
RONA é um artista autodidata, nascido e criado no Morro dos Pretos Forros, zona norte do Rio de Janeiro. Desenha, escreve e dança desde menino e sonhava em ser bailarino. Conheceu o teatro aos 15 anos de idade num curso Livre no Liceu de Artes e Ofício. Começou a pintar aos 18. Sem formação acadêmica, Rona vem se formando, e se permitindo a tudo como para auxiliar sua Arte. Sua maior escola foram os 10 anos trabalhando como cartazista/letrista para vários Teatro do Rio de Janeiro e depois trabalhou 4 anos como pintor de parede. Fez 4 anos de Dança Afro entre 1990 e 1994 e em 2001 ganhou o prêmio de Melhor roteirista na mostra de Cinema Universitário no CCBB e de melhor documentário com o curta SENHORAS. Também ganhou prêmios enquanto roteirista, cenógrafo e figurinista. Rona também atua como Diretor de Arte, tendo feito vários trabalhos para clipes, fotos e peças de Teatro. Em Outubro de 2019 fez uma individual no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, intitulada NÓDOA. Instagram / Página no Facebook

_ Rona, você começou sua carreira há muitos anos, e também é autodidata, como foi tudo isso pra você no começo?
Minha trajetória começa na infância. Inventando histórias, criando meus brinquedos, desenhando em papel de pão e chão de barro, criando minha dança, subindo e descendo o morro com um lençol amarrado no pescoço como se fosse uma asa ou uma capa! Cercado de Habilidades manuais… Minha avó Elzira era costureira das boas, minha mãe Maria, além de confeccionar nossas roupas, fazia bordados belíssimos, meu bisavó, Eugenio, criava brinquedos para os bisnetos e meu pai, Dinart, que era um excelente eletricista, a cada Natal criava uma Árvore nova, feita de galho seco, varetas de guarda chuva, tubo de PVC. Tudo isso me inspirou, aprendi com eles a criar, a tornar possível as idéias entre os 7 e 8 anos. Esse começo me deu liberdade de experimentar. E continuo experimentando…

_ Você inicialmente conta que seu desejo inicial era ser bailarino. Sua produção engloba diversas materialidades, você chegou a trabalhar como bailarino durante sua carreira enquanto artista?
Nunca atuei como bailarino, mas adoro dançar! Uso meu corpo como ferramenta para meus experimentos com performances e as peças que escrevo. Quando menino, aos 11 anos de idade frequentava um baile Matinê no Clube Mackenzie, no Méier, aos domingos com amigos. E lá ganhei meu primeiro prêmio como dançarino ao som de Donna Summer. Em 1992 me matriculei numa aula livre de Dança Afro Primitivo na Escola de Dança Maria Olenewa e lá fiquei por 4 anos, e frequentava os ensaios da Cia de Dança Afro do Rio de Janeiro, onde tive as primeiras experiências com produção, cenário e figurino.

_ Você conheceu o teatro aos 15 anos, como foi esse processo?
Entrei num curso livre de teatro aos 15 anos de idade, no Liceu de Artes e Ofício, na Praça Onze. Levado por minha própria vontade. Conheci um teatro de verdade aos 13 anos, trabalhando como faxineiro em meio expediente. Entrei para limpar, sozinho, fui acendendo as luzes e tudo foi se revelando, fiquei num outro estado, sei lá… Subi o palco, olhei a plateia, um vazio, mas com presença. Atravessei a coxia, me pareceu um portal, e foi. Peguei as chaves e quando abri o primeiro camarim, uma arara cheia de roupas, sapatos, maquiagem… Era tudo mágico. Lembrei da Folia de Reis da minha Comunidade, das roupas feitas por minha mãe, das histórias que eu inventava, do meu corpo buscando se expressar… Foi de verdade um momento marcante na minha vida.

_ Rona, você também passou 10 anos trabalhando como cartazista/letrista, é bastante tempo. Isso deve ter modificado bastante sua experiência enquanto artista. Você pode comentar sobre esse período da sua vida?
Mais uma vez, o teatro em minha vida! Foi um período fértil de aprendizados e mudanças. Saí do Morro para uma kitnet micro em Botafogo, onde montei meu ateliê para ficar mais perto dos Teatro que se concentravam no Centro e Zona Sul. Trabalhava muito. De domingo a domingo as vezes. Começou por acaso, fui convidado para fazer um letreiro para o antigo Teatro Villa-Lobos para um festival de dança aos 26 anos de idade e nem sabia como faria e muito menos que material usar! No dia que fui à reunião, tinha um cara instalando um letreiro na rua, no mesmo teatro, parei e pedi a ele umas dicas, ele me falou que material deveria usar e me convidou para ir a seu ateliê. Eu nem sabia, mas esse era O CARA dos letreiros entre outros feras. Fui à reunião, fechei o trabalho seguindo as dicas dele e no dia seguinte fui ao seu ateliê na Lapa. Me tornei assistente dele e em um mês esse cara me passou vários trabalhos e ótimos contatos com total confiança em mim. Meu grande amigo e Mestre Ruço. Durante essa época trabalhava num restaurante, pedi demissão e caí dentro. Pintava letreiros de 3,4,5,10 metros, fiz isso em quase todos os teatros do Rio de Janeiro, tudo pintado a mão. Letras, desenhos, logomarcas, ficha técnica, tudo!! Depois montava os chassis, esticava o letreiro e colocava no alto do teatro. Teatro Vannuci, Clara Nunes, Thereza Rachel, Gávea, Barra Shopping, Galeria, Teatro da Praia, Posto Seis, Delfim, Villa Lobos, Princesa Isabel, Bibi Ferreira, Ipanema, Cândido Mendes, Leblon, Café Pequeno, Laura Alvim, Imperator, Sesc Tijuca, entre outros, via ensaios, testes de luz, produção, figurinos, cenários… Respeito todos que trabalham com teatro. Me sinto triste hoje passando por alguns fechados, abandonados ou transformados em Templos de Igrejas… TRISTE DEMAIS!

_ Além disso, você também trabalhou com várias outras coisas fora do circuito de artes. Você quer falar sobre isso?
Tudo o que fiz fora do circuito sempre enriqueceu muito meu olhar, sentidos e experiências. Sempre trabalhei desde menino, sempre gostei de ser Independente! Aos 11 anos trançava pulseiras de palha com búzios e vendia para amigos de escola, aprendi com minha mãe, depois varria quintais no Méier, juntava minha grana e comprava papel, tinta, lápis… Trabalhei como office boy, faxineiro, ajudante de mudança, garçom, ajudante de cozinha e pintor de paredes onde atuei por quase 5 anos. Adorava e nunca me afastei da Arte, durante todo esse período sempre escrevi, desenhei, rabiscava projetos, precisava me esvaziar de tantas ideias!!! Tudo, tudo o que aprendi nesses trabalhos auxiliam minha carreira e vida pessoal. Meus aprendizados foram por outros meios. Vi muitas instalações boas durante mudanças, obras, texturas incríveis em paredes que eu lixava, força física e coreografias em minhas performances como ajudante de pedreiro, (risos). Não perdi nada. Tudo me formou!
_ Em 2001, você ganhou um prêmio de melhor roteirista na mostra de cinema universitário pelo pelo CCBB com o curta SENHORAS. Você pode falar sobre o curta? O CCBB é uma das maiores instituições culturais do Rio de Janeiro como foi ter ganho esse prêmio pra você?
Durante o período que morei em Botafogo, no meu andar, a maioria eram idosos e haviam muitas senhoras morando sozinhas, ou com suas irmãs. Eu era o cara que trazia da rua o que elas precisavam e não tinham quem comprar (pão, frutas, legumes, cigarro…) tia Zara foi uma querida amiga de 72 anos e reunia a tarde à outras amigas que se tornaram minhas também, para falarem de sexo, solidão, amor, religião, casamento, enfim! Tia Zara, a do cigarro, ia tocar minha campainha para nos juntarmos nessa roda de conversa e me deliciava pelas histórias, confiança e carinho que essas 5 senhoras tinham por mim. Resolvi escrever uma peça e comecei a esboçar um roteiro. Um querido amigo, Allan, soube por mim e resolveu que devíamos fazer um documentário. Só que eu trabalhava muito e ele estava cursando a faculdade de cinema… O tempo passou, a maioria das senhoras morreram, tia Zara adoeceu e foi para minas, acabamos fazendo o documentário com outras senhoras e nenhuma dessas pode participar. O curta chamou-se SENHORAS. Fomos selecionados para à mostra Universitária de Cinema no CCBB. O prêmio eu não fui receber, já havia ganho pelos anos de convivência com elas.

_ Você também ganhou outros prêmios, me conta sobre eles?
Depois das premiações de SENHORAS, meu amigo Allan quis ver outros roteiros meus, eu tinha muita coisa esboçada e mil ideias na cabeça. Foi aí que contei a ele a história do pedreiro que cantava todo dia num Karaokê de boteco e sua vida em preto e branco só se tornava colorida quanto ele cantava, mas eu nem sabia como escrever roteiros, então mostrei o argumento, contando a história como se visse um filme, o primeiro nome foi Heraldos Show, Allan roteirizou e sugeriu o nome O brilho dos meus olhos, um trabalho lindo que levou os seguintes prêmios: Melhor Filme, no Festival Guarnicê em 2007, Melhor Festival de Cinema de ITU, 2007, Melhor Roteiro no Festival Short Film de Los Angeles, 2008, Prêmio Crítica, Festival Internacional de Atibaia, 2008, também recebi o prêmio de Cenário e Figurino pelo espetáculo Nona Nuvem, entre outros.

_ Você já expôs em diversos espaços. Qual foi sua primeira exposição individual?
Minha primeira individual foi Setembro Doce, na Galeria Z42 no Cosme Velho. A exposição foi toda pensada e bancada por mim. Com curadoria de João Paulo Quintella. Também tive como assistentes os amigos Artistas Raphael Cruz, Da Rato Preto na Maré, e Cris Pimenta, do Quilombo Aquilah. A exposição que duraria 1 mês, permaneceu por 2 meses!
_ Além disso, você também teve uma exposição individual no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, como foi esse processo pra você?
O convite para expor no HO partiu da querida Dinah Oliveira que já vinha acompanhando meu trabalho há um bom tempo. Eu acabava de retornar ao Lins, aluguei uma casa com quintal grande e muitas árvores e sempre escrevendo… Não sabia o que iria expor, tinha muitas telas prontas imensas, 2, 3 metros mas não era isso… Numa visita do meu amigo Renan que é ator, ficamos no quintal conversando e ele devorando os cajás. Nisso ele falou do cheiro do cajá e pensei….huuum isso dá um conto. O CHEIRO DO CAJÁ, no dia seguinte quando fui varrer o quintal, durante a noite, haviam vários cajás caídos. Fiz um amontoado deles e os deixei sobre uma lona aberta. O sumo que foi saindo deles aumentava o cheiro e toda a casa ficou tomada disso tudo, a mancha no tecido, as folhas, as vespas, os passarinhos, os cajás já secos… Comecei a escrever e a palavra que me veio à mente foi NÓDOA, uma mancha difícil de sair e lembrei de como eu manchava roupa quando era criança pegando jamelão, amora, jaca, aí lembrei do meu quintal de chão batido, das atiradeiras, das latas onde carregava água ,lembrei de minha mãe, da bacia, das bolsas pra levar roupa limpa, das minhas tias, avó, bisa, tataravó, marcas que ficam… Do meu quintal, de baixo de um pé de Cajá, criei todo um universo pra expor! E convidei a todos para caminharem sobre folhas secas… Em breve estarei fazendo uma pequena mostra de Nódoa. Que continua dando frutos. Foi grande a presença de jovens e crianças, isso me inspirou a escrever uma peça infantil, que já está pronta! Agora é ficar em casa se cuidando e fazendo ARTE!!!

_ Rona, comenta um pouco sobre Os Desertos de Laíde?
Escrevi o texto em 2010 a partir de um conto que dediquei a meus queridos primos que morreram assassinados e alguns amigos. A peça chamava-se Cristiano, que também é uma pintura de uma série chamada Primos. Minhas tias que eu amava não falavam sobre o assunto… Acho que doía muito. Então foi observando o silêncio que criei as falas de Laíde, uma mãe que perde 3 filhos assassinados e atravessa 3 desertos enquanto narra as morte e o amor pelos filhos! Um caminho longo que é amenizado por que ela tem ao seu lado Iansã, seu Orixá que lhe dá forças durante a travessia. Os Desertos de Laíde foi apresentado pela primeira vez no Largo das Artes, depois no CCBB com casa Lotada. Junto à uma exposição pequena chamada Iyá com curadoria de Leandro Cunha e Marcelo Moreira como monitor. A direção é de Luis Monteiro e no elenco Tatiana Henrique, Juciara Awó e Dai Ramos tocando ao vivo. Também na equipe de artistas incríveis: Cátia Costa, Eder Martins, Hebert Sayd, Camila Zampier, Ana Luzia, Tarso Gentil, Raphael Cruz, Hugo Lenner e Cris Pimenta. Texto, direção e figurinos assinados por mim. Estamos atualmente concorrendo ao prêmio Shell de direção musical, e estaremos de volta em breve!
_Rona, a materialidade do seu trabalho se dá de diversas formas. Queria fazer uma pergunta sobre suas pinturas, você tem alguma referência? De onde elas surgem?
Surgem do meu olhar! Entendo minhas pinturas e me deixo levar pelas histórias que crio, personagens, roupas, nomes, lugares e vou construindo noite à dentro… A rua me alimenta muito, bato perna mesmo pela cidade. Depois crio um diálogo comigo mesmo, através das pinturas que contam histórias… A Folia de Reis da minha Comunidade é uma grande influência para mim. Suas cores, música, poesia, suas performances. Eu via aquela explosão de tudo sentado na sacada da janela e queria saber como se construía aquilo. Fui a museu muito, muito depois… Mas teve um artista que me tocou ainda novo, Heitor dos Prazeres, sou apaixonado pela simplicidade que me revelou um cotidiano no qual eu também vivia, e pensei: quero falar sobre as coisas que gosto de fazer. Depois, conheci o Profeta Gentileza no Largo da Carioca distribuindo flores e frases, eu achava lindo… Era muito poético visualmente, me encantou e ele trazia na mão uma bandeira de flores e fitas, me lembrou a Folia de Reis, depois veio Bispo do Rosário. Nunca fui muito ligado nos artistas gringos. Sei nada sobre arte, só sei que gosto de inventar coisas!!!



_ Como você comentou, dá pra identificar uma grande influência do Candomblé na sua arte, e também na sua vida, fala um pouco sobre isso?
Conheci o Candomblé aos 11 anos de idade levado por minha tia Cidinha, irmã do meu pai que era do santo. Mas já frequentava as festas de Erê no Centro da Dona Conceição onde meu pai, Dinart, tocava tambor vez ou outra. Minha conexão com o Candomblé foi imediata mas só fui me iniciar em 2001. Tenho 19 anos de Iniciado e digo sempre do amor e respeito que tenho pelos Orixás. O Candomblé me fortalece, me ensina todos os dias. Tenho muitas histórias de devoção aos meus Orixás e do quanto eles me guiam e protegem. Se algumas pessoas soubessem da beleza existente nos ensinamentos, preparativos, a força de um Orixá, a beleza das Cantigas, o aprendizado que tive lá dentro durante os 3 meses que fiquei na roça e mais 5 meses cumprindo com meus preceitos dentro de casa eu trouxe pra vida. Sou muito feliz e grato aos Orixás, a tempo por ter sido iniciado e nunca ter duvidado do amor de meus Orixás, eu os amo e agradeço a eles todos os dias pela vida, pela saúde e pela arte. Eles estão presentes em várias pinturas e em todas as minhas exposições representados de alguma maneira e Exú está em todas. Toco minha vida num ritmo bem perto do Candomblé. E tô muito feliz ao conduzir esse ritmo!!
Okê Arô Oxossi!!!!
Eparrey Iansã!!!

Individuais
Nódoa, Centro Municipal Hélio Oiticica, RJ, 2019.
Tempo, Na Figueiredo, Belém do Pará, 2019.
IYÁ, Os Desertos de Laide, CCBB, RJ, 2019.
Setembro Doce, Z42, Cosme Velho, RJ, 2018.
Itan, Memorial Getúlio Vargas, RJ, 2018.
Coletivas
Esqueleto – 70 anos de UERJ, Paço Imperial, RJ, 2019/2020.
Typo Coletivo, Galeria Tipografia, RJ, 2019.
Casa Jacaranda, RJ, 2019.
Saravá – Galeria Benedito Braga Coletiva, Belém do Pará, 2019.

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.