
Mini bio
Luís Augusto, 36 anos, São Pedro da Aldeia – RJ. Compositor e artista plástico, estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (2008). Dedica-se a pesquisa com nanquim sobre papel fazendo uso de pena e pincéis orientais, além de experimentos com luz para delinear personagens e paisagens conceituais/espirituais. Realizou capas de discos e cenários para artistas como Chinese Cookie Poets, Negro Leo, dentre outros.

_ Luis, conta um pouco sobre o seu início nas artes visuais, como tudo começou?
Essa é uma questão um tanto capciosa pois os recortes podem ser muitos! Considerando a infância, posso dizer que nasci desenhando ou melhor, rabiscando, e que meus pais sempre me deram muita liberdade para tal, não apenas em folhas em branco como em revistas, livros e jornais, especialmente quando não estavam atentos! Por meu pai ser de aviação naval o tema de barcos, helicópteros e aviões eram os mais comuns em minha “iconografia”, mas lembro-me especialmente de imagens da televisão da guerra do golfo que implodiram minha imaginação não apenas com desenhos, mas na forma que eu brincava com meus bonecos. Em casa, planejava com minha irmã desenharmos para vender parte da produção seja escola ou na igreja, mas essa ideia nunca deu muito certo. Talvez até hoje. Ao menos já tinha em mente as dificuldades de inserção no mercado. Por volta dos 11 ou 12 anos parei de desenhar por hobby ou ocupação como nos tempos de criança e retomei esse ato durante a faculdade de filosofia. Eu gostava de preencher os espaços vazios ocupados pelas notas filosóficas nas salas de aula com traços, rabiscos e eventuais rostos ou paisagens que vinham a mente. Alguns amigos curiosos com meus cadernos de notas diziam: – Uau, você desenha bem! E eu apenas desdenhava deles e menosprezava isso que hoje tem um espaço substancial na minha vida como um todo. Certa vez, saindo do IFCS, resolvemos ir ao CCBB, eu e minha querida amiga Marina, e ela fez uma surpresa dando-me o que viria a ser meu principal meio de trabalho, um pequenino vidro de nanquim e uma pena. Não me esqueço, ela desenhou um papel higiênico com asas e falou: – Divirta-se! Desde então não parei mais. Comecei a desenhar com um certo rigor, mas sem qualquer pretensão profissional. Tempos depois, outra amiga, Ana, que acompanhou esse processo me incentivou a procurar o Parque Lage e pleitear uma bolsa. O fiz no segundo semestre de 2008, sendo talvez um marco na minha trajetória e onde fiz pintura com o saudoso João Magalhães, quem na verdade me recebeu e me estimulou a fazer outros cursos na escola, e dos quais optei pela serigrafia com a Evany Cardoso e teoria da arte moderna com o Pedro França. Cheguei a participar de uma exposição coletiva de serigrafia nesse mesmo ano.

_ Luis, como nos conhecemos na faculdade de Filosofia, queria também que você falasse sobre a relação da filosofia, da música e das artes dentro do seu trabalho.
Música e filosofia são alguns dos meus pilares do e/ou no meu fazer artístico, sem as quais nada faria muito sentido. A filosofia como tradição de conhecimento que me estimula a pensar filosoficamente a arte e a música como expressão mais tênue da vontade que de algum modo busco plasmar em minha obra. Mais do que ver outras obras da tradição pictórica para de algum modo dialogar, me sintonizo mais em leituras e música para fazer meu trabalho, mas isso não significa que eu não valorize esse aspecto na minha formação. Além do mais, morando no interior, o acesso a essas outras artes fica mais restrito, ou mesmo ao mercado de arte.

_ Você poderia falar um pouco sobre a sua série “aura córtex pixels nanquim”?
A série aura córtex pixels nanquim em termos formais é fruto de um longo exercício sobre os limites da produção/reprodução de imagens, num diálogo entre autenticidade, originalidade e reprodutibilidade a partir do pensamento benjaminiano e nesse ínterim fui desenvolvendo toda uma linguagem que expressa por assim dizer meu estilo. O objetivo é subverter o aqui e agora dos originais, no caso, obras em nanquim sobre imagens reproduzidas em livros e revistas, fotografando-as com uma câmera de smartphone e utilizando recursos como luz e filtros na elaboração de uma imagem outra, semelhante, no entanto, diferente. Deste modo, busca-se capturar algumas das possibilidades imanentes aos originais a partir de seus duplos, desenraizando o objeto de arte, dito sempre igual e idêntico a si mesmo, e desestruturando a noção de autenticidade a partir da constituição de uma outra imagem pautada agora na ideia de reprodutibilidade graças, sobretudo, às plataformas digitais. Gerar sobretudo estranhamento, questionando alguns valores do sistema das artes, como a importância da dimensão física de uma obra na construção do valor de mercado, além do enredamento de problemas que um objeto artístico pautado na reprodutibilidade pode gerar. Tudo isso compreendendo a aura como um modo de percepção e não como uma propriedade objetiva do objeto artístico ou das coisas. Qual seria o valor e/ou o estatuto do original frente a sua compossível imagem produzida a partir dos princípios da reprodutibilidade representados pela fotografia? Questão de belo ou economia política?

_ Você gostaria de falar brevemente sobre seus projetos atuais?
Antes da pandemia eu estava gravando um disco com minha banda que modéstia a parte só tem batuta, e que ficou suspenso até podermos nos reunirmos novamente. Mas quanto às artes plásticas tenho trabalhado uma espécie linha de pesquisa, para falar academicamente, e que por ora se intitula Matrizes místicas, manifestações estéticas e cuja produção material teria como um primeiro fruto uma espécie de instalação ou conjunto de instalações que eu ainda não sei bem ao certo como será, mas que se intitula CAOSMOGONIAS – O JARDIM DA IMANÊNCIA, O RIO DO TEMPO. Não me interessa, por hora, apenas produzir objetos artísticos, e sim provocar acontecimentos e a arte é um bom espaço para isso, capturar uma experiência de consciência a partir de um espaço florido para a percepção imanente da não-localidade através da projeção de imagens moldadas pela criação do (in)consciente artístico como um rio do tempo, produzido pelo hábito da pintura e a memória do mundo. Se por um lado alguns dos relatos dos antigos jardins orientais descreviam como eles tentavam criá-los buscando a maior verossimilhança com a natureza bruta, a ponto de o olhar desavisado não conseguir distinguir uma paisagem natural, pedra sobre pedra ou arranjo de plantas, o arranjo ou a matéria nesta série seriam outros, talvez a antimatéria desse jardim seja oriundo sobretudo do nanquim, matéria escura, matéria prima, aliado a um colorido ainda não definido para dar esplendor à consciência de perceber como este jardim nos remete a alguns dos elementos da pintura zen, como assimetria, simplicidade, altitude, naturalidade ou evidência, profundidade abissal, desapego, tranquilidade, serenidade e equilíbrio interior. No entanto, o tempo cosmológico do espírito, o tempo de suspensão e contemplação absorvido no inefável mistério da vida são as trilhas a serem seguidas. As figuras manifestadas não afirmam certezas, mas sugerem imagens composíveis que se conformam entre o caos e o cosmos, buscando implodir a ideia de finitude em si, especialmente através da noção de abertura, não apenas liberando a imagem, mas a própria consciência para temas espirituais subterrâneos com os quais a arte lidou desde seus primórdios e ao longo de sua tradição, seja no leste ou no oeste. Partindo dos limites da inscrição e buscando a transcendência da visão e dos sentidos, papel, tinta, áudio, luz, câmera, projeção ou o que mais forem usados para descobrir a imagem da ação, do gesto, do movimento da imagem, a captura do tempo da imagem. Com o tempo, trata-se de trazer à baila a imagem viva, rediviva e a dignidade da compreensão temática pictórica da amplitude como traços do ser e da existência. Desculpe o desvario, tudo ainda muito insipiente muito novo, mas espero que em breve eu consiga traduzir em palavras mais precisas e em imagens justas, além de ter condições de realizar este ambicioso trabalho. Tenho me dedicado bastante para dar forma a este projeto, mas sei que ainda falta bastante.

Exposições:
Coletivas
2008 – “Serigrafia”, EAV Parque Lage
2017 – XI Salão Nacional Vitor Meirelles
2019 – Lanzarote Arts Festival

Marcela Tavares 1985. Professora de Filosofia no IFRJ campus Duque de Caxias e dá aulas na Pós-graduação Lato Sensu em Linguagens Artísticas, Cultura e Educação do IFRJ campus Nilópolis. Doutoranda pelo Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFRJ na linha de pesquisa História e Crítica de Arte, é mestre em Estética e Filosofia da arte pela UFOP e especialista em Ensino de Artes pela UERJ. É licenciada e Bacharel em Filosofia pela UFRJ. Atualmente, faz parte do Projeto “Filósofas na Rede”.