempo tão curto?

Na RESERVADO eu falava sobre potências, sobre força. O título vem disso, é uma forma de evitar a pixação, que no contexto da cidade é uma presença muito forte e tem uma força incrível. Mas, a exposição falava sobre a infância, sobre a violência policial, sobre diáspora, sobre esses movimentos sobre essas formas de amplificar ou contar forças. Era mais pesada e foi minha primeira experiência com objetos que é um campo que me interessa muito. Pensar o objeto como pintura também.

_ Na conversa que tive com você no MAR, Você também comentou que levou sua família na abertura da TUDO NOSSO, eles também visitaram a RESERVADO PARA PIXADOR AMADOR, como foi isso?

Eu faço tudo pra minha família, quando afirmo que não tem museu no mundo com a casa da nossa vó na TUDO NOSSO é disso que estou falando. Trabalhar pra orgulhar minha família, pra falar que venho de Saquarema e é pra lá que meu trabalho sempre me leva. Minha vó depois que foi na exposição do MAR me abraçou e disse ‘agora meu netinho é artista!’ e se ela disse que eu sou artista ninguém mais me tira esse título.

Queria um pincel, ganhei uma vassoura. 2018
Queria um pincel, ganhei uma vassoura, 2018

_ Outro trabalho seu que muito me chama atenção, é o Queria um pincel, ganhei uma vassoura, quando vi esse trabalho exposto pela primeira vez no MAR pensei na questão expográfica e na localização do trabalho. Ele se encontrava quase escondido entre todos os outros. A primeira vista achei bastante estranho o trabalho se localizar numa quina, quase escondido. Depois de pesquisar mais e ouvir você falando sobre o trabalho, me vieram diversas coisas. E novamente a questão apareceu a questão de quem “pode” visitar espaços de arte, e quem “pode” estar presente nesses espaços. Eu conheço o trabalho mas gostaria que você mesmo falasse sobre ele, e gostaria também de perguntar se a questão do trabalho existir quase escondido na exposição, como se não pertencesse àquele lugar te traz ou trouxe alguma coisa.

Esse trabalho é sobre transformar as adversidades em força e é o único trabalho que levo para onde for, é minha assinatura, é o que faço como artista.

O trabalho está escondido ali por ele ter sobrado quando fizemos a expografia da exposição com a equipe do museu, mas por ele ser o que mais define o que eu faço, eu firmei o pé e consegui colocar ele no último momento. Isso é simbólico demais, o fato de logo ela estar escondida ali só agrega sentido ao trabalho, pois nitidamente quem tem que entender aquele trabalho entende e quem não tem essa experiência de ser historicamente relacionado a trabalhos de submissão passa batido. muitas vezes. Se tudo e todos dizem que nossas mãos estão mais para carregar uma vassoura do que um pincel, vamos transformar essa vassoura e te atacar com meus muitos séculos de resistência porque, repito, é tudo nosso.

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Rajada de fé, 2019
Salve, 2017_
Salve, 2017

EXPOSIÇÕES

INDIVIDUAIS: 

TUDO NOSSO – Museu de Arte do Rio – Rio de Janeiro / 2019

RESERVADO PARA PIXADOR AMADOR – Centro de Artes UFF -Niterói, RJ / 2019

COLETIVAS:

​O Grito – Espaço Pence – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Inundação – Museu Casa do Pontal – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Andando na história do meu povo – Galeria Gustavo Schnoor / UERJ – Rio de Janeiro, RJ / 2019

​Galáxias – Centro de Artes UFF – Niterói, RJ / 2019

Tipo.Coletivo – Tipo.Grafia – Rio de Janeiro, RJ / 2019

​Corpos-Cidades – Espaço Pence – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Caminhos de OGUM: estética e identidade no subúrbio – SESC Madureira – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Corpos no Mundo – Centro Cultural Paschoal Carlos Magno – Niterói, RJ / 2019

​Rastros – Orgâni.Co Atelier – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Impávido Colosso – Espaço A MESA – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Graffinikiti – SESC Niterói – Niterói, RJ / 2019

II PEGA – Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica – Rio de Janeiro / 2018

In.Corpo.Rar – Centro de Artes da UFF – Niterói, RJ / 2018

​Honoring Our Ancestors by Fighting for the Future: DOD Unveiling

SOMArts Cultural Center – São Francisco, Califórnia, EUA / 2018

ENCRUZILHADAS: segundo ato – Galpão Bela Maré – Rio de Janeiro / 2018

Projetos e Eventos

Niterói: Ícones, referências e estilos da cidade – Fundação de Arte de Niterói – Niterói, RJ/ 2017    

​Invasão Sonora: Baile da UG #4 – Teatro Popular Oscar Niemeyer – Niterói, RJ / 2017    

Black In Museu – Museu do Ingá – Niterói, RJ / 2017

Festival Epiphania – Epiphania Produções – Saquarema,RJ / 2017

4º Rap School – Morro do Estado – Niterói,RJ / 2017

MutiraCopa Estadão Rap School + Conexão Favela e Arte / Morro do Estado – Niterói, RJ / 2018

O Protagonismo NEGRO nas Artes – SESC Niterói – Niterói, RJ / 2019

​11ª Bienal da UNE 2019 União Nacional dos Estudantes- Salvador, BA / 2019

​Semana Cultural Afro-referenciada – E.M.A.C. Mário Paulo de Brito – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Urban Art – Universidade Estácio – Niterói, RJ / 2019

Don’t Hit a La Negra – Esoa La Dragona – Madri, Espanha / 2019

Bananeira, será? – Orgâni.co atelier – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Miccroutopias – Feira de Arte Impreso de Montevideo – Centro Cultural de España – Montevidéu, Uruguai / 2019

​18ª Feira Crespa – Viva a arte marginal! – Museu da Imagem e Som – Rio de Janeiro, RJ / 2019

​Com a palavra… – CCBB – Rio de Janeiro, RJ / 2019

Design sem nome

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte, UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.